O Clã: Uma Família Direitista

O clã (Foto: Divulgação)O clã Puccio reza antes da refeição. Enquanto isso, no porão, um refém passa fome.

Ariane Freitas e Ruan de Sousa Gabriel (Exame, 10/12/2015) entrevistaram o diretor do filme argentino O Clã, maior bilheteria de seu país, que mostra a privatização da atividade de sequestro/tortura na transição do Estado ditatorial para o neoliberal.

O ano de 2015 foi bom para cinema latino-americano.

Em Que horas ela volta?, Anna Muylaert, filmou o Brasil a partir da porta da cozinha e retratou as regras veladas que regem a relação entre patrões e empregados e a mudança com a mobilidade social ocorrida no País. A crítica internacional elogiou o filme, que tem boas chances de comparecer à festa do Oscar.

O clube, do diretor chileno Pablo Larraín, aborda os escândalos sexuais e políticos da Igreja Católica, ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim e concorre a um Globo de Ouro.

O júri do Festival de Veneza, presidido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón, premiou Desde Allá, do cineasta venezuelano Lorenzo Vigas, uma reflexão sobre a homossexualidade e o estereótipo do pai latino, sempre ausente.

A terra e a sombra, do colombiano César Augusto Acevedo foi premiado com a Camera d’Or, concedida a diretores estreantes peloFestival de Cannes, e estreia por aqui na semana que vem.

O filme argentino O clã, de Pablo Trapero, chega finalmente aos cinemas brasileiros e encerra com chave de ouro um ano que foi bem melhor na ficção.

O clã conta a sinistra e real história dos Puccio, uma família de um sequestrador e torturador de presos políticos que “privatiza” essa sua atuação quando o país transita para o neoliberalismo.  No começo dos anos 1980, sequestrou e assassinou vizinhos em San Isidro, bairro nobre nos arredores de Buenos Aires.

Os Puccio formavam uma família “respeitável”, daquelas que reza unida antes das refeições. Aquele tipo de gente ignorante-útil que “bate-a-panela” a favor de golpes da direita como vemos também no Brasil. Lembre-se das Marchas da TFP (Tradição, Família e Propriedade) antes do Golpe de Estado em 1964. De novo?!

O pai, ex-membro do aparelho repressor argentino, e a mãe, professora, tinham quatro filhos. O mais velho, Alejandro, era uma estrela ascendente da seleção argentina de rúgbi e estampava capas de revista. Os porões do casarão onde a família vivia guardavam semelhanças com os porões da ditadura argentina, que deu seus últimos suspiros na mesma época em que os Puccio cometiam seus crimes. Com a ajuda dos filhos, Arquímedes, o patriarca, sequestrava membros da elite argentina e cobrava resgates em dólares. Quem passava pelo porão dos Puccio não saía vivo.

Antes de ser um thriller, esse filme é o retrato de uma família e, principalmente, da relação entre um pai e um filho, o que faz dela uma história universal”, afirma Trapero. Trata da idiotia que coloca “a família” acima inclusive da ética e da honestidade dos cidadãos. A relação hierárquica autoritária é típica de “famílias mafiosas”: os filhos são doutrinados para se submeterem em espécie de servidão voluntária.

O clã superou as marcas históricas de sucessos nas bilheterias argentinas como Relatos selvagens e O segredo de seus olhos, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Os personagens de O clã ouvem pelo rádio notícias sobre a transição política entre os movimentos dos peronistas e a ascensão do Presidente Alfonsin, a crise econômica e a fuga de dólares – problemas que se agravaram com a liberalização do mercado na Argentina.

Pablo Trapero (Foto: Divulgação)
O diretor Pablo Trapero. Ele afirma que O clã retrata uma história universal sobre o relacionamento de um pai e um filho.

A ÉPOCA, Trapero falou sobre o sucesso do filme, a boa fase do cinema latino-americano e a eleição do conservador Mauricio Macri para substituir na Presidência os Kirchner. “Não sabemos o que vai acontecer, mas a sociedade está atenta às mudanças que o novo governo provocará”, afirma o Trapero.


ÉPOCA – Por que o senhor decidiu contar a história criminosa da família Puccio?

Pablo Trapero – Escutei essa história pela primeira vez aos 13 anos. Sempre imaginei que o caso dos Puccio renderia um filme. Em 2007, comecei a investigar e, em 2012, anunciamos o projeto, que foi retomado em 2014. Durante o processo de investigação, descobri coisas fascinantes sobre a história da família Puccio, que o tempo converteu em cinema.

ÉPOCA – Como o senhor reconstituiu a história dos Puccio?

Trapero – Falei com familiares das vítimas, com os advogados e amigos que estiveram na casa da família Puccio. Também conversamos com especialistas em crimes desse tipo. Enfim, conversamos com pessoas distintas, que nos contaram a intimidade dessa família. Vimos fotografias da época e notícias de jornal. Esse trabalho de reconstrução durou muito tempo e, em alguns momentos, foi absurda e surreal, mas, nos permitiu construir esse filme. Antes de ser um thriller, esse filme é o retrato de uma família e, principalmente, da relação entre um pai e um filho, o que faz dela uma história universal. Relações entre pais e filhos são parecidas em todos os lugares. Não importa o idioma. O clã é sobre isso.

ÉPOCA – O clã arrasou nas bilheterias argentinas e desbancou produções bem-sucedidas como O segredo dos seus olhos e Relatos selvagens. O senhor esperava esse sucesso todo?
Trapero – O clã é o segundo filme mais visto na história do cinema argentino. É a quarta ou a quinta maior bilheteria do ano, contando todos os filmes que estrearam no circuito comercial. E está sendo exibido no Brasil, na América Latina, no mundo todo! É uma linda surpresa, pela qual não esperávamos. É verdade que se trata de uma história muito atrativa, que desperta a curiosidade do espectador, mas esse fenômeno superou nossas expectativas.

ÉPOCA – A história dos Puccio vai continuar na TV argentina por meio de uma série estrelada por Chino Darrín (filho de Ricardo Darrín). A casa onde eles viviam se tornou um ponto turístico. A Argentina está vivendo uma “Pucciomania”? Por que esses vilões fascinam tanto os argentinos?

Trapero – A “Pucciomania” começou com o filme, que fez muito sucesso aqui, mas creio que ela também tenha a ver com a possibilidade de encontrar uma história que, num primeiro momento, é absurda e surreal, mas retrata os vínculos cotidianos e familiares. Os Puccio se parecem com muitas famílias. Quando comecei a trabalhar no filme, imaginava que os Puccio eram uma família de monstros insensíveis e selvagens, mas descobri que formavam uma família aparentemente normal muito querida e respeitada no bairro. Alejandro, por exemplo, era um jogador de rúgbi muito famoso. Esses contrastes fizeram do filme um fenômeno.

ÉPOCA – Como a história dos Puccio se relaciona com a realidade da Argentina nos anos 1980, que saía da ditadura e guerreava com a Inglaterra pelo controle das Ilhas Malvinas?

Trapero – Contar a história dessa família pensando no contexto em que ela aconteceu foi um desafio. Por meio dessa história, podemos aprender sobre uma época em que a Argentina passava pela Guerra das Malvinas e conquistava a democracia, o que não foi muito narrado pela ficção. Retratar a transição da ditadura para a democracia foi, ao mesmo tempo, estimulante e desafiador.

ÉPOCA – No filme, os personagens ouvem, pelo rádio, notícias sobre crise econômica e transição política, expressões que voltam a ser associadas à realidade argentina. Qual a diferença entre a Argentina dos Puccio e a Argentina atual?

Trapero – Há muitas diferenças. Não acredito que uma ditadura tão violenta como a que vivemos se repetirá. Mas o filme mostra uma realidade violenta e extrema que também existe fora da Argentina. O filme estreou na Argentina na mesma época em que a foto do menino sírio morto numa praia apareceu nos meios de comunicação. Foi quando começaram a falar sobre a crise imigratória que, na realidade, é um problema antigo, mas que ninguém dava importância. O que acontece em O clã pode acontecer na Espanha, no Brasil ou na Suíça. Se uma sociedade não encara os problemas de frente, eles voltam ainda mais graves e difíceis de resolver. E essa é a mensagem de O clã.

ÉPOCA – Qual a sua opinião sobre a derrota do kirchnerismo e a vitória de Mauricio Macri nas eleições?

Trapero – É uma nova etapa. Em qualquer sistema democrático, a mudança e a possibilidade de explorar outros caminhos é muito importante. Haverá uma nova direção e acredito que a sociedade esteja curiosa para saber para onde essa nova etapa vai nos levar. Não sabemos o que vai acontecer, mas a sociedade está atenta às mudanças que o novo governo provocará.

ÉPOCA – O cinema argentino desfruta de um prestígio pouco visto no cinema latino-americano. Qual o segredo do cinema argentino?

Trapero – Não sei qual é o segredo, mas, aqui, encontramos filmes que comovem o público. Não sei qual a razão ou como fazemos isso. Sempre existiu uma relação entre nós, que fazemos o filme, e o público. A paixão pelos filmes, o amor (do público, inclusive) pelo cinema é muito importante. O clã, por exemplo, não é um filme fácil, uma comédia comercial, mas o público é curioso e se anima em ver coisas novas. Acho que o segredo é a mistura do amor que temos pelo cinema e da curiosidade do público, que é muito intensa.

ÉPOCA – O senhor acompanha a produção cinematográfica da região? O que acha dos filmes brasileiros?

Trapero – Nos últimos anos, houve muitos filmes que exploraram novos caminhos no cinema latino-americano. Em 2015, assistimos a filmes latinos em Berlim, Cannes e em todos os festivais importantes. É uma fase muito linda, de muita diversidade e busca por personagens. Assistir a esses filmes nos permite aprender com nossos colegas de países vizinhos e nos ajuda a montar filmes mais sólidos e curiosos.

Leia mais:

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> As lições do cinema argentino

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