Palestra TED de Nicholas Christakis: A Influência Oculta de Redes Sociais

“De repente, dei-me conta de duas coisas muito simples.

Primeiro, o efeito da viuvez não estava restrito a maridos e esposas.

Segundo, não estava restrito a pares de pessoas.

Então, comecei a ver o mundo de uma forma totalmente nova, como pares de pessoas se conectavam uns aos outros. Compreendi que esses indivíduos estariam conectados em grupos de quatro pessoas a outros pares de pessoas próximas.

De fato, as pessoas estão inseridas em todos os tipos de relacionamentos, de casamento e união, de amizade e outros tipos de vínculos. Essas conexões são vastas. Nós estamos todos inseridos nesse amplo conjunto de conexões uns com os outros. Assim, comecei a ver o mundo por um prisma totalmente novo, e fiquei obcecado com isso.

Fiquei obcecado com:

  1. como poderia ser que estávamos inseridos nessas redes sociais, e
  2. como elas afetavam nossas vidas.

Assim, as redes sociais são essas coisas complexas de beleza. São tão elaboradas e tão complexas e tão onipresentes, na realidade, que alguém precisa perguntar:

  1. A que propósito elas servem?
  2. Por que estamos inseridos nessas redes sociais?
  3. Como elas se formam?
  4. Como elas operam?
  5. E como elas nos afetam?

A complexidade visual da rede social é muito alta. Não é óbvio o que está exatamente acontecendo. Além disso, algumas questões são imediatamente levantadas.

  1. Quantos agrupamentos existem?
  2. Há mais agrupamentos do que poderiam existir somente pelo acaso?
  3. Quão grandes são os grupos?
  4. Qual é o alcance deles?
  5. E, sobretudo, o que causa os agrupamentos?

Assim, fizemos alguns cálculos para estudar o tamanho desses grupos. Este aqui mostra, no eixo Y, o aumento na probabilidade de uma pessoa ter algum vírus e/ou receber um boato, em virtude de um de seus contatos sociais ser contaminado ou ter fofocado. E no eixo X, os graus de separação entre essas duas pessoas. E no extremo esquerdo, vocês verão uma linha roxa. Ela diz que, se seus amigos forem contaminados ou alertados, seu risco de contaminação ou ser informado é 45% mais alto. E a próxima barra acima, na linha laranja, diz que, se os amigos de seus amigos forem, seu risco é 25% mais alto. E a próxima linha acima diz que, se os amigos dos amigos de seu amigo, alguém que você provavelmente nem conheça, for contaminado ou fofocado, seu risco é 10% mais alto. Somente quando vocês chegam aos amigos dos amigos dos amigos dos amigos dos seus amigos, que a relação deixa de existir.

Bem, o que pode estar causando este agrupamento?

Há no mínimo três possibilidades.

Uma delas é que, na medida em que ganho o vírus ou recebo o boato, isso faz com que a pessoa mais próxima contamine ou espalhe, um tipo de indução, um tipo de propagação de pessoa a pessoa.

Outra possibilidade, muito óbvia, é a homofilia, ou “diga-me com quem andas …”. Aqui, eu formo meu vínculo a você pois você e eu partilhamos de uma visão de mundo similar.

A última possibilidade é o que chamamos de confusão, pois confunde nossa habilidade de entender o que está acontecendo. Aqui, a ideia não é que meu vírus está lhe contaminando, nem que eu preferencialmente forme um vínculo com você porque você e eu partilhamos do mesmo “espírito de corpo (ou de equipe)”, mas sim que partilhamos de uma exposição comum a algo como um hospital ou formação cultural que faz com que nós ficamos imunes mesmo tempo.

Quando examinamos esses dados, encontramos indícios de todas essas coisas, inclusive por indução. Constatamos que, se seu amigo se torna contaminado ou fofoqueiro, isso aumenta seu risco em cerca de 57% no mesmo período de tempo.

Podem existir muitos mecanismos para esse efeito. Uma possibilidade é que seus amigos lhe digam algo do tipo “vamos espalhar vírus e soltar boatos”, que é uma combinação horrível, mas você adota essa combinação, e então começa a ganhar fama de fofoqueiro como eles. Outra possibilidade mais sutil é que eles começam a ganhar popularidade no “feicebuque” e isso muda seus conceitos sobre qual postura é aceitável. Aqui, o que está se propagando de pessoa a pessoa não é um comportamento, mas sim uma norma. Um conceito se espalha.

Assim, nossas próximas questões foram:

  1. Podemos efetivamente visualizar essa difusão?
  2. O ganho de vírus por uma pessoa estava efetivamente levando ao ganho de epidemia em outra pessoa?

Isso era complicado porque devíamos considerar o fato de que a estrutura da rede, a arquitetura de seus vínculos, estava mudando com o tempo. E, adicionalmente, porque a boataria não é uma epidemia unicêntrica, não há um “fofoqueiro zero” da epidemia de calúnia – se encontrássemos esse cara, haveria uma difusão de boatos a partir dele. É uma epidemia multicêntrica. Muitas pessoas estão fazendo coisas ao mesmo tempo.

Depois de olhar a representação visual dessa complexidade, mudei a forma de enxergar as coisas, porque essa coisa, essa rede social, que está mudando através dos tempos, tem uma memória, ela se move, as coisas fluem dentro dela, ela tem um tipo de consistência; as pessoas podem morrer, mas ela não morre; ela ainda persiste. E tem um tipo de resiliência que a permite persistir através dos tempos.

Assim, cheguei a enxergar esses sinais das redes sociais como entes vivos, entes vivos que podemos colocar debaixo de um tipo de microscópio e estudar, analisar e entender. E usamos uma variedade de técnicas para fazer isso. E começamos a explorar todos os tipos de fenômenos. De modo que olhamos comportamentos de fumantes e de consumo de bebidas alcóolicas, e comportamentos de votação, e divórcio, que podem se espalhar, e altruísmo.

Consequentemente, nós nos interessamos pelas emoções. Bem, quando temos emoções, demonstramo-nas. Por que demonstramos nossas emoções? Deveria haver uma vantagem em experimentar nossas emoções internamente, vocês sabem, raiva ou felicidade, mas não somente as experimentamos, nós as demonstramos. Não somente as demonstramos, mas os outros podem percebê-las. Não somente podem percebê-las, mas também as copiam.

Há um contágio emocional que acontece nas populações humanas. Essa função de emoções sugere que, adicionalmente a outros propósitos que possam servir, elas são um tipo primitivo de comunicação. E que, de fato, se quisermos realmente entender as emoções humanas, precisamos pensar nelas dessa maneira.

Há um meio muito instintivo pelo qual brevemente transmitimos emoções uns aos outros. De fato, o contágio emocional pode ser ainda maior, ou seja, poderíamos ter pontuado expressões de raiva, como em tumultos.

A questão que queríamos nos indagar era: pode a emoção se espalhar, de maneira mais sustentável do que tumultos, através dos tempos e envolver grandes números de pessoas?

Talvez haja um tipo de tumulto calmo abaixo da superfície que nos movimenta a todo o tempo. Talvez haja um estouro de emoções que se movimenta através das redes sociais. Talvez, de fato, as emoções têm uma existência coletiva, não somente uma existência individual.

Assim, este trabalho com emoções, que são fundamentais, levou-nos a pensar que, talvez, as causas fundamentais de as redes sociais estarem de algum modo codificadas em nossos genes. Porque as redes sociais humanas, sempre que são mapeadas, sempre se parecem à complexidade? Por que não formamos redes sociais que se pareçam a treliças regulares?

Bem, os padrões marcantes das redes sociais, suas onipresenças, e seus propósitos aparentes imploram por questões sobre:

  1. se evoluímos para ter redes sociais, em primeiro lugar, e
  2. se evoluímos para formar redes com uma estrutura particular.

Para entendermos isso, entretanto, precisamos primeiramente dissecar um pouco a estrutura da rede. Notem que cada pessoa nessa rede tem exatamente a mesma localização estrutural que as demais pessoas. Mas esse não é o caso nas redes verdadeiras.

Dois indivíduos têm números diferentes de amigos. Isso é muito óbvio, todos sabemos disso. Mas certos outros aspectos da estrutura das redes sociais não são tão óbvios.

Comparem o nodo B no campo superior esquerdo ao nodo A no inferior esquerdo. E agora aquelas pessoas têm ambas quatro amigos, mas todos os amigos de A se conhecem, e os amigos de B não. Assim, o amigo de um dos amigos de A, é um amigo de A, ainda que um amigo de um amigo de B não seja um amigo de B, é mais distante na rede. Isso é conhecido como transitividade nas redes. E, finalmente, comparem os nodos C e D. C e D têm ambos 6 amigos.

Se vocês falarem com eles, e disserem, “Como é sua vida social?” Eles podem dizer, “Tenho seis amigos. Essa é minha experiência social.” Mas agora nós, com a visão do todo, olhando para essa rede, podemos ver que eles ocupam mundos sociais muito diferentes.

Posso incitar aquela intuição em vocês simplesmente ao perguntar-lhes: Quem vocês gostariam de ser se um germe letal estivesse se espalhando pela rede? Vocês gostariam de ser C ou D? Vocês gostariam de ser D, no limite da rede. E agora, quem vocês gostariam de ser se uma fofoca picante, não sobre vocês, estivesse se espalhando pela rede? Bem, vocês gostariam de ser C.

Assim, localizações estruturais diferentes têm implicações diferentes nas suas vidas. De fato, quando fazemos alguns experimentos olhando para isso, descobrimos que 46% da variação de quantos amigos vocês têm se explica pelos seus genes. Isso não é surpreendente. Sabemos, algumas pessoas nascem tímidas e algumas nascem sociáveis. Isso é óbvio.

Mas também sabemos algumas coisas não tão óbvias. Por exemplo, 47% da variação de se seus amigos se conhecem uns aos outros é atribuída aos seus genes. Se seus amigos se conhecem uns aos outros não tem somente a ver com os genes deles, mas também com os seus. Achamos que o motivo para isso é que algumas pessoas gostam de apresentar seus amigos uns aos outros – vocês sabem como vocês são – e outros de vocês os mantêm separados e não apresentam seus amigos uns aos outros. Assim, algumas pessoas constroem redes ao redor de si mesmas, criando um tipo de emaranhado denso de vínculos nos quais se encontram confortavelmente inseridos.

Finalmente, descobrimos ainda que 30% da variação se as pessoas estão ou não no meio ou na extremidade da rede pode também ser atribuída aos seus genes. Assim, se você se virem no meio ou na extremidade da rede social, isso também é parcialmente hereditário.

Bem, qual o ponto disso? Como isso nos ajuda a entender? Como isso nos ajuda a compreender alguns dos problemas que estão nos afetando atualmente?

Bem, o argumento que eu gostaria de sustentar é que as redes têm valor. Elas são um tipo de capital social. Novas propriedades emergem porque estamos inseridos nas redes sociais. Essas propriedades são inerentes, na estrutura das redes, não somente nos indivíduos dentro delas.

O padrão de conexões entre as pessoas confere sobre os grupos de pessoas diferentes propriedades. São os vínculos entre as pessoas que fazem o todo muito maior que a soma de suas partes. Assim, não é apenas o que está acontecendo a essas pessoas, se estão perdendo ou ganhando dinheiro, ou se tornando ricas ou pobres, ou felizes ou infelizes, que nos afeta. É também a arquitetura real dos vínculos em torno de nós.

Nossa experiência do mundo depende de:

  1. a estrutura real das redes em que residimos e de
  2. todos os tipos de coisas que transitam e fluem através da rede.

Bem, a razão, acredito, para isso é que os seres humanos se agrupam e formam um tipo de superorganismo. Bem, superorganismo é um tipo de coletivo de pessoas que mostram ou evidenciam comportamentos ou fenômenos que não são redutíveis ao estudo das pessoas e devem ser entendidos por referência ao estudo da coletividade, como, por exemplo:

  1. uma colmeia de abelhas que está buscando um novo lugar para nidificação, ou
  2. uma revoada de pássaros que está fugindo de um predador, ou
  3. uma revoada de pássaros que é capaz de juntar sua sabedoria e navegar para encontrar um pequeno ponto de uma ilha no meio do pacífico, ou
  4. uma matilha de lobos que é capaz de derrubar uma grande presa.

Os superorganismos têm propriedades que não podem ser entendidas apenas pelo estudo das pessoas. Acho que entender as redes sociais e como se formam e operam, pode nos ajudar a compreender, não somente a saúde e as emoções, mas todos os outros tipos de fenômenos como crimes e guerras e fenômenos econômicos como corridas aos bancos e quebras dos mercados e a adoção de inovações e a difusão da adoção de produtos.

Acho que formamos redes sociais porque os benefícios de uma vida conectada são maiores que os custos. Se eu fosse sempre violento com você ou lhe desse informações erradas, ou o entristecesse, ou lhe infectasse com germes letais, você cortaria seus vínculos comigo, e a rede se desintegraria.

Assim, a difusão de coisas boas e valiosas é exigida para sustentar e alimentar as redes sociais. Similarmente, as redes sociais são exigidas para a difusão de coisas boas e valiosas como amor e ternura e felicidade e altruísmo e ideias.

Acho, de fato, que se percebêssemos quão valiosas as redes sociais são, passaríamos mais tempo alimentando-as e sustentando-as, pois acredito que as redes sociais estão fundamentalmente relacionadas ao bem. Portanto, acho que o mundo precisa agora é de mais conexões.

2 thoughts on “Palestra TED de Nicholas Christakis: A Influência Oculta de Redes Sociais

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s