Culto do Homem

Religiões Humanistas

Yuval Noah Harari, no livro “Sapiens – uma breve história da humanidade”, afirma que a religião é um sistema de normas e valores humanos que se baseia na crença em uma ordem sobre-humana.

  • A Teoria da Relatividade não é uma religião porque (pelo menos até agora) não há normas e valores humanos baseados nela.
  • O futebol não é uma religião porque ninguém afirma que suas regras refletem decretos sobre-humanos.
  • O judaísmo, o cristianismo, o islamismo, o budismo e o comunismo são religiões porque são sistemas de normas e valores humanos que se baseiam na crença em uma ordem sobre-humana.

Note que ele faz a diferença entre “sobre-humano” e “sobrenatural”. A lei da natureza budista e as leis da história marxistas são sobre-humanas, já que não foram legisladas por humanos. Mas não são sobrenaturais.

Vamos apresentar seus argumentos iconoclastas — aqueles que destroem imagens religiosas ou se opõem à veneração de ícones — em defesa dessas teses.

Os últimos 300 anos muitas vezes são retratados como uma Era de Secularismo crescente, em que as religiões perderam cada vez mais sua importância. Se estamos falando de religiões teístas, isso é, em grande parte, correto. Mas, se levarmos em consideração as religiões baseadas em leis naturais, veremos que a modernidade é uma era marcada por:

  1. intenso fervor religioso,
  2. esforços missionários sem paralelos e
  3. as guerras religiosas mais sanguinárias da história.

A Era Moderna testemunhou a ascensão de uma série de religiões baseadas em leis naturais, como o liberalismo, o comunismo, o capitalismo, o nacionalismo e o nazismo. Esses credos não gostam de ser chamados de religiões e se referem a si mesmos como ideologias. Mas esse é apenas um exercício semântico. Se uma religião é um sistema de normas e valores humanos que se baseia na crença de uma ordem sobre-humana, então o comunismo soviético é uma religião tanto quanto o islamismo.

O islamismo é, obviamente, diferente do comunismo, porque o islamismo vê a ordem sobre-humana governando o mundo como o decreto de um deus criador onipotente, ao passo que o comunismo soviético não acreditava em deuses, mas fazia culto às personalidades de Lenin e Stalin. Mas o budismo também dá pouca importância aos deuses, e ainda assim nós o classificamos como uma religião.

Como os budistas, os comunistas acreditavam em uma ordem sobre-humana de leis naturais e imutáveis que devem guiar as ações humanas. Enquanto os budistas acreditam que a Lei da Natureza foi descoberta por Sidarta Gautama, os comunistas acreditavam que a Lei da Natureza foi descoberta por Karl Marx, Friedrich Engels e Vladimir Ilitch Lenin. A similaridade não termina aí.

Como outras religiões, o comunismo também tem seus escritos sagrados e seus livros proféticos, como O Capital, de Marx, que previu que a história logo terminaria com a vitória inevitável do proletariado. O comunismo tinha seus feriados e festividades, como o Primeiro de Maio e o aniversário da Revolução de Outubro. Tinha teólogos adeptos da dialética marxista, e cada unidade no exército soviético tinha um capelão, chamado de comissário, que monitorava a devoção de soldados e oficiais. O comunismo teve mártires, guerras santas e heresias, como o trotskismo.

O comunismo soviético foi uma religião fanática e missionária. Um comunista devoto não podia ser cristão nem budista, e se esperava que difundisse o evangelho de Marx e Lenin mesmo que isso lhe custasse a própria vida.

Alguns leitores podem se sentir desconfortáveis com essa linha de raciocínio. Se isso o faz se sentir melhor, continue chamando o comunismo de ideologia em vez de religião. Não faz diferença para Yuval Noah Harari.

Podemos dividir os credos em:

  1. religiões centradas em deus e
  2. ideologias sem deus que afirmam se basear em leis naturais.

Mas, então, para sermos coerentes, precisaríamos catalogar pelo menos algumas seitas budistas, taoistas e estoicas como ideologias em vez de religiões. Por outro lado, devemos notar que: a

  • crença em deuses persiste no seio de muitas ideologias modernas e
  • algumas delas, mais notadamente o liberalismo, têm pouco sentido sem essa crença.

Seria impossível investigar, aqui, a história de todos os credos modernos, especialmente porque não há fronteiras claras entre eles. São tão sincréticos quanto o monoteísmo e o budismo popular.

Assim como um budista pode cultuar deidades hindus e um monoteísta pode acreditar na existência de Satã, o norte-americano típico de nossos dias é simultaneamente:

  1. nacionalista (acredita na existência de uma nação norte-americana com um papel especial a exercer na história),
  2. capitalista de livre mercado (acredita que a competição aberta e a busca dos próprios interesses são as melhores maneiras de criar uma sociedade próspera) e
  3. humanista liberal (acredita que os humanos foram dotados pelo criador de certos direitos inalienáveis).

O nacionalismo será discutido no capítulo 18 do livro “Sapiens – uma breve história da humanidade”, de autoria de Yuval Noah Harari. O capitalismoa mais bem-sucedida das religiões modernas – tem um capítulo inteiro, o capítulo 16, que expõe suas principais crenças e rituais. Nas páginas restantes deste capítulo, ele aborda as religiões humanistas. Resumo suas ideias no próximo post.

Leia maisNúmero de Religiões no Mundo passa de 10.000

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