Debate Infrutífero: Gasto de Energia Sem Produção de Luz

27012014_Alexandre_Schwartsman_MurilloConstantinoComo exemplo de truques retóricos, a pedido, postarei em seguida um debate recente entre o Professor Luiz Gonzaga Belluzzo e o quinta-colunista (ou colunista-de-quinta?) Alexandre Schwartsman, ex-Santander e Banco Central, cujos ex-colegas, que conhecem bem seu (mau) caráter, abriram queixa-crime por considerar seus comentários na mídia ofensivos à honra pessoal deles. Ele se notabilizou por sua arrogância, falta-de-educação e agressividade desrespeitosa com seus adversários ideológicos. Estranhei o elegante Professor perder tempo com esse troglodita em um debate infrutífero… E desejado por esse neoliberal só para aparecer como (mais um) paladino da intolerante direita brasileira e, então, ganhar espaço no PiG (Partido da Imprensa Golpista).

De volta ao primário

22/07/2015  02h00

Alexandre Schwartsman

No Congresso propõe-se redução da meta de superavit primário de 2015 para 0,4% do PIB, dado que a evolução das contas públicas até agora sugere ser muito difícil, se não impossível, atingir o valor original, equivalente a 1,1% do PIB, sem recorrer a receitas extraordinárias.

A questão central, porém, não é esta. Se o objetivo da política fiscal – como indicado pelo Ministro da Fazenda – é estabilizar, e a partir daí reduzir, a dívida pública medida como proporção do PIB, é forçoso concluir que, qualquer que seja o esforço em 2015, há mais a fazer nos anos à frente.

Para entender o motivo imagine um país cujo PIB seja $ 100 e cujo governo deva $ 65. Suponha também que a taxa de juros (deduzida a inflação) seja 5% ao ano e que o país cresça, em média, 2% anuais. Dados os juros, a dívida cresceria de $ 65 para $ 68,3 entre o primeiro e o segundo ano, enquanto o PIB aumentaria de $ 100 para $ 102. Neste caso, a relação entre a dívida e o PIB se elevaria de 65% para 66,9% (68,3÷102).

Para manter a relação em 65% do PIB, dado que o PIB agora é $ 102, a dívida não poderia passar de $ 66,3 (65%×102). Ou seja, o governo precisaria economizar $ 2 (a diferença entre $ 68,3 e $ 66,3) para estabilizar a relação dívida-PIB, mesmo pagando $ 3,3 de juros naquele ano. O aparente milagre se deve ao crescimento do PIB, que “come” um pedaço da dívida (2%×65 = $1,3).

Como regra, portanto, o superavit primário do governo deve cobrir a diferença entre a taxa real de juros (5%) e o crescimento do PIB (2%), isto é $ 2 (3%×65%), de modo a estabilizar a dívida relativamente ao PIB.

Nossa dívida pública deve, ao final deste ano, atingir cerca de 65% do PIB. Já a taxa média de juros esperada para 2016, deduzida a inflação prevista, é da ordem de 7,5%, enquanto o crescimento projetado do PIB deve ficar em 0,3%, também segundo a média dos analistas pesquisados pelo Banco Central.

Sob estas circunstâncias, a aplicação da fórmula acima sugere que o governo precisaria gerar um superavit primário na casa de 4,7% do PIB para estabilizar a dívida no ano que vem. Apenas em um caso bem mais favorável, enfrentando taxa real de juros de 5% e crescimento de 2%, é que o governo poderia, como no exemplo fictício acima, se contentar com um superavit primário na casa de 2% do PIB.

Obviamente, mais à frente, a taxa real de juros deve cair, assim como o crescimento do PIB se acelerar. A média dos analistas sugere que a diferença entre a taxa real de juros e o crescimento do PIB se reduziria para algo em torno de 4,5% em 2017 e 3,2% em 2018.

Neste caso, partindo de uma relação dívida-PIB algo inferior a 70% no começo de 2017, o superavit primário deveria atingir pouco mais de 3% do PIB naquele ano.

Decorrem disto ao menos três conclusões. A primeira, já adiantada, é que o esforço fiscal não se encerrará em 2015, nem mesmo em 2016, mas deve se prolongar até 2018. Como corolário desta análise, quanto mais demorarmos, tanto maior será o esforço à frente, pois a dívida crescerá adicionalmente.

A terceira conclusão é que o direcionamento da política fiscal não se deve, como imaginam nossos “keynesianos de quermesse”, a tentativas ingênuas de recuperar a “mágica da confiança”. Trata-se, ao contrário, de condição essencial para garantir a solvência do país.

 

#prontofalei

04/11/2015  02h00

Alexandre Schwartsman

Economistas têm dificuldades sérias para acertar previsões, mas, se há uma em que tenho plena confiança, é que a coluna de hoje deve ultrajar boa parte dos leitores e, com um pouco de sorte, garantir que minha conta de e-mail seja invadida por pessoas absolutamente furiosas. Afirmo que, diferentemente do que se diz, o salto da relação dívida-PIB (de 55% para 66% do PIB nos últimos dois anos) não resulta da taxa de juros, mas da piora das contas primárias.

Neste exato momento, qualquer um que tenha lido os jornais recentemente já se convenceu de que, se me restava alguma sanidade, deve ter migrado de vez. Afinal de contas, o deficit público alcançou R$ 536 bilhões (9,3% do PIB) nos últimos 12 meses, dos quais R$ 511 bilhões (8,9% do PIB) se referem ao pagamento de juros. É por esse motivo que se afirma por aí que os juros correspondem a mais de 95% do deficit.

Há, porém, dois erros nessa forma superficial de analisar as contas públicas. O primeiro, mais óbvio, é que nem tudo o que entra nessa conta se refere a juros propriamente ditos. Incluem-se nela as perdas derivadas da intervenção do BC no mercado de câmbio futuro, que atingiram R$ 132 bilhões nos 12 meses até setembro, representando algo como 2,3% do PIB no período.

O pagamento de juros propriamente dito alcançou assim R$ 379 bilhões (6,6% do PIB), ainda uma conta aparentemente salgada, mas muito menos do que esse número sugere.

Para entender isso, imaginem um país cujo governo deva $ 100 a juros de 10%, mas com a inflação também em 10%. No fim do ano, o governo faz um pagamento de $ 10, montante que serve apenas para repor o valor da dívida “erodido” pela inflação. Seus detentores têm agora $ 110, cujo poder de compra, porém, é o mesmo de R$ 100 no início do ano.

Posto de outra forma, o que faz subir o valor real da dívida é a parcela dos juros que ultrapassa a inflação. Caso a taxa de juros fosse 11%, a dívida no final do ano seria R$ 111, cujo poder de compra equivaleria a R$ 100,90 no começo do ano, ou seja, o juro real (acima da inflação) sobre a dívida foi 0,9%.

Aplicando esse mesmo raciocínio à dívida do setor público brasileiro, isto é, deduzindo do pagamento de juros a parcela referente à perda de valor da moeda devida à inflação, estimamos que a conta real de juros teria chegado a R$ 70 bilhões nos últimos 12 meses, ou seja, 1,2% do PIB, muito inferior aos 6,6% do PIB acima mencionados.

Não há nada de revolucionário em tal procedimento. Há alguns anos o próprio BC calculava essa medida, o chamado “resultado operacional”, que estimava justamente o desempenho fiscal do governo livre das influências da inflação e das variações do dólar.

Com base nos dados oficiais, estimamos que o resultado operacional, praticamente equilibrado até 2013, coerente com a queda da relação dívida/PIB, tornou-se deficitário em pouco mais de 2% do PIB desde então (ainda maior se incluirmos as “pedaladas”). Não devido ao pagamento de juros reais, que pouco se alteraram de lá para cá, mas pela piora do resultado primário.

Para resolver o problema fiscal, precisamos entendê-lo, o que requer livrar-se dos preconceitos e encarar o que dizem os números. Contudo, com tanta gente papagueando que “juros correspondem a 95% do deficit”, a solução nunca pareceu tão distante.

 

Estratosférica teimosia

A alta dos juros, somada ao ajuste, produz um desastre nas contas públicas

por Gabriel Galípolo e Luiz Gonzaga Belluzzo — publicado 18/11/2015 04h42

 

Em 23 de julho, um relatório sentenciava: “A previsão do governo de estabilizar a dívida bruta em 66% do PIB a partir de 2016, tendo em vista as novas metas de superávit primário, é uma piada de mau gosto. Nós já estávamos céticos de que as antigas metas entregariam uma relação dívida bruta/PIB estável (estimamos que para isso seria preciso um superávit de mais de 3,5% do PIB, em 2016). A menos que as taxas de juro sejam cortadas severamente, não há simplesmente jeito nenhum de entregar esse resultado”.

Desde a sua publicação, a advertência tem sido insistentemente confirmada pelos resultados. Senão vejamos: a dívida pública atingiu em setembro de 2015 o valor de 3,789 trilhões de reais, equivalente a 66% do PIB. As despesas com juros nominais entre outubro de 2014 e setembro de 2015 foram de 510 bilhões (8,89% do PIB). Logo, dizem as fórmulas, o equilíbrio da relação entre dívida e PIB exige que o PIB nominal também cresça à mesma taxa (8,89%) no mesmo período.

Para evitar a majoração da razão fatal, ensina a aritmética, é preciso quitar a diferença entre o crescimento do numerador (dívida) e denominador (PIB nominal). Esse cometimento exige que a arrecadação do governo supere suas despesas em montante proporcional ao serviço da dívida (superávit primário). Caso o crescimento nominal da economia fosse de 5%, por hipótese, seria necessário um superávit primário de 3,89% para a manutenção da relação dívida/PIB.

Em outubro o governo divulgou previsão de déficit primário de 51,8 bilhões de reais, sem considerar a dívida de 57 bilhões com os bancos públicos e o FGTS, as chamadas pedaladas fiscais. Dado que o PIB dos 12 meses anteriores a setembro de 2015 foi de 5,740 trilhões, o resultado primário será em torno de -0,9% do PIB.

A esse déficit primário se junta o efeito dos juros sobre a dívida pública, indicando um acréscimo do estoque da dívida próximo a 10% do PIB em 2015. As previsões para 2016 apontam para uma dívida bruta superior a 70%. Mantida a taxa de juros básica em 14,25%, será necessário um esforço fiscal próximo a 600 bilhões de reais, apenas para quitar o serviço da dívida.

Caso a inflação esteja próxima do teto da meta em 2016 e as previsões de recessão de 1% se confirmem, a expansão do PIB nominal será da ordem de 5%. Em tais circunstâncias, em grandes números, com a dívida bruta a alcançar o valor de 4 trilhões e os juros a incrementar o estoque da dívida em 10% do PIB, será necessário um esforço fiscal de 5% do PIB para garantir que dívida bruta e PIB nominal cresçam à mesma velocidade. Proeza a ser alcançada em uma situação de queda da receita fiscal.

Ainda que a retração econômica não se confirme ou que a inflação implícita financie parte da majoração do PIB nominal, o irrealismo do resultado primário sugerido é de tal monta que o esforço da política fiscal será insuficiente para evitar uma trajetória exponencial da relação dívida/PIB.

Curiosamente, em 4 de novembro, pouco mais de três meses após a veiculação do supracitado relatório, o autor publica um peculiar raciocínio que nega a relação de causalidade entre a evolução dos juros e da relação dívida/PIB. Apesar de inicialmente reconhecer as despesas com juros nominais de 510 bilhões de reais (outubro de 2014 a setembro de 2015), o especialista propõe deduções:

  1. a exclusão das perdas derivadas da intervenção do BC no mercado de câmbio futuro (swap) e
  2. o desconto da inflação sobre os juros nominais.

Deflacionar exclusivamente parte do resultado nominal, especificamente os juros, e estabelecer a comparação com as demais despesas e com o próprio PIB em valores nominais tem o propósito de (des)informar os incautos pagadores de impostos e agradar aos clientes que engordam sua contas bancárias com os juros da dívida pública.

Para justificar o truque, o especialista recorre ao conceito de resultado operacional, utilizado nos anos 80, período de alta inflação, e abandonado em 2009 por sua inadequação como medida do déficit nas inflações moderadas. Isso tudo para maquiar o papel dos juros na evolução da razão dívida/PIB (nominal), que saiu de 53% no fim de 2013 e atingiu 66% ainda em setembro de 2015. Nesse mesmo período a taxa básica de juros foi majorada em 96,55% (de 7,25% para 14,25%).  “Fenómeno”, diriam nossos vizinhos argentinos.

Pedimos licença a Immanuel Kant para tomar de empréstimo, sem juros e nenhuma indexação, um excerto do celebrado O Que É o Iluminismo?: “Dogmas e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma minoridade perpétua”.

Apesar do ceticismo dos economistas contemporâneos e até mesmo dos extemporâneos quanto à pertinência de ideias do século XVIII, a passagem kantiana é um alerta destinado a prevenir os riscos de se enclausurar a razão nos grilhões do formalismo basbaque, contorcionismos para chegar à conclusão de que a conta de juros é de apenas 70 bilhões de reais (1,2% do PIB). A economia torna-se a filha bastarda do Iluminismo.

 

Dr. Bellezza e a inflação

18/11/2015  02h00

Alexandre Schwartsman

Nos cursos de Introdução à Economia, ali pela quarta aula, ensinamos aos alunos a necessidade de distinguir entre variáveis reais e nominais. Por exemplo, o PIB de um país, medido em sua moeda, pode ter crescido porque a produção de bens e serviços aumentou, ou porque os preços destes subiram, ou, como é mais comum, por uma combinação dessas duas coisas. Separar a parcela que se deve à inflação nos permite aferir o que realmente ocorreu com a produção.

No caso do Brasil, o PIB na primeira metade de 2015 alcançou R$ 2,836 trilhões, uns 6% acima do que fora observado no mesmo período do ano passado (R$ 2,677 trilhões). No entanto, como se sabe, uma vez descontada a inflação, o crescimento real do PIB foi negativo, -2,1%, revelando que todo o aumento do produto nominal foi uma ilusão de ótica, resultado do aumento dos preços, não da atividade econômica.

Em texto recente, porém, o Dr. Bellezza, um dos conselheiros informais da presidente na montagem da desastrada “nova matriz macroeconômica”, em conjunto com um de seus lacaios, revela ter esquecido as preciosas lições da quarta aula.

Ele reclama que, em minha coluna do dia 4, argumentei que, para saber o efeito da taxa de juros sobre a dívida, teríamos de deduzir o impacto da inflação sobre esta última. O motivo é simples, embora, ao que parece, além da sua capacidade de entendimento. Sorte dele que não me furto à missão civilizatória.

Imaginem dois países iguais, com PIB no valor de $ 100 e uma dívida pública de $ 50, o que, em matemática compreensível até para Dr. Bellezza e asseclas, implica uma relação dívida/PIB de 50%. Para facilitar o cálculo, vamos também fazer de conta que não há crescimento real do PIB (a conclusão não muda se alterarmos essa hipótese).

No primeiro país supomos que não haja inflação e que a taxa de juros seja 3%. Assim, depois de um ano, caso o superavit primário seja zero, a dívida chegaria a $ 51,5, por causa da incidência de juros de 1,5 sobre seu valor inicial (3%x50), ou seja, uma relação dívida-PIB de 51,5%.

No segundo país a taxa de juros é 13,3%, mas a inflação é de 10%. Nesse caso, a incidência de juros sobre a dívida é bem mais alta, $ 6,65 (13,3%x50), levando-a a $ 56,65 no final do período. Contudo, como os preços subiram 10%, o PIB agora vale 110 e a relação dívida-PIB é exatamente 51,5% (56,65÷110), embora juros nominais equivalham a 6% do PIB (6,65÷110).

A variação da razão dívida/PIB, portanto, depende da taxa real de juros (a que desconta o efeito da inflação). Nesse aspecto, a medida de deficit operacional (que justamente faz esse procedimento) é sempre a mais adequada para explicar a evolução das contas públicas, mesmo quando a inflação é moderada, ao contrário do que dizem os autores.

Ocorre que, sob essa circunstância, não há muita diferença entre usar os números com ou sem ajuste à alta de preços. Isto dito, só quem não entende do riscado pode argumentar, como Dr. Bellezza e seu cúmplice, que a inflação no Brasil, 9,93% nos últimos 12 meses, seria “moderada”.

Dado seu conhecido desrespeito à aritmética, não me espanta que a incompetência do Dr. Bellezza tenha conseguido mandar o Palmeiras para a Segundona. Difícil é entender como ainda permitem que ele insista em fazer o mesmo com o Brasil.

 

RÉPLICA

Números vão às ruas contra tortura de colunista

GABRIEL GALÍPOLO
LUIZ GONZAGA BELLUZZO
ESPECIAL PARA A FOLHA

21/11/2015 02h00

Seria mau uso deste espaço e do tempo do leitor responder às objurgatórias do colunista deste jornal com adjetivos pejorativos ou sussurros e fuxicos desairosos a respeito de episódios de sua vida profissional.

O exercício realizado em sua coluna mais recente [“Dr. Bellezza e a inflação, 18/11, Alexandre Schwartsman], de retirar o efeito da inflação da relação dívida/PIB, revela que até esse ponto da chamada quarta aula o colunista estava atento. Intriga qual desvio em sua formação durante o ensino fundamental não lhe permitiu aprender que a multiplicação do numerador e do denominador por um mesmo valor mantém a razão constante, inclusive da relação juros/PIB.

Em vez de reproduzir com os juros o processo realizado para a dívida, o colunista decidiu descarregar o “efeito da inflação sobre a dívida” em um único componente do numerador (juros), além de compará-la com um denominador não deflacionado (PIB nominal).

Ao reproduzir no resultado primário (outro componente do numerador) de 2014 a fórmula aplicada aos juros pelo colunista, a inflação de 6,14% deve ser descontada da dívida de R$ 3,252 trilhões (dados de 2014).

O “efeito da inflação sobre a dívida” estimado é de R$ 188 bilhões. Este valor somado ao deficit primário de R$ 20,5 bilhões resultaria em superavit de R$ 167 bilhões. Magicamente o deficit de 0,37% do PIB se converte em superavit de 3,24%. O procedimento é equivocado para o tratamento de ambos (resultado primário e juros).

A reconhecida deterioração da relação dívida/PIB, de 53% no fim de 2013 para 66% em setembro de 2015, coincidente com a majoração de 96,55% na taxa básica de juros, considera dívida e PIB com os efeitos da inflação.

É curioso também que o colunista tenha nos furtado a explicação de como convivem suas afirmações de julho de 2015: “a menos que as taxas de juros sejam cortadas severamente, não há simplesmente jeito nenhum de entregar esse resultado” (uma relação da dívida/PIB estável), e de novembro do mesmo ano: “o salto da relação dívida-PIB não resulta da taxa de juros”. Nesse momento, nos sentimos inferiorizados como debatedores, pela desvantagem que nos causa a necessidade de observância da lógica e da coerência.

É uma impropriedade arvorar a desafortunada tentativa de prolongar o ciclo de consumo, cujos riscos são alertados desde 2010, à condição de nova matriz macroeconômica. Por outro lado, não pode ser menosprezada a colaboração dos fanáticos da “velha matriz macroeconômica” para as dificuldades atuais – a persistente combinação entre juros altos e apreciação cambial.

Cabe ainda retificar algumas informações. Os autores desse texto são palmeirenses, mas apenas um ocupou o cargo de presidente da gloriosa Academia. Como é sabido, o rebaixamento do nosso querido clube não ocorreu sob sua gestão (mais uma ignorância factual). Entre as “malfeitorias” palestrinas perpetradas estão a cogestão com a Parmalat e a “fracassada” Allianz Arena, com estimativa de receitas em 2015 que supera R$ 70 milhões.

Correm notícias que números racionais e irracionais, relativos e absolutos, cardinais e ordinais, separados há muito pela álgebra, pretendem se reunir na avenida Paulista ainda neste fim de semana, em manifestações contra a sistemática tortura que vêm sofrendo nas mãos de colunistas. Os truculentos tentam força-los a confissões vexaminosas.

GABRIEL MURICCA GALÍPOLO, professor do Departamento de Economia da PUC-SP, é sócio da Galípolo Consultoria.

LUIZ GONZAGA BELLUZZO é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo.

 

 

Dr. Bellezza e a aritmética

25/11/2015  02h00

Alexandre Schwartsman

Fui irônico, claro, ao mencionar o desrespeito do Dr. Bellezza pela aritmética, mas me enganei: ele realmente nada sabe do assunto. Não me espanta, pois, que associe matemática à tortura. Imagino sua infância aterrorizada pela matéria, a ponto de encarar com evidente temor cálculos que um egresso do ensino fundamental não teria dificuldade de entender.

Meu argumento é simples. A relação dívida-PIB é uma fração na qual o numerador, a dívida, cresce em linha com a taxa de juros, na ausência de um saldo primário. Já o denominador, o PIB, cresce pela combinação do aumento real da atividade e dos preços, este segundo conhecido como inflação.

É óbvio que a fração só aumenta se o numerador crescer mais rápido que o denominador, ou seja, se a taxa de juros for maior do que a combinação entre inflação e crescimento real do PIB. Posto de outra forma, na ausência de um saldo primário, a razão dívida/PIB só cresce se a taxa real de juros (isto é, a diferença entre a taxa nominal de juros e a inflação) for maior que o crescimento real do PIB.

A evolução da dívida/PIB, portanto, depende da taxa real de juros, conclusão que só escapa a quem não distingue numerador de denominador. Isto dito, vamos aos números.

Nos 12 meses até setembro, o custo da dívida ficou em 12,1% (próximo à taxa Selic acumulada no período, 12,6%), enquanto a inflação (IPCA) atingiu 9,5%. Isso significa que a taxa real de juros foi 2,4% (1,121÷1,095-1. A conta é geométrica: chamem a Anistia Internacional!). Aplicada a uma relação dívida-PIB de 57,6% em setembro de 2014, implica custo real da dívida de 1,3% do PIB (0,024×0,576) naquele período.

Como prometido, são contas simples, passíveis de reprodução por qualquer um que domine as quatro operações, mas que, para quem tem pouca afinidade com elas, devem soar como feitiçaria.

Aliás, falando em dificuldade com as quatro operações, é notável a peculiar matemática do Dr. Bellezza. Segundo ele, se somarmos o “efeito da inflação sobre a dívida”, R$ 188 bilhões em 2014, ao deficit primário, R$ 20,7 bilhões, obteremos um “superavit operacional” de R$ 167 bilhões (3,2% do PIB) referente ao ano passado. Nunca se viram tantas asneiras em tão pouco espaço.

A começar porque os números de 2014 estão todos errados. O deficit primário atingiu R$ 32,5 bilhões, não R$ 20,7 bilhões. Segundo, o efeito da inflação deve ser calculado sobre a dívida do final de 2013, não no final de 2014. Terceiro, a inflação foi 6,41%, não 6,14%. Esses erros, porém, são modestos perto da atrocidade perpetrada.

Com efeito, a definição de resultado operacional é saldo primário (-R$ 32,5 bilhões) menos o juro real sobre a dívida (R$ 110 bilhões), ou seja, deficit de R$ 143 bilhões (2,6% do PIB) no ano passado. Já o Dr. Bellezza comete o seguinte “cálculo”: saldo primário menos sua estimativa (errada!) do efeito da inflação. Obtém assim um resultado totalmente desprovido de significado para concluir que teríamos “superavit operacional” em 2014. E ousa me acusar de maus-tratos aos números…

Podem, porém, ter certeza de que não assumirá a culpa pelos erros grosseiros, assim como evita a responsabilidade por sua gestão desastrosa no Palmeiras e pretende nos convencer de que foi crítico da “Nova Matriz Macroeconômica” desde 2010. Baita coragem..

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