Previsões Falhas de Demanda por Petróleo

Sarah Kent (WSJ, 04/12/15) informa que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) está apostando que a demanda pelo combustível crescerá continuamente em 2016. Infelizmente para o cartel, o consumo é notoriamente difícil de prever.

Desde 2010, as três maiores fontes de análise de oferta e demanda do mercado de petróleo — a Agência Internacional de Energia (IEA – http://www.iea.org/), a Agência de Informação sobre Energia dos Estados Unidos (EIA – http://www.eia.gov/, da sigla em inglês) e própria Opep (OPEC – http://www.opec.org/opec_web/en/ ) — raramente têm conseguido ser precisos nas previsões de curto prazo de crescimento da demanda, revelou uma análise do Wall Street Journal.

Em dezembro de 2014, por exemplo, a EIA previu que demanda por petróleo iria aumentar em 900 mil barris por dia este ano. Mas, em sua última revisão, ela afirmou que o consumo cresceu em 1,4 milhão de barris por dia neste ano.

Em média, as previsões divulgadas em dezembro para o próximo ano das três entidades foram falhas em suas avaliações do consumo efetivo em 600 mil barris por dia desde 2010, segundo a análise do WSJ.

As estimativas que não se confirmaram ressaltam os desafios que a Opep enfrenta. Alguns querem cortar a produção em uma tentativa de impulsionar os preços em queda, embora a Arábia Saudita já tenha indicado que manter as torneiras abertas irá expulsar aqueles produtores que precisam de preços elevados para operar. O grupo não deve mudar sua estratégia, dizem analistas.

Sustentando a política da Opep está a crença que o consumo em alta vai acabar absorvendo a oferta excedente no mercado e elevando os preços novamente.

Em novembro de 2015, o vice-ministro do petróleo da Arábia Saudita, o príncipe Abdulaziz bin Salman, disse em uma conferência no Catar que uma diferença essencial entre a atual crise nos preços do petróleo e a queda histórica da década de 80 é que desta vez a demanda continua a crescer. Uma semana depois, o ministro do petróleo, Ali al-Naimi, disse em uma reunião do setor no Bahrein que o setor petroleiro precisa continuar, se não aumentar, os investimentos para expandir a capacidade para acompanhar o crescimento no consumo.

Se a demanda não crescer, essa será uma má notícia para a Opep.

“Os sinais são de que os sauditas não reduzirão ou mudarão sua política a menos que haja um significativo choque negativo de demanda”, diz Theepan Jothilingam, diretor de pesquisa de ações de petróleo e gás para Europa do banco de investimento japonês Nomura International PLC.

A IEA, EIA e OPEP têm informado que a demanda por petróleo irá crescer entre 1,2 milhão e 1,4 milhão de barris por dia no próximo ano, um volume expressivo, mas abaixo do de 2015, cuja expectativa de crescimento atual das agências está entre 1,4 milhão e 1,8 milhão de barris por dia.

A Opep não quis comentar sobre sua análise de demanda.

As previsões de demanda estão frequentemente erradas porque elas são uma mistura de suposições baseadas em dados muitas vezes incompletos e instáveis, como o crescimento econômico global e as variações nos preços do petróleo. Mesmo os dados retrospectivos não são fixos, e anos depois estimativas sobre a demanda global de petróleo podem ser reavaliadas.

É mais arte do que ciência em várias formasé Economia”, diz Matt Parry, analista sênior de mercado de petróleo da IEA, agência com sede em Paris que monitora tendências de energia nas nações industrializadas.

“Você tem que fazer várias suposições que podem, claro, estar erradas”, diz ele. “A esperança é que os erros acabem anulando uns aos outros.”

Este ano, a queda nos preços — maior e mais duradoura do que muitos previram — tem se mostrado um grande desafio para os analistas fazerem suas previsões e interpretações. Há 12 meses, poucos poderiam prever que o preço do petróleo estaria tão baixo como está agora. E, normalmente, essas quedas expressivas são associadas a uma desaceleração econômica e acompanhadas por uma forte contração no consumo. Em vez disso, o consumo teve uma forte alta este ano.

“Isso realmente nos surpreendeu em 2015”, diz Tancred Lidderdale , economista sênior do EIA.

As previsões de crescimento da demanda das organizações estão tentando prever flutuações razoavelmente pequenas — frequentemente entre 1% e 2% — em um mercado gigante onde são vendidos cerca de 95 milhões de barris de petróleo por dia. Mas tais variações ainda afetam o mercado e podem ser significativas para qualquer um que usa essas previsões para definir suas estratégias de negócio ou de hedge. E não são apenas a EIA, IEA e Opep que têm problemas em suas estimativas. Os bancos de investimento e consultorias também erram frequentemente em suas previsões.

“Nós pagamos muito dinheiro para esses caras. Eu gostaria que eles acertassem de vez em quando”, disse Ian Taylor, diretor-presidente do Vitol Group, maior trader independente de petróleo, em uma conferência este ano.

Às vezes, as previsões erram longe.

A IEA previu em dezembro de 2013 que o consumo de petróleo iria crescer 1,2 milhão de barris por dia em 2014. Um ano depois, essa avaliação caiu pela metade, e os preços do petróleo estavam em queda livre.

O crescimento da demanda menor que o esperado ocorreu em um momento em que a produção de petróleo estava explodindo, o que contribuiu para direcionar os preços para uma forte queda ao longo de 18 meses e da qual o petróleo ainda não se recuperou. O aumento expressivo da oferta foi bem sinalizado — em parte porque uma grande parcela do aumento veio dos EUA, onde os dados de produção são relativamente transparentes —, mas a fraca demanda pegou muitos de surpresa.

“Honestamente, eu acho que ainda não se deu muita atenção ao que realmente aconteceu com a demanda no ano passado”, disse Taylor, da Vitol, na conferência.

Em uma mudança em relação ao ano passado, alguns analistas de demanda dizem que seu trabalho hoje não é tão difícil quanto o dos observadores do mercado de petróleo que tentam prever a oferta — historicamente definida pela trajetória previsível dos grandes projetos de longo prazo.

O crescimento da produção mais flexível e de mais curto prazo do petróleo de xisto nos EUA e a perspectiva de acontecimentos geopolíticos imprevisíveis, como a volta dos barris de petróleo do Irã, tornam o cenário para o próximo ano particularmente difícil de prever.

Leia mais:

http://www.iea.org/publications/freepublications/publication/KeyWorld_Statistics_2015.pdf

http://www.opec.org/opec_web/static_files_project/media/downloads/publications/ASB2015.pdf

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