Paradoxo da Parcimônia (publicado no Valor, 5 de novembro de 2015)

G15 - Renda Consumo e PoupançaColocações no Ranking G15 Y C SGráfico G15 S C FCFoi publicado hoje um artigo de minha autoria no jornal Valor: FERNANDO COSTA Paradoxo da Parcimônia – Valor 05.11.2015. Compartilho-o abaixo. Em seguida, está o artigo publicado por Aquiles Mosca (Valor, 14.10.2015), para download, que me motivou a escrever o meu.

No ranking dos quinze países com maiores PIB por paridade do poder de compra (G15), o Brasil tem uma das menores poupanças brutas (16,2% do PIB), acima só da inglesa (12,2%) e logo abaixo da norte-americana (17,9%). Será esse “consumismo” brasileiro resultante da colonização cultural inglesa no século XIX e da norte-americana no século XX? É puro efeito demonstração por parte de “novos-ricos” brasileiros em busca de exibição de status esnobe com seu consumo suntuário? Ou será um comportamento geral do nosso povo?

Na verdade, se para investimento o que de fato importa é financiamento, pouco importa essa poupança que equilibra (ex-post) as Contas Nacionais. É apenas uma variável residual entre o fluxo de renda e o fluxo de consumo durante certo período. Não é objeto de decisões individuais. Portanto, não será com mudança nos comportamentos individuais, provocada por um “empurrãozinho” (nudge em inglês), por exemplo, deixando automática ou inercial a adesão de empregados a fundos de pensão, que irá se agregar poupança na Contabilidade Social.

Na primeira aula de um curso de Introdução à Economia, o professor deve ensinar qual é o conhecimento específico dos economistas: o sistêmico. A economia é um Sistema Complexo em que, através das interações entre heterogêneos e estratificados agentes econômicos, emergem-se fenômenos macroscópicos. Eles não são passíveis de serem observados se o analista focalizar apenas os comportamentos individuais microscópicos.

O chamado Paradoxo da Parcimônia é a ilustração econômica mais conhecida de sofisma da composição, alertado por Aristóteles: “o todo é maior que a soma de suas partes”. No caso, isso significa que, quando predomina na sociedade uma atitude de “apertar-os-cintos”, supostamente para aumentar a poupança, diminui o consumo, caem as vendas, aumentam os estoques, cancelam-se demandas aos fornecedores, eleva-se a capacidade ociosa, desestimula-se novos investimentos. Então, a multiplicação de renda e emprego é reduzida. Logo, diminuirá a variável residual entre o menor fluxo de renda e o consumo básico mantido. Com a intenção predominante de se aumentar a poupança ela acaba diminuindo!

Economistas com formação pré-keynesiana insistem com o reducionismo ao extrapolar as atitudes pessoais para configurar o todo. Receitam o aumento da taxa de juros para se criar um incentivo ao corte de gastos em consumo e a elevação do que chamam de “poupança”. Essa dependência de trajetória dos juros reais elevadíssimos na economia brasileira eleva a desigualdade social através do enriquecimento financeiro sem a contrapartida de se obter maior poupança macroeconômica como eles esperam, “para ser canalizada ao investimento”.

Pesquisa de Federação do Comércio revela que, grosso modo, 30% das famílias têm sobra da renda depois de todas as despesas pagas, 50% tem o orçamento doméstico equilibrado e 20% não têm renda suficiente para quitar todos os dispêndios e tendem a atrasar o pagamento dos débitos. Cerca de 80% dos consumidores preferem comprar de forma parcelada e são mais suscetíveis à redução do prazo de financiamento (ou do número de parcelas) do que à alta dos juros. O impacto nas vendas da redução nesse prazo é inclusive maior do que o da queda na renda. O que mais importa para o consumo popular é “se a prestação cabe no bolso”.

Contra o argumento de que “não se poupa na sociedade brasileira porque a maioria ganha pouca renda”, costuma-se alegar que “se o nível de renda fosse determinante para a capacidade de poupar, todo país com renda per capita menor do que a brasileira deveria ter taxas de poupança mais baixas”. No G15, a renda per capita brasileira por paridade do poder de compra (US$ 16.100) é superior somente às do México (US$ 15.600), China (US$ 9.800) e Índia (US$ 4.000). Mas as poupanças brutas destas duas últimas, respectivamente, 48,9% e 30%, conjuntamente com a da Coréia do Sul (35,1%), estão entre as três maiores.

A China tem o menor percentual (6,1%) da população abaixo da linha de pobreza e a menor participação do consumo no PIB (36,8%), enquanto o Brasil tem, respectivamente, 21,4% (11o. Lugar) e 63,5% (12o.). Quanto ao percentual de consumo dos 10% das famílias com renda mais baixa e dos 10% das com renda mais alta, no caso chinês é 1,7% (11o.) e 30% (6o.) e no caso brasileiro é 0,8% e 42,9%. O País ocupa a última colocação nesses quesitos, assim como no fluxo comercial (exportação + importação / PIB): 28,4%. Esse baixo grau de abertura externa indica a maior importância de seu mercado interno para o dinamismo da economia. Diminuir o consumo doméstico é o caminho para a recessão.

Outra particularidade brasileira é que, embora tenha melhorado, a distribuição de renda ainda é pior entre todos os países do G15, pois tem o Índice de Gini mais elevado. Porém, a concentração de riqueza financeira é muito mais grave. São 8.967.859 milhões de investidores financeiros em fundos e depósitos bancários que possuíam, em junho de 2015, a média per capita de R$ 82.540, sendo que para os 6,1 milhões do varejo essa média era R$ 45.265 e para os 2,9 milhões do varejo de alta renda era R$ 161.952. Entre os 98 milhões de depositantes de poupança, o saldo médio dos 85 milhões que tinham até R$ 5.000 em sua caderneta era de apenas R$ 482. Por sua vez, os 57.505 clientes do Private Banking tinham, em média per capita, R$ 12.069.350!

Essa é a perversidade social fruto de análise equivocada de economistas. A manutenção de altos juros beneficia só a elevação da renda do capital dessa casta de 9 milhões de investidores que tem, praticamente, todas suas necessidades de consumo já atendidas. Penaliza o emprego e a renda do trabalho do resto da população economicamente ativa. Cresce só a “poupança financeira”, enquanto decresce a “poupança macroeconômica”.

Leia mais:

AQUILES MOSCA – É possível levar uma nação a poupar mais? Valor, 14.10.2015

Bola na Rede

3 thoughts on “Paradoxo da Parcimônia (publicado no Valor, 5 de novembro de 2015)

  1. Boa tarde Fernando!!!!!!!!

    Sou seu fã!!!!!!! Há algum tempo venho acompanhando os textos do blog e sempre volto…

    Só queria chamar a atenção para a data no link da publicação do VALOR ficou “no futuro”, em 09/11/2015

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