Palestra TED de Lee Smolin: Ciência e Democracia

“Será que pensamos muito sobre o que faz a Ciência funcionar? A primeira coisa que qualquer um que conhece Ciência, e vive envolvido com a Ciência, sabe é que isso que se aprende na escola como método científico está errado. Não existe método. Por outro lado, de algum modo, nós conseguimos raciocinar em conjunto, como uma comunidade, a partir de evidências incompletas, até chegar às conclusões sobre as quais estamos de acordo. Isso, aliás, é algo que uma sociedade democrática também precisa fazer.

Então, como é que isso funciona? Bem, minha convicção é que funciona porque os cientistas são uma comunidade aglutinada por uma ética. E aqui estão alguns dos princípios éticos. Não vou ler todos para vocês porque não estou aqui no modo “professor“, estou no modo “entreter“, “surpreender“. (Risos)

Mas um dos princípios é que todos que fazem parte da comunidade têm oportunidade de lutar e argumentar, com toda a ênfase que puderem, pelo que acreditam. Mas todos nós somos disciplinados pelo reconhecimento de que somente quem irá decidir se quem está certo sou eu ou uma outra pessoa, são aqueles que farão parte da nossa comunidade na próxima geração, daqui a 30 ou 50 anos.

Assim, o que faz a Ciência funcionar é essa combinação de:

  1. respeito pela tradição e pela comunidade à qual pertencemos, e
  2. rebeldia de que a comunidade precisa para chegar a algum lugar.

Estar nesse processo de fazer parte de uma comunidade que raciocina partindo de evidências compartilhadas a conclusões, creio eu, nos ensina sobre a Democracia.

Não apenas existe uma relação entre:

  1. a ética da Ciência e
  2. a ética de ser um cidadão em uma Democracia.

Tem existido, historicamente, uma relação entre:

  1. a maneira como as pessoas pensam sobre espaço e tempo,
  2. o que o cosmos é, e
  3. como as pessoas pensam sobre a sociedade na qual vivem.

Quero falar sobre três estágios dessa evolução.

A primeira Ciência Cosmológica que tinha algum jeito de ciência, foi a Ciência Aristotélica, que era hierárquica. A terra fica no centro, e depois há essas esferas de cristal, o sol, a lua, os planetas e, finalmente, a esfera celeste, onde estão as estrelas. E tudo nesse universo tem um lugar. A lei do movimento de Aristóteles era que tudo vai para seu lugar natural, o que era, obviamente, a regra da sociedade em que Aristóteles vivia, e, principalmente, da sociedade medieval que, por meio do Cristianismo, abraçou as ideias de Aristóteles e as abençoou.

A ideia é a de que tudo é definido. O lugar onde as coisas estão é definido em relação a esta última esfera, a esfera celeste, fora da qual fica o reino eterno e perfeito onde Deus vive, que é o juiz absoluto de tudo que existe. Assim é tanto a Cosmologia Aristotélica, quanto, de certo modo, a Sociedade Medieval.

No século XVII, houve uma revolução no pensamento sobre o espaço e tempo, o movimento, e assim por diante, de Isaac Newton. E, ao mesmo tempo, houve uma revolução no pensamento social de John Locke e seus colaboradores. E essas revoluções associavam-se intimamente. Na verdade, Newton e Locke eram amigos. Relacionavam-se intimamente:

  1. seus modos de pensar o espaço e tempo, e o movimento, por um lado, e
  2. a sociedade, por outro.

Em um universo newtoniano, não há um centro. Há partículas que se movem de acordo com uma estrutura fixa e absoluta de espaço e tempo. Faz total sentido falar sobre a localização de alguma coisa no espaço, porque isso é defini-la, não em relação a, digamos, onde outras coisas estão, mas em relação a esta noção absoluta de espaço, que, para Newton, era Deus.

Do mesmo modo, na sociedade de Locke, existem indivíduos que possuem certos direitos às propriedades, em um sentido formal, os quais são definidos em relação a algumas noções absolutas e abstratas de direitos e justiça. Estes são independentes de tudo mais que esteja acontecendo na sociedade, de quem mais existe, da história e assim por diante.

Há também um observador onisciente que sabe tudo, que é Deus, que está, de certo modo, fora do universo, porque Ele não participa do que quer que aconteça, mas está, em um certo sentido, em toda parte, porque o espaço é exatamente o modo como Deus sabe onde todas as coisas estão, de acordo com Newton, certo?

Assim, são esses os fundamentos do que tradicionalmente é chamado Teoria Política Liberal e Física Newtoniana.

Agora, no século XX, tivemos uma revolução que teve início no começo do século, e que ainda está acontecendo. Ela começou com a formulação da Teoria da Relatividade e da Teoria Quântica. A fusão das duas para alcançar a teoria quântica final do espaço e tempo, e gravidade, é o auge disso, algo que está acontecendo neste momento.

Neste universo não existe nada fixo nem absoluto. Nada. Este universo é descrito como sendo uma rede de relacionamentos.

O espaço é apenas um aspecto, assim não faz sentido dizer, de modo absoluto, onde uma coisa está localizada. Só se pode dizer onde ela está em relação a outras coisas que existem. Essa rede de relações está constantemente evoluindo. Isso é o que denominamos Universo Relacional. Todas as propriedades das coisas se referem a esses tipos de relacionamentos.

Se você faz parte de tal rede de relacionamentos, sua visão do mundo tem a ver com quais informações chegam a você através da rede de relacionamentos. Não há espaço:

  1. para um observador onisciente ou
  2. para uma inteligência externa [onipotente] que sabe e faz todas as coisas.

Assim são a Relatividade Geral e a Teoria Quântica.

Se vocês falarem com os estudiosos do Direito, esses são os fundamentos das novas ideias no Pensamento Legal. Eles estão pensando sobre as mesmas coisas. E não apenas isso, eles, muitas vezes, fazem analogias com a Teoria da Relatividade e a Cosmologia. Desse modo, há uma discussão muito interessante acontecendo por aí. Essa visão cosmológica recente é chamada Visão Relacional.

Assim, o lema nessa visão é que não existe nada fora do universo, o que significa que não faz sentido colocar a explicação de alguma coisa do lado de fora. Nesse Universo Relacional, você está diante de alguma coisa que é organizada e estruturada, em termos deste dispositivo aqui, ou daquele ali.

E daí você quer saber como isso foi feito. Em um Universo Relacional a única explicação possível é que, de algum modo, a pessoa fez a si mesma. É preciso que existam mecanismos de auto-organização, dentro do universo, que produzam as coisas. Porque não existe a possibilidade de colocar um artífice do lado de fora, como existia nos universos aristotélico e newtoniano. Assim, em um universo relacional, precisamos ter processos de auto-organização.

Charles Darwin nos ensinou que existem processos de auto-organização, que são suficientes para explicar todos nós e tudo que nós vemos. E assim é que funciona.

Se vocês pensarem sobre o modo como a seleção natural funciona, então percebe-se que a seleção natural só faria sentido em um universo relacional assim. A seleção natural trabalha com propriedades, tais como adequação [regras de originação-adoção-retenção e/ou reprodução: inovação – dependência de trajetória – padrão comportamental com novos hábitos e rotinas organizacionais – estabilização institucional, ou seja, descoordenação-reordenação-coordenação da macroestrutura], que se referem a relacionamentos de algumas espécies com outras espécies.

Darwin não faria sentido em um Universo Aristotélico. Na verdade, também não faria sentido em um Universo Newtoniano.

Desse modo, uma Teoria da Biologia, baseada na seleção natural, exige uma noção relacional sobre quais são as propriedades dos sistemas biológicos. E, se vocês levam isso até as últimas consequências, realmente, essa ideia faz mais sentido num universo relacional no qual todas as propriedades são relacionais.

Não apenas isso, mas Einstein nos ensinou que a gravidade resulta do fato do mundo ser relacional. Se não fosse pela gravidade, não haveria vida, porque a gravidade faz as estrelas se formarem e viverem por um tempo muito longo, mantendo as partes do mundo, como a superfície da terra, fora do equilíbrio térmico por bilhões de anos, de modo que a vida pudesse evoluir.

No século XX, observamos o desenvolvimento independente de dois grandes temas na Ciência.

  1. Nas Ciências Biológicas, eles exploraram as implicações da noção de que ordem, complexidade e estrutura emergem de modo auto-organizado. Esse foi o triunfo do Neo-Darwinismo e assim por diante. Gradativamente, essa ideia está permeando as Ciências Cognitivas, as Ciências Humanas, a Economia, etc.
  2. Ao mesmo tempo, na Física, nós, físicos, estivemos atarefados tentando entender, elaborar e integrar as descobertas da Teoria Quântica e da Relatividade. O que estivemos elaborando são, na verdade, as implicações da ideia de que o universo é constituído por relações.

A Ciência do século XXI será movida pela integração dessas duas ideias:

  1. o triunfo dos modos relacionais de pensar sobre o mundo, por um lado, e
  2. a auto-organização ou modos darwinistas de pensar sobre o mundo, por outro.

Além disso, no século XXI, nosso pensamento sobre espaço, tempo e cosmologia, e nosso pensamento sobre a sociedade irão, ambos, continuar a evoluir. E a direção na qual eles estão evoluindo é a união dessas duas grandes ideias:

  1. darwinismo e
  2. relacionismo.

Então, se vocês pensarem sobre Democracia dessa perspectiva, uma nova noção pluralista da Democracia seria aquela que reconhece que existem:

  1. vários interesses diferentes,
  2. várias pautas diferentes,
  3. muitos indivíduos diferentes,
  4. muitos pontos de vista diferentes.

Cada um deles é incompleto, porque você está inserido numa rede de relacionamentos. Qualquer agente em uma Democracia está inserido em uma rede de relacionamentos. E você entende algumas coisas melhor do que outras, e, por causa disso, há um contínuo empurra-empurra, e concessões mútuas, que é a Política. E a Política é, no sentido ideal, o meio pelo qual continuamente dirigimos a nossa rede de relacionamentos para conseguirmos uma vida melhor e uma sociedade melhor.

Também creio que a Ciência jamais desaparecerá e – terminarei com essa frase. (Risos) De fato, já concluí. A Ciência jamais desaparecerá!

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