38 Estratégias para Vencer Qualquer Debate – A Arte de ter Razão

Beluzzo

Na Introdução do livro de autoria de Arthur Schopenhauer, “38 Estratégias para Vencer Qualquer Debate – A Arte de ter Razão”, Karl Otto Erdmann faz algumas ponderações para advertir o leitor incauto.

“Seria uma empreitada muito útil substituir a sabedoria acadêmica empoeirada e ornamentada por uma técnica de debate verdadeiramente moderna. Em certo momento, Schopenhauer quis fazer isso, como ele explica em seu ensaio “Sobre a lógica e dialética” no segundo volume de seu Parerga e Paralipomena. Mas, depois, desistiu porque achou “que tal exame detalhado e minucioso dos atalhos e truques que a natureza humana comum usa para esconder suas deficiências” — já não era — apropriado.

O material inédito que ele coletou foi publicado por Frauenstädt em uma obra póstuma chamada de “erística”, isto é, uma doutrina do debate. Neste trabalho está contido a “base da dialética” introdutória que trata das doutrinas lógicas comuns da afirmação e da refutação por meio de “estratagemas”.

[Nota do editor: Estratagema e estratégia são sinônimos. O primeiro utilizado em assuntos dialéticos e acadêmicos, o outro em assuntos relacionados ao ambiente trivial e corporativo. Adotamos então a segunda acepção, cujo uso se tornou mais comum em nossos dias.]

Eles podem ser considerados o início de uma reunião de textos. Estão encadeados aleatoriamente, em parte, equivalentes, em parte, subordinados. Em alguns, são idênticos. Ao lado de erros básicos de raciocínio encontram-se engodos e subterfúgios especiais, que, com seus ataques à lógica, podem parecer até fora de propósito. Por exemplo, quando ele “aconselha” um oponente a provocar a raiva do inimigo, pois com raiva ele é incapaz de julgar corretamente. O meio para deixá-lo com raiva é ser explicitamente injusto com ele, achincalhando-o e até sendo insolente.

[FNC: como exemplo desses truques retóricos, postarei em seguida um debate recente entre Luiz Gonzaga Belluzzo e Alexandre Schwartsman. É um debate em que se gasta energia, mas não se cria luz…]

Aparentemente, Schopenhauer fez alguns registros desses, como ele chama, “estratagemas” segundo experiências pessoais. É possível sentir como o velho senhor fica com raiva e não se cansa de desabafar com seu humor sombrio sobre a vaidade, a obstinação e a desonestidade que acompanham a injustiça e a incompetência dos seres humanos.

Aliás, a erística contém alguns truques que são apenas retórica e nada têm a ver com a ilusão dialética. Por exemplo, a estratégia 25: um golpe brilhante do retorsio argumenti (argumento contrário) — quando o argumento que o oponente quer usar contra o inimigo pode parecer inicialmente uma atenuante. Por exemplo, ele diz “é uma criança, deve-se dar um desconto”. Para depois completar: “Mesmo por ser uma criança, devemos puni-la para que ela não insista em hábitos ruins”.

É lamentável que Schopenhauer não tenha concluído sua “erística” como pretendia. A utilidade prática de tais técnicas de debate é inconfundível.

Qualquer um que se lembre, também de maneira abstrata, das múltiplas porém recorrentes falácias e domine determinados termos técnicos, e também conheça todos sofismas do outro, está mais bem equipado para a disputa do que aquele que se baseia exclusivamente em seus bons motivos.

É como um oficial que estudou táticas e conhece muito bem todos os todos os estratagemas e as estratégias. Ele tem as passagens obrigatórias nas mãos e prontos os exemplos cruciais contra os desvios dos inimigos para serem usados sem muitos rodeios.

É comum desdenhar o palavreado acadêmico, mas é claro que sua formação lógica teve algum mérito: quando em uma discussão um orador exclamava para o outro que aquilo era uma “fallacia causae ut non causae” ou uma “petitio principii”, o outro se sentia compreendido, e os ouvintes tinham uma orientação e sabiam onde procurar o ponto fraco do argumento.

Se hoje não se discutisse de maneira tão sem sentido ou infrutífera em reuniões políticas, no parlamento ou no congresso, se não se falasse de maneira tão vã uns dos outros, estar com a razão não se sobreporia tantas vezes, com gritos de objeção, a ter a razão. Se estivessem presentes mais pessoas conhecedoras da dialética, que prestassem atenção na técnica do debate, definissem rapidamente todas as falácias, subterfúgios e truques do orador, talvez o punissem.

As construções a seguir não têm a intenção de ser uma coleção completa de todos os truques comuns usados em discussões. Karl Otto Erdmann selecionou o que lhe pareceu mais típico. A maioria dos principais sofismas está em uma dessas categorias: eles exploram as imperfeições naturais e inevitáveis da inteligência e da transferência de conhecimento humanas.

Eles tratam essencialmente dos seguintes fenômenos:

  1. Inadequação da linguagem do ponto de vista lógico. Goethe diz: “Assim que fala, a pessoa já começa a divagar.”
  2. Conflito entre o universal e o particular: os perigos da generalização, esquematização e tipificação; as contradições e as imperfeições da indução.
  3. O fato de que nossas principais convicções baseiam-se em valores e, portanto, estão ligadas à ideia de certo e errado.
  4. O fenômeno inevitável de que cada experiência própria se dá ao mesmo tempo que a dos outros, e de que ninguém pode prescindir das autoridades.
  5. A tendência erradicável de todas as pessoas ao pensamento absoluto, enquanto nossos valores, conceitos e conhecimentos são relativos.

Esses fatos estão, evidentemente, interligados de várias maneiras, de modo que uma distinção clara é quase impossível. Quase todas as falácias podem ser observadas de diferentes pontos de vista, e algumas surgem da ligação entre dois ou mais truques.

Nos pontos de vista especificados não se enquadram comentários sobre artifícios legítimos, a saber, os subterfúgios e truques acima mencionados nada têm a ver com a lógica, especialmente os ignoratio elenchi propositais, que Karl Otto Erdmann descreve como a “perversão da questão”. Finalmente, as falácias propriamente ditas são violações das regras do silogismo — segundo o aristotelismo, raciocínio dedutivo estruturado formalmente a partir de duas proposições, ditas premissas, das quais, por inferência, se obtém necessariamente uma terceira, chamada conclusão.

11 DAS 38 ESTRATÉGIAS

ESTRATÉGIA 1

Generalize as afirmações do seu oponente

CONSISTE EM LEVAR a afirmação do oponente além de sua fronteira natural, tomá-la e interpretá-la da maneira mais ampla e generalista possível e exagerá-la. Ou, pelo contrário, tomá-la no sentido mais restrito possível, fechá-la nos menores limites possíveis, porque quanto mais geral se torna uma afirmação, mais ataques ela pode receber. A defesa precisa focar na afirmação exata dos puncti ou status controversiae.

ESTRATÉGIA 2

Homonímia — Mude os significados das palavras-chave do oponente

UTILIZAR A HOMONÍMIA para estender a afirmação estabelecida para o que, com exceção da semelhança entre as palavras, tem pouco ou nada a ver com o assunto discutido. Então, refutá-la com vigor para dar a impressão de se que refutou a afirmação original.

Pode-se considerar esse estratégia como idêntico ao do sofisma ex homonymia: no entanto se o sofisma é óbvio, não enganará ninguém.

Omne lumen potest extingui

Intellectus est lumen

Intellectus potest extingui.

[Toda luz pode ser extinta.

A compreensão é uma luz.

A compreensão pode ser extinta.]

Aqui logo se percebe que existem quatro termos: a lumen literal e a lumen compreendida de maneira figurativa. Mas em casos mais sutis, o sofisma consegue enganar, especialmente quando os conceitos cobertos pela mesma palavra estão relacionados entre si e tendem a ser combinados.

ESTRATÉGIA 3

Confunda a argumentação

OUTRA ESTRATÉGIA é interpretar a afirmação estabelecida de maneira relativa, κατα τι, como se tivesse sido feita de maneira geral e absoluta, ἁπλως, ou pelo menos em um sentido completamente diferente, e então refutá-la pelo sentido que o falante não quis. O exemplo de Aristóteles é o seguinte: o mouro é negro, entretanto os dentes são brancos; assim ele é negro e não negro ao mesmo tempo.

ESTRATÉGIA 4

Prepare o caminho, mas oculte a conclusão

QUANDO ALGUÉM QUISER tirar uma conclusão, não deve deixar que ela seja prevista, mas deve fazer com que as premissas sejam admitidas uma a uma, sem perceber, misturando-as aqui e ali durante a sua fala. Senão, o oponente tentará todos os tipos de contra-ataque. Ou quando se estiver em dúvida se o oponente vai admiti-las, apresentar as premissas dessas premissas; crie pré-silogismos e faça com que as premissas de diversos deles sejam admitidas de maneira desordenada. Desse modo, o jogo fica escondido até que se obtenham todas as admissões necessárias.

ESTRATÉGIA 5

Use as premissas do seu oponente contra ele

TAMBÉM SE PODE UTILIZAR como prova de uma afirmação verdadeira outra afirmação falsa quando o oponente não quer admitir as verdadeiras, seja porque ele não entende sua verdade ou porque entende que se aceita-las, a sua argumentação será aceita por todos. Nesse caso, tomam-se as afirmações falsas por si, mas verdadeiras ad hominen, e argumenta-se conforme a maneira de pensar do oponente, ex concessis. Pois a verdade pode surgir também de afirmações falsas: ao mesmo tempo que as falsas nunca podem surgir das verdadeiras. Mesmo assim é possível refutar as afirmações falsas do opositor por meio de outras afirmações falsas que ele considera verdadeiras. Neste caso, temos de adaptar ao estilo de pensamento dele. Por exemplo, se ele é seguidor de uma seita da qual não conjugamos do mesmo pensamento, podemos usar as opiniões dessa seita contra ele, como princípios.

ESTRATÉGIA 6

Mude as palavras do oponente para confundi-lo

FAZ-SE UM PETITIO PRINCIPII velado, no qual se postula o que se quer tanto refutar.

  1. Sob outro nome, por exemplo em vez de honra, boa reputação; em vez de virgindade, virtude, e assim por diante. Ou com conceitos intercambiáveis: animais de sangue vermelho em vez de vertebrados. Ou
  2. Fazendo uma pressuposição geral sobre o ponto específico em discussão. Por exemplo, defender a insegurança da medicina ao postular a insegurança de todos os conhecimentos humanos.
  3. Se, vice-versa, duas afirmações resultam uma da outra, e uma precisa ser provada, deve-se postular a outra.
  4. Se uma afirmação geral precisa ser provada, deve-se fazer o oponente admitir todas as suas particularidades. Essa estratégia é o oposto da número 2.

ESTRATÉGIA 7

Faça o oponente concordar de forma indireta

QUANDO A DISPUTA se desenrola de maneira um tanto rigorosa e formal e se deseja claramente chegar a um acordo, então quem fez as afirmações e quer prová-las deve agir contra o oponente, colocando-lhe questões para demonstrar a verdade a partir de suas conclusões. Esse método erotemático (também chamado de socrático) foi especialmente utilizado pelos antigos. O mesmo se aplica a esta estratégia e a algumas a seguir.

A ideia é fazer muitas perguntas amplas de uma vez para esconder o que se quer que o oponente admita e, além disso, apresentar rapidamente o argumento resultante de suas admissões. Assim, quem é lento para compreender não consegue acompanhar com exatidão e deixa passar os possíveis erros ou falhas na demonstração.

ESTRATÉGIA 8

Desestabilize o oponente

AO PROVOCAR RAIVA o oponente sai fora de seu equilíbrio e racionalidade para julgar corretamente e perceber a própria vantagem. É possível fazê-lo ficar com raiva por meio de repetidas injustiças, de algum tipo de truque, e pela insolência.

ESTRATÉGIA 9

Disfarce seu objetivo final

AS PERGUNTAS QUANDO não são feitas na ordem que levaria a uma conclusão possível podem levar a uma confusão muito grande. O oponente não sabe aonde você quer chegar e não pode se precaver. Também é possível usar suas respostas para tirar diferentes conclusões, até contrapô-las, de acordo com suas características. Isto está relacionado à estratégia número 4, segundo a qual se deve mascarar as próprias ações.

ESTRATÉGIA 10

Use a psicologia da negação

QUANDO SE PERCEBE que o oponente nega de maneira proposital (e infantil) as afirmações cuja aprovação seria usada para a nossa frase, deve-se perguntar o oposto da oposição utilizada, como se estivéssemos ansiosos por sua aprovação; ou deve-se pelo menos apresentar as duas para escolha, para que ele então não perceba qual frase queremos que seja aprovada.

ESTRATÉGIA 11

Tome um conceito geral para o caso particular

FAZ-SE UMA INDUÇÃO e o oponente cede em casos individuais, pelos quais ela deve ser apoiada. Então não se deve perguntar a ele se também admite a verdade em geral que surge desses casos, mas sim introduzi-la depois como estabelecida e reconhecida. Nesse meio-tempo, ele próprio vai passar a acreditar que a admitiu, e isso vai acontecer também com os ouvintes, porque vão se lembrar das diversas perguntas sobre cada caso específico e vão supor que elas devem, claro, ter alcançado seu objetivo.

12 – Uso sutil dos vocábulos — renomeie as mesmas palavras

13 – Apresente uma segunda opção inaceitável

14 – Acuando os tímidos

15 – Utilize paradoxos — para situações difíceis

16 – Desqualifique o argumento do outro

17 – Faço uso da dupla interpretação

18 – Mude o curso; interrompa antes da perda certa.

19 – Desfoque; depois encontre uma brecha

20 – Não arrisque num jogo ganho

21 – Use as mesmas armas

22 – Reduza a força do argumento principal

23 – Provoque o oponente

24 – Torne a alegação do outro inconsistente

25 – Use a exceção para destruir a tese

26 – Reforce um aspecto no oponente; depois destrua o seu valor.

27 – Deixe o seu oponente desequilibrado

28 – Ganhe a simpatia da audiência e ridicularize o adversário

29 – Não se importe em fugir do assunto se estiver a ponto de perder

30 – Aposte em credenciais e acue a todos

31 – Complique o discurso de seu oponente

32 – “Cole” um sentido ruim na alegação do outro

33 – Invalide a teoria pela prática

34 – Encontre e explore o ponto fraco

35 – Mostre ao seu oponente que está lutando contra os próprios interesses

36 – Confunda e assuste o oponente com palavras complicadas

37 – Destrua a tese boa pela prova frágil

38 – Como último recurso, parta para o ataque pessoal…

Economista polemista, inseguro a respeito de sua sabedoria, usa este último como primeiro recurso: parte logo para o ataque pessoal.

Enfim, Arthur Schopenhauer, em “38 Estratégias para Vencer Qualquer Debate – A Arte de ter Razão”, apresenta a arte da retórica vazia para vencer um debate (aparentemente) e impressionar os facilmente impressionáveis ou os já convencidos da crença do (a priori) “vencedor”

Leia maisComo Enfrentar Polêmica

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s