Narcos e a Economia das Drogas

Narcos 1

TacianaTive o prazer, neste semestre, ter como aluna, no Curso de Doutoramento do Instituto de Economia da Unicamp, a simpática Taciana Santos de Souza. Em que pese ser uma garota muito meiga, tornou-se especialista em um tema hard e inusual: Economia das Drogas. Defendeu sua Dissertação de Mestrado, em fevereiro de 2015, orientada pela professora Dr. Ana Lucia Gonçalves da Silva. É possível acessar o resumo e o trabalho completo no link:

http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000952327&opt=1

Gentilmente, como um aperitivo para a leitura de sua dissertação, escreveu um interessante comentário sobre a série de TV “Narcos” para este modesto blog.

Narcos 2

O seriado “Narcos”, transmitido pela Netflix, virou uma grande “febre” nos últimos meses. E não foi apenas o sotaque do Wagner Moura, que interpreta o narcotraficante Pablo Escobar, que gerou polêmica. A imensidão, quase sem dimensão, da fortuna gerada por esse negócio foi o que mais impressionou o público!

De fato, a questão das drogas ilegais é comumente tratada como um problema social, que intensifica a violência e gera preocupações acerca da saúde pública. Entretanto, raramente as drogas são vistas como uma mercadoria. Essa foi a principal contribuição da série, que trouxe uma abordagem mais capitalista para esse comércio.

Narcos também trouxe alguns elementos interessantes para a discussão do narcotráfico, como as técnicas de produção, a criatividade dos traficantes, o entrelaçamento entre mercado legal e ilegal, as relações entre crime, política e corrupção, entre outras polêmicas discussões. Apesar das contribuições, alguns exageros são constatados logo no primeiro episódio, quando a cocaína é apresentada como a “droga que cria a própria demanda”, frente a sua potencial capacidade de “vício”.

Esse mito da “demanda criada pelo alto poder viciante” decorre da falsa concepção pela qual todos consumidores de cocaína teriam uma vontade interminável e crescente de consumir cada vez mais a substância. De fato, alguns usuários podem desenvolver um uso abusivo ou problemático, mas isso ocorre com uma minoria. Se fosse verdade que os consumidores usassem cada vez mais esse psicoativo, poderíamos entender que a demanda por cocaína seria inelástica.

[FNC: “elasticidade da demanda” é a medida da variação na demanda de uma mercadoria, considerada a quantidade de certa mercadoria por unidade de tempo, quando algum dos seguintes fatores varia, mantendo-se constantes os demais: preço da mercadoria; renda do consumidor; preço de outras mercadorias-substitutas; gosto/preferência do consumidor; etc. Daí existem “elasticidade-preço da demanda”, “elasticidade-renda da demanda” e outras.]

Logo, nesse caso de demanda inelástica, a demanda global cresceria exponencialmente. Contudo, segundo os relatórios globais do Escritório de Drogas e Crimes das Nações Unidas (UNODC), a demanda por cocaína (e por outras substâncias psicoativas ilícitas) tem permanecido estável, de modo que o baixo crescimento observado na última década é proporcional ao crescimento populacional do planeta [ou seja, “vegetativo”].

Essa ideia sobre “inelasticidade da demanda por drogas” designou preocupações em economistas que, nas décadas de 1960 e 1970, iniciaram os primeiros estudos sobre Economia das Drogas. Eles buscavam medir a elasticidade da demanda para identificar o comportamento dos usuários. Porém, não chegaram a um consenso. Alguns observaram uma demanda elástica; outros, inelástica; outros, ainda, elástica no curto prazo e inelástica no longo prazo; e vice-versa. Esses estudos são decorrentes da visão econômica ortodoxa, que não é a mais adequada para pesquisas sobre Economia das Drogas, cujo contexto em que se dá o consumo – ou até mesmo o tráfico – é mais relevante que as variações de preço e de quantidade consumidas.

Essa discussão e outras tantas acerca desse tema são abordadas na dissertação de mestrado Economia das Drogas em uma Abordagem Heterodoxa, defendida pela aluna Taciana Santos de Souza. Ela já tinha sido premiada por sua Monografia de Graduação sobre o mesmo tema. Veja o vídeo abaixo.

2 thoughts on “Narcos e a Economia das Drogas

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