O certo, o justo e o imbecil (por Gregório Duvivier)

gregrio_duvivier_out_2009Tem uma piada velha que começa assim: o advogado vai ao motel acompanhado da mulher do melhor amigo, também advogado. Chegando lá, encontra a própria mulher acompanhada do melhor amigo. Ao constrangimento inicial segue a dúvida.

– E agora? O que é que a gente faz?

– O certo seria a gente destrocar os casais e cada um voltar pra casa acompanhado do respectivo cônjuge.

– Sim, isso seria o certo. Mas não seria o justo.

– Por quê?

– Porque a gente tá chegando, e vocês tão saindo.

Não sabendo se o impeachment de Dilma é certo do ponto de vista jurídico, li a opinião de uns 33 “juristas renomados”. O que percebi foi que a Constituição brasileira é tipo o último episódio de “Lost”: cada um entendeu uma coisa, e alguns, como eu, não entenderam nada. Ninguém sabe se a tal pedalada fiscal configura crime de responsabilidade, embora todos concordem que, mesmo que houvesse o tal crime, ele recairia sobre o secretário do Tesouro.

Mas vamos supor que o impeachment fosse o certo e os juristas afirmassem que pedaladas justificam o impeachment. Seria justo? No governo FHC, a pedalada era uma tradição de fim de ano tão comum quanto a Simone cantando “Então É Natal”. E não só no Brasil. Nunca, em democracia alguma, um presidente caiu por causa de uma pedalada fiscal. Será que o Brasil finalmente chegou à vanguarda?

Tirar a Dilma por uma pedalada do seu secretário é, por si só, uma espécie de pedalada. Sou torcedor do Fluminense mas nem por isso vibrei com os pontos que ele tirou da Portuguesa graças ao recurso de um advogado que descobriu que a Portuguesa tinha escalado aos 48 do segundo tempo um jogador suspenso que sequer tocou na bola.

Um impeachment orquestrado por Eduardo Cunha que beneficia Michel Temer é como um pênalti marcado pelo Eurico Miranda a favor do Vasco. Se não é certo, certamente não é justo, e menos ainda sensato. Se o pecado de Dilma foi ser conivente com roubo, qual é o sentido de trocá-la pelo ladrão? A estrutura da casa está ruindo, mas você não vai fazer uma reforma com o Sérgio Naya.

O país hoje é um avião governado por uma pilota obtusa e despreparada, mas vale lembrar que o copiloto é da Al Qaeda. E a tripulação também. Perdão pela metáfora, Al Qaeda. Não era minha intenção te comparar com o PMDB. Sim, eu sei que vocês têm princípios. Perdão.

Fonte: FSP, 07/12/15

Obs.: Direita imbecil, dispenso comentários ofensivos, pois irão direto para o lixo, ou seja, de onde os golpistas não deveriam ter saído.

2 thoughts on “O certo, o justo e o imbecil (por Gregório Duvivier)

  1. Vale a pena ler “A revolução dos bichos” de George Orwell. Além disso saber que cada um defende uma ideologia e que devemos respeita-las. A palavra golpista destoou do restante do texto.
    Realmente não sei é um impeachment legítimo, mas desde o início sabia que não seria um mandato normal e que a crise econômica seria pior que a prevista por ser na verdade uma crise política.

    1. Prezado Alessandro,
      os que têm o instinto da proteção mais pronunciado tendem a defender maior igualdade social e se colocam à margem esquerda.

      Já os que têm o instinto da competição exacerbado são individualistas e se colocam à margem direita.

      Eu admiro mais os igualitários, pois em geral são mais altruístas como os pertencentes às castas dos sábios e sacerdotes pregadores.

      Os direitistas, em geral, são grosseiros, agressivos, violentos, tal como as castas dos guerreiros e comerciantes.

      Quando desrespeitam a maioria dos votos válidos, em uma eleição democrática, são golpistas.
      att.

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