Desindustrialização Prematura nos Países Semi-industriais

RAYMOND ZHONG, de Rajkot, Índia (WSJ, 1 de Dezembro de 2015) conta a história pessoal que, por quase meio século, Laljibhai Gajjar chefiou fábricas que produziam motores a diesel e peças na calma cidade industrial de Rajkot, na Índia. Mas, depois que os produtos chineses começaram a conquistar o mercado, o empresário achou um novo meio de vida. Ele demitiu 100 funcionários e começou a vender carros Hyundai.

Atrás de um movimentado showroom, está o que restou de suas operações fabris: uma oficina em ruínas onde cerca de 20 funcionários agora montam máquinas de estamparia de metal. As encomendas estão cada vez menores. Gajjar diz que, num dia desses, terá que fechar a oficina também.

O caso de Gajjar ilustra um fenômeno que está ocorrendo na Índia e em outros países pobres — justamente onde o crescimento da população é mais acelerado — e preocupando muitos economistas.

Os Estados Unidos e a Europa — e mais recentemente o Leste Asiático — ficaram ricos primeiramente devido a suas fábricas. Com o tempo, a renda cresceu, suas economias se sofisticaram e eles migraram para serviços modernos, como assistência médica e finanças.

Hoje, porém, partes do Sul da Ásia, África e América Latina não estão conseguindo criar setores industriais prósperos, ainda que os salários continuem baixos. Em vez disso, o emprego e a produção de suas indústrias estão atingindo um pico e seus níveis de renda e desenvolvimento caem de forma muito mais acelerada que os apresentados por países desenvolvidos no passado.

O receio dos economistas é que o modelo do progresso liderado por fábricas — o qual por mais de um século ofereceu o caminho mais rápido para sair da pobreza — simplesmente não esteja mais disponível para os países mais pobres de hoje.

Isso impõe um grande desafio a países como a Índia, que ainda estão repletos de jovens em busca de bons empregos. O gigante do Sul Asiático, cuja população está perto de 1,3 bilhão, deve superar a China como o país mais populoso do mundo até 2022 e chegar a 1,7 bilhão de habitantes em 2050. Sua população ativa cresce em um milhão de pessoas por mês.

Ter muitos jovens trabalhando, ganhando e gastando deveria criar um impulso demográfico capaz de energizar o crescimento por décadas. Mas também poderia se transformar num desastre se os empregos não se materializarem.

Dani Rodrik, um economista de Harvard que começou a compilar dados sobre a manufatura mundial há alguns anos, diz que vê evidências crescentes do que ele chama de uma “desindustrialização prematura”: a desativação ou encolhimento de setores de manufatura, como proporção da economia, em países pobres que nunca chegaram a se industrializar muito, como a Índia.

No início dos anos 60, quando Gajjar abriu sua fábrica de motores em Rajkot, a produção manufatureira na Índia representava cerca de 12% da economia. Ela atingiu um pico de 19% na década de 90 e desde então caiu para cerca de 17%. O setor manufatureiro da Coreia do Sul, ao contrário, chegou a 36% da economia em 2010, ante 3% no início da década de 60. A China, onde a manufatura também representa cerca de 35% da economia, seguiu um caminho semelhante.

A África se parece mais com a Índia. Na África do Sul, a manufatura equivalia a 15% da produção em 1962 e atingiu um máximo de 25% em 1981. Em 2011, a proporção estava perto de 18%. A atividade fabril na Etiópia, um país que moderniza rapidamente, nunca passou de 6% da economia. Na Tanzânia, ela chegou ao auge de 13% em 1976 e desde então recuou para cerca de 10%.

Há muitas razões para as dificuldades enfrentadas por esses países. Suas estradas e redes elétricas são deficientes e a regulação de negócios pode ser onerosa e assolada por corrupção.

Mas especialistas como Rodrik dizem que também há forças mais profundas em ação.

A automação das fábricas e a robótica estão reduzindo a necessidade de mão de obra não qualificada nas linhas de montagem.

Além disso, os últimos a chegar à industrialização agora têm que competir com a China, cuja imensa máquina integrada de manufatura tornou o país no centro fabril do mundo e criou uma enorme barreira de entrada no setor. As tarifas também estão caindo e o comércio internacional está se tornando mais livre, dificultando para países em desenvolvimento proteger seus fabricantes da concorrência estrangeira.

E, com o envelhecimento da população em países desenvolvidos, há sinais de que a demanda global por produtos que vão de carros a móveis esteja se estabilizando. Desde a crise financeira de 2007-2008, as exportações e importações globais estão, pela primeira vez em décadas, expandindo-se mais lentamente que o crescimento econômico mundial.

“O espaço para novatos está encolhendo”, diz Rodrik. “Duvido que veremos a história se repetir.”

Mas nem tudo é tão desesperador. Alguns economistas argumentam que o setor de serviços, como o imobiliário e de turismo, pode ser um gerador de empregos e crescimento para países em desenvolvimento, assim como foram para o Ocidente pós-industrial. Outros sustentam que o velho modelo liderado pela manufatura ainda funciona, principalmente diante do envelhecimento da população e do aumento do custo de mão de obra na China. “O espaço para crescer usando mão de obra barata e atraindo capital e tecnologia não desapareceu”, diz Arvind Subramanian, assessor do Ministério das Finanças da Índia.

Ainda assim, dados obtidos por Rodrik indicam que algo mudou desde que os EUA, Europa e Japão usaram seu poder industrial, há décadas, para obter grandes ganhos em prosperidade antes de a manufatura migrar para o exterior. Quando a indústria dos EUA atingiu seu auge como fonte de emprego, em 1953, ela absorvia 26% dos trabalhadores americanos e a renda per capita total estava em torno de US$ 17.700 por ano em dólares atuais. Em 2010, a indústria representava cerca de 9% dos empregos no país.

O emprego fabril demorou mais para atingir seu pico no Reino Unido, França, Itália e Japão, mas o fez em um nível de renda semelhante ou maior.

Já nos países que começaram o processo mais tarde, a indústria rendeu menos. No momento em que a indústria da Coreia do Sul atingiu sua maior proporção de empregos, em 1988, a renda anual per capita era de cerca de US$ 12.700, depois de ajustes na diferença do poder de compra. O Brasil atingiu seu auge em 1986, a uma renda anual de US$ 8.700.

Na Índia, o emprego fabril começou a cair como proporção do mercado de trabalho total quando a renda estava em torno de US$ 3.300. Na Nigéria, Quênia e Gana, esse valor ficou perto de US$ 2 mil.

Em muitos desses países, a proporção da manufatura na produção econômica continuou subindo mesmo após a proporção do emprego atingir o seu auge. À medida que se tornam mais produtivas, as fábricas podem produzir mais com menos funcionários.

Narendra Modi, o primeiro-ministro da Índia, prometeu melhorar a infraestrutura e reduzir a burocracia para colocar a Índia na liga das grandes potências industriais asiáticas, gerando 100 milhões de empregos no processo. Entre 2005 e 2012, ano mais recente para o qual há dados disponíveis, a Índia criou apenas 6 milhões de novos empregos na indústria e 21 milhões em serviços. A força de trabalho total cresceu, no período, em cerca de 55 milhões.

Nos 18 meses desde que Modi assumiu o poder, fabricantes globais como Ford Motor Co.,Foxconn Technology Group e General Electric Co. anunciaram expansões em suas operações na Índia, potencialmente criando milhares de empregos.

Mas essa campanha “Made in India” pode enfrentar limites que não existiam quando outros países se industrializaram. Quando o setor manufatureiro da China decolou, a demanda mundial estava alta e as multinacionais ainda não haviam migrado grande parte de sua produção para outros países. O sistema autoritário da China também tornou mais fácil a construção de estradas e a alocação de terras para a indústria.

“Não importa o quanto a Índia se esforce, ela vai enfrentar obstáculos globais muito mais fortes do que a China enfrentou”, diz Ruchir Sharma, chefe da área de mercados emergentes e macro global no Morgan Stanley Investment Management.

One thought on “Desindustrialização Prematura nos Países Semi-industriais

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s