Consequências da Explosão da Bolha de Commodities

Um trabalhador observa a iluminada refinaria de Atyrau, no Cazaquistão. A taxa de crescimento do país deve cair de 6% antes do colapso dos preços do petróleo para 1,5% neste ano. IAN TALLEY, de Lima (WSJ, 14 de Outubro de 2015), avalia que a queda nos preços das commodities está golpeando exportadores de petróleo do mundo todo. O que pode determinar o impacto desse golpe é o quanto os governos seguiram as lições aprendidas nos ciclos anteriores de expansão e recessão.

A Noruega e a Arábia Saudita criaram fundos consideráveis para períodos difíceis e administraram a inesperada bonança dos preços altos de forma conservadora. Agora, os dois países contam com uma proteção substancial para se defender de uma crise.

A Nigéria e a Venezuela, por outro lado, gastaram seus recursos de forma ostentosa e promoveram poucas reformas econômicas à medida que os preços foram subindo. Hoje, ambas sofrem com o recuo nos preços.

A queda no mercado de commodities vem prejudicando países ricos em recursos naturais que respondem por cerca de 20% da produção econômica mundial. É verdade que o recuo nos preços do petróleo está beneficiando alguns dos maiores consumidores do mundo, como os Estados Unidos e a Europa, que são cruciais para manter a economia mundial longe de uma recessão. Mas, globalmente, o petróleo barato está gerando um impulso menor que o previsto há apenas um ano, ao mesmo tempo em que força as economias mais vulneráveis a buscar saídas em um ambiente incerto.“A queda no preço do petróleo foi uma surpresa”, diz o ministro da Fazenda da Angola, Armando Manuel. “Ela pegou o meu país em um estágio em que nós não estávamos suficientemente diversificados.”

O colapso das commodities e seus efeitos nas economias emergentes atraíram grande atenção em Lima, onde os ministros da Fazenda e líderes de bancos centrais se encontraram para a reunião anual do Fundo Monetário Internacional em meio a um cenário de crescimento global sombrio.

O problema, que não se restringe ao setor de petróleo, alimenta uma desaceleração muito mais ampla em países emergentes importantes, do Brasil à África do Sul. Os preços dos metais atravessam um período de queda longo e severo, atingindo exportadores de minério, cobre e outras matérias-primas industriais.

Os exportadores de petróleo estão demonstrando o que pode estar à espera de outros grandes exportadores de commodities. A Nigéria, onde as exportações de petróleo respondiam por quase 65% da receita do governo antes dos preços despencarem, viu sua previsão de crescimento para este ano cair para menos de 4%, ante mais de 6% um ano atrás, segundo o FMI. A taxa de crescimento do Cazaquistão caiu de 6% antes do colapso dos preços para 1,5% neste ano. Na Venezuela, onde metade da receita do governo vem das vendas de petróleo, a economia vai encolher 10%.

O choque nos preços do petróleo não deve se dissipar rapidamente, o que cria um cenário ameaçador nos países que dependem da renda gerada pela commodity. A demanda tem caído, especialmente com a desaceleração da China, a segunda maior economia do mundo e uma voraz consumidora de combustíveis.

Muitos economistas e operadores esperam que os preços do petróleo continuem sob considerável pressão devido ao excesso da produção global. “Ainda não estamos no fundo”, diz Ed Morse, chefe global de pesquisa de commodities do Citibank.

Os países que enfrentam dificuldades receberam inúmeros sinais de alerta antes. A ideia da “maldição dos recursos naturais” tem assombrado exportadores de commodities há décadas. Muitos países começaram a criar fundos para períodos difíceis, “mas eles foram saqueados por sucessivos governos”, diz Nancy Birdsall, presidente do Centro para o Desenvolvimento Global, um centro de estudos de Washington.

Apesar de os países ricos em recursos naturais terem cortado seus gastos, o FMI estima que a média do déficit orçamentário de seus governos tenha crescido em torno de 7% do produto interno bruto, um rombo nas finanças que eles não serão capazes de superar rapidamente. Para alguns países no Oriente Médio e no Norte da África, a perda de receita pode ser equivalente a 25% do PIB, segundo o FMI.

As petrolíferas estatais que enchem os cofres de seus governos aproveitaram o crédito barato para financiar projetos e expandir a produção. Agora, o plano do Federal Reserve, o banco central americano, de elevar as taxas de juros está aumentando os custos dos empréstimos exatamente quando as perspectivas de crescimento encolhem. Isso está tornando os contribuintes responsáveis pelas dívidas das petrolíferas estatais de seus países, como a Petróleos de Venezuela SA e a Petróleos Mexicanos, cujas obrigações equivalem a mais de 20% e a quase 15% do PIB da Venezuela e do México, respectivamente.

Para piorar, os investidores estão tirando dinheiro do mundo emergente. O Instituto de Finanças Internacionais, um grupo setorial, estima que os investidores vão fazer uma retirada líquida de meio trilhão de dólares de economias emergentes neste ano, marcando o primeiro êxodo de capital de países em desenvolvimento em quase 30 anos.

Isso acelera a alta dos custos de empréstimos, exacerbando os problemas desses países. E, já que muitos deles estão agora com rombos financeiros mais profundos, eles terão que tomar empréstimos a custos elevados para cobrir suas despesas.

“As condições financeiras tendem a piorar significativamente precisamente nos momentos em que os exportadores de petróleo mais precisam de financiamento”, diz Vítor Gaspar, diretor do Departamento de Assuntos Fiscais do FMI.

Alguns países estão agora tomando duras decisões rapidamente. A Angola, onde aproximadamente 90% das receitas governamentais vinha das vendas de petróleo, reduziu a estimativa do preço do barril que serve de base para seu orçamento — de US$ 98 em 2014 para US$ 40 neste ano. O país também cortou em 50% os gastos públicos.

Há um ano, o governo gastava US$ 550 milhões por mês subsidiando combustíveis para a população. Indo além da queda no preço do petróleo, a Angola reduziu esse valor para US$ 140 milhões. O governo ainda está adiando alguns investimentos em infraestrutura previstos em Luanda, a capital, diz Manuel, o ministro da Fazenda. “Para nós, a crise é uma oportunidade de avançar em direção a uma eficiência maior nos gastos públicos.”

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