Religiões Humanistas: Humanismo Evolutivo dos Nazistas

Genocídio

Yuval Noah Harari, em “Sapiens – uma breve história da humanidade”, afirma que a principal ambição dos nazistas era proteger a humanidade da degeneração e encorajar sua evolução progressiva. É por isso que os nazistas afirmavam que a raça ariana, para eles “a forma mais avançada de humanidade”, tinha de ser protegida e encorajada, ao passo que tipos degenerados de Homo sapiens, como judeus, ciganos, homossexuais e doentes mentais, tinham de ser colocados em quarentena e até mesmo exterminados.

Os nazistas explicavam que o Homo sapiens surgiu quando uma população “superior” de humanos antigos evoluiu, ao passo que populações “inferiores” como os neandertais foram extintas. Essas populações diferentes, no início, eram não mais diferentes do que raças, mas evoluíram de maneira independente por seus próprios caminhos evolutivos. Isso poderia muito bem acontecer novamente.

De acordo com os nazistas, o Homo sapiens já havia se dividido em várias raças distintas, cada uma delas com suas qualidades únicas. Uma dessas raças, a raça ariana, tinha as melhores qualidades – racionalismo, beleza, integridade, diligência. A raça ariana, portanto, tinha o potencial de transformar o homem em super-homem. Outras raças, como os judeus e os negros, eram os neandertais de hoje, apresentando qualidades inferiores. Se lhes fosse permitido procriar – e, em particular, procriar com arianos –, eles adulterariam todas as “todas as populações humanas e condenariam o Homo sapiens à extinção.

Desde então, os biólogos têm desmascarado a teoria racial nazista. Em particular, as pesquisas genéticas realizadas após 1945 demonstraram que as diferenças entre as várias linhagens humanas são muito menores do que os nazistas postulavam. Mas essas conclusões são relativamente novas.

Dado o estado do conhecimento científico em 1933, as crenças nazistas dificilmente estavam em dissonância com o pensamento da época. A existência de raças humanas diferentes, a superioridade da raça branca e a necessidade de proteger e cultivar essa raça superior foram crenças amplamente aceitas pela maior parte das elites ocidentais.

Acadêmicos nas universidades ocidentais mais prestigiosas, usando os métodos científicos ortodoxos da época, publicaram estudos que supostamente comprovavam que membros da raça branca eram mais inteligentes, mais éticos e mais habilidosos que africanos ou indianos. Políticos em Washington, Londres e Camberra davam como certo que era seu dever evitar a adulteração e a degeneração da raça branca ao, por exemplo, restringir a imigração da China ou mesmo da Itália para países “arianos” como os Estados Unidos e a Austrália.

Essas posições não mudaram simplesmente porque novas pesquisas científicas foram publicadas. Os progressos sociológicos e políticos foram agentes muito mais poderosos de mudança.

Nesse sentido, Hitler cavou não só o seu próprio túmulo como também o do racismo em geral. Quando iniciou a Segunda Guerra Mundial, ele compeliu seus inimigos a fazerem distinções claras entre “nós” e “eles”. Mais tarde, precisamente porque a ideologia nazista era tão racista, o racismo caiu em descrédito no Ocidente.

Mas a mudança levou tempo. A supremacia branca continuou sendo uma ideologia dominante na política norte-americana pelo menos até os anos 1960. A política da Austrália branca, que restringia a imigração de povos não brancos ao país, continuou vigente até 1973. Os aborígenes australianos não tinham direitos políticos iguais até os anos 1960, e muitos eram proibidos de votar nas eleições porque eram considerados inaptos para atuarem como cidadãos.

Os nazistas não detestavam a humanidade. Eles combatiam o humanismo liberal, os direitos humanos e o comunismo precisamente porque admiravam a humanidade (concebida por eles) e acreditavam no grande potencial da espécie humana.

Mas, seguindo a lógica da evolução darwinista [FNC: na verdade, o darwinismo social, um mixórdia pseudocientífica], argumentavam que era preciso permitir que a seleção natural eliminasse os indivíduos inaptos e deixasse que apenas os mais aptos sobrevivessem e se reproduzissem. Ao socorrer os fracos, o liberalismo e o comunismo não só permitiam que indivíduos inaptos sobrevivessem como também lhes davam oportunidade de se reproduzir, dessa formam boicotando a seleção natural. Em tal mundo, os humanos mais aptos inevitavelmente afundariam em um mar de degenerados inaptos. A humanidade se tornaria cada vez menos apta com o passar das gerações – o que poderia levar à sua extinção.

No início do terceiro milênio, o futuro do humanismo evolutivo não está claro. Durante 60 anos após o fim da guerra contra Hitler, foi um tabu associar humanismo com evolução e defender o uso de métodos biológicos para “aprimorar” o Homo sapiens. Mas hoje tais projetos estão em voga novamente. Ninguém [FNC: exceto os neonazistas de baixíssima capacidade mental] fala de exterminar raças ou pessoas inferiores, mas muitos cogitam usar nosso conhecimento cada vez maior da biologia humana para criar super-humanos.

Ao mesmo tempo, uma brecha enorme está se abrindo entre os dogmas do humanismo liberal e as últimas descobertas das ciências da vida, uma brecha que não podemos ignorar por muito tempo. Nossos sistemas jurídicos e políticos liberais se baseiam na crença de que todo indivíduo tem uma natureza interna sagrada, indivisível e imutável, que dá significado ao mundo e que é a fonte de toda autoridade ética e política. Essa é uma reencarnação da crença cristã tradicional em uma alma livre e eterna que reside em cada indivíduo.

Mas, nos últimos 200 anos, as ciências da vida minaram totalmente essa crença. Os cientistas que estudam o funcionamento interno do organismo humano não encontraram ali nenhuma alma. Eles argumentam cada vez mais que o comportamento humano é determinado por hormônios, genes e sinapses, e não pelo livre-arbítrio – as mesmas forças que determinam o comportamento de chimpanzés, lobos e formigas.

Nossos sistemas jurídicos e políticos tentam varrer tais descobertas inconvenientes para debaixo do tapete. Mas, com toda a franqueza, por quanto tempo poderemos manter o muro que separa o Departamento de Biologia dos Departamentos de Direito e Ciência Política?

FNC: parece que os biólogos evolucionistas, como Yuval Noah Harari, necessitam ter maior empatia com os juristas e politicólogos, não? Ele não faz uma crítica radical do darwinismo social e uma defesa da extensão dos direitos dos animais humanos aos outros animais…

3 thoughts on “Religiões Humanistas: Humanismo Evolutivo dos Nazistas

  1. Professor, não que faça grande diferença, mas o Yuval Noah Harari é historiador mesmo, e não biólogo. Eu também colocaria que há sim uma defesa da extensão dos direitos dos animais humanos aos outros animais, ainda que tímida. Tanto nos capítulos referentes à revolução agrícola, quanto à revolução industrial (ou agroindustrial, nos termo dele), há uma reiterada referência ao sofrimento daquelas espécias que tiveram o azar de nos servir como fonte de alimentos/insumos (novamente, voltando aos termos do Harari, azar do ponto de vista dos indivíduos dessas espécias, mas sorte do ponto de vista evolutivo, enquanto espécies).

  2. Lendo Sapiens , do historiador Yuval Noah Harari em nenhum momento ele tem uma posição de defesa do Humanismo evolutivo , seu grande livro não defende ideias e sim constata o caminhar do Homo Sapiens .Quando aos animais passa a ideia de simpatia e pesar pelo seu extermínio.

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