Capitalismo Neoliberal Já Era

Se você quer encontrar pessoas que ainda acreditam no “sonho americano” — o ideal sedutor que qualquer pessoa pode construir uma vida melhor para si e sua família, não importam as circunstâncias — o melhor a fazer talvez seja ir a Mumbai. Metade dos indianos concordou, numa pesquisa recente, que “a próxima geração será provavelmente mais rica, mais segura e mais saudável que a última”.

Os indianos são os mais otimistas entre os mais de mil adultos consultados em cada um de sete países pela firma de pesquisas de mercado YouGov, numa pesquisa feita no início de setembro para o instituto londrino Legatum. O percentual de otimismo cai para 42 na Tailândia, 39 na Indonésia, 29 no Brasil, 19 no Reino Unido e 15 na Alemanha. Mas não são países do velho mundo, como Grã-Bretanha ou Alemanha, os mais pessimistas sobre o futuro. É nos EUA, no novo mundo, que apenas 14% dos pesquisados acham que a vida será melhor para seus filhos e 52% discordam.

A trajetória do mundo não justifica esse pessimismo. As pessoas estão vivendo mais em todos os continentes. Elas estão fazendo trabalhos menos árduos e penosos. Desastres naturais estão matando menos gente. Um número menor de safras está se perdendo. Cerca de 100 mil pessoas estão sendo retiradas da pobreza todos os dias, segundo dados do Banco Mundial. A vida também está ficando melhor nos EUA, segundo múltiplos indicadores, mas a pesquisa revelou que 55% dos americanos pensam que “os ricos ficam mais ricos” e “os pobres ficam mais pobres” no capitalismo. Sessenta e cinco por cento acreditam que a maioria das grandes empresas “sonega impostos, causa danos ao meio ambiente ou compra favores especiais dos políticos”, e 58% querem restrições à importação de bens manufaturados.

Esses resultados não indicam que os americanos estão necessariamente prontos para desistir da livre iniciativa. Parafraseando Winston Churchill, eles acreditam que o capitalismo é absolutamente o pior sistema econômico — excetuando-se todos os outros que são testados de tempos em tempos. Quarenta e nove por cento ainda concordam que a livre iniciativa é o melhor sistema para tirar as pessoas da pobreza; só 18% discordam. E 61% dos americanos creem que o desemprego é um problema social mais grave que a existência de uma elite “super-rica”, do que apenas 12% discordam.

Os amigos do capitalismo, entretanto, não podem ser complacentes. Os resultados da pesquisa ressaltam o quanto as pessoas pensam que a criação de riqueza é um negócio sujo.

Quando grandes maiorias em tantos países importantes pensam que as grandes empresas se comportam de forma antiética e até ilegal, o sistema se torna vulnerável ao ataque de políticos populistas.

John Mackey, diretor-presidente da rede de supermercados de produtos orgânicos Whole Foods, há muito se preocupa com a sustentabilidade do sistema da livre iniciativa caso um grande número de eleitores passe a considerar as empresas “basicamente um bando de psicopatas fazendo de tudo para encher seus próprios bolsos”. Se o público não achar que as empresas são fundamentalmente boas, argumenta ele, então o setor corporativo estará fazendo um convite à regulação destrutiva. Se, por outro lado, as empresas demonstram responsabilidade em relação a todas as partes interessadas — clientes, funcionários, investidores, fornecedores e a comunidade em geral — “o impulso para regular e controlar será reduzido”.

Mackey quer as empresas concentradas em maximizar propósitos tanto quanto lucros. Ele destaca como a companhia aérea Southwest Airlines considera sua missão dar a mais americanos a capacidade de conhecer o mundo. Esse objetivo é comunicado do mais baixo até o mais alto escalão da empresa. A missão do Google é organizar a informação do mundo para que seja universalmente acessível. No caso da Whole Foods, a missão é ajudar as pessoas a ter vidas mais longas e saudáveis através de melhores escolhas alimentares.

Claro que muitas grandes empresas creem que ter relações próximas com governos seja parte de seu propósito e mais uma benção que uma maldição. Em seu livro recente, “The Great Divide” (Algo como “A grande divisão”, ainda sem edição em português), o economista Joseph Stiglitz identifica aqueles capitalistas que descobriram formas inovadoras de persuadir o governo a proteger seu status no mercado, chamando esse fenômeno de “socialismo para os ricos”.

Michael Gove, que é ministro do governo conservador do Reino Unido e representa tipos de políticas diferentes das defendidas por Stiglitz, chegou a conclusões semelhantes. Ele faz uma distinção entre os “ricos por merecimento”, que trabalham duro e de forma criativa, agregando valor à sociedade, e os “ricos sem merecimento”, que se beneficiam das intervenções do governo, manipulam as regras e participam dos comitês de remuneração uns dos outros.

Nas mentes da maioria das pessoas, os bancos estão no topo da lista quando pensamos no capitalismo de camaradagem. Nós nos lembramos de como alguns bancos rapidamente castigaram pequenas empresas e famílias quando elas tiveram problemas financeiros. Mas, quando esses mesmos bancos e instituições financeiras se viram em dificuldades, há sete anos, eles foram socorridos pelos contribuintes e um conjunto de regras diferentes parece ter sido aplicado.

Para o pessimismo de hoje sobre o capitalismo ser erradicado, as pessoas devem pensar que as mesmas regras se aplicam a todos. Para o capitalismo ganhar a confiança do público, precisamos de um sistema onde os ricos podem ficar pobres do mesmo modo que os pobres podem ficar ricos. E a administração das empresas precisa refletir essa realidade.

Que capitalistas ainda são populares? Outra pesquisa global conduzida pela YouGov procura todo ano identificar as pessoas mais populares do mundo. O vencedor nos dois últimos anos não foi uma celebridade ou uma estrela dos esportes. Não foi nem Barack Obama nem o Papa. Foi Bill Gates, fundador da Microsoft e um filantropo transformador.

Aqueles que estão determinados a restaurar a fé no capitalismo não vão defender apenas pessoas como Bill Gates e John Mackey. Eles serão duros com os capitalistas de fachada que enganam reguladores do meio ambiente ou manipulam mercados financeiros. Quando o capitalismo conseguir ser visto como justo e eficaz, ele voltará a ser popular.

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