Pintores da Vida Moderna

 

Will Gompertz, no livro “Isso É Arte?” (Editora: Zahar; 2013; Páginas: 446; R$ 64,90), conta que, ao comprar um mictório, assiná-lo e datá-lo, Marcel Duchamp acreditava ter inventado uma nova forma de escultura: uma em que o artista podia selecionar qualquer objeto produzido em massa sem nenhum mérito estético óbvio e, libertando-o de sua finalidade funcional – em outras palavras, tornando-o inútil –, dando-lhe um nome e mudando o contexto e o ângulo do qual seria visto normalmente, transformá-lo em uma obra de arte de fato. Chamou essa nova forma de fazer arte de readymade, uma escultura já pronta.

Assinou-a com seu nome verdadeiro, mas disse from e não by Marcel Duchamp. Aquilo era uma ideia “vinda de” um artista em contraposição a uma obra de arte “produzida por” um artista.

Era da natureza de Duchamp brincar com as palavras, fazer piadas e zombar do pomposo mundinho da arte. Ele pretendia que “Fonte” (o mictório assinado) fosse uma crítica aos colecionadores gananciosos e especuladores e aos diretores de museus ignorantes e pomposos. Era um homem que preferia o xadrez à arte.

Cabia aos artistas decidir o que era ou não uma obra de arte. Se um artista dizia que uma coisa era uma obra de arte, tendo interferido em seu contexto e significado, ela era uma obra de arte!

Antes, o meio – tela, mármore, madeira ou pedra – vinha primeiro. Só depois era permitido ao artista projetar suas ideias sobre ele com pintura, escultura ou desenho. Duchamp queria inverter isso. Considerava o meio secundário: o primordial era a ideia. Só depois de ter escolhido e desenvolvido um conceito o artista estava em condições de escolher um meio que lhe permitisse expressar a ideia da maneira mais bem sucedida.

Em essência, arte podia ser qualquer coisa desde que o artista dissesse sim. Era uma grande ideia.

Duchamp considerava um disparate a opinião de que “os artistas são de certo modo uma forma mais elevada de vida humana”. Os artistas se levam e são levados a sério demais.

Derivativo

O grande poder das ideias é que não é possível desinventá-las. A arte está na ideia, não no objeto.

“Fonte” é uma escultura readymade que nunca foi exibida em público, que nunca foi destinada a ser mais que uma brincadeira provocativa, mas que veio a se tornar a obra de arte mais influente criada no século XX. As ideias que representava influenciaram diretamente vários dos maiores e mais importantes movimentos artísticos, entre os quais o dadaísmo, o surrealismo, o expressionismo abstrato, a pop art e o conceitualismo.

Ao propor que uma ideia é mais importante que o meio, privilegiando assim a filosofia sobre a técnica, terá ele obstruído as Escolas de Arte com dogma, tornando-as amedrontadas e desdenhosas em relação à habilidade técnica? Ou terá sido um gênio que fez a arte se emancipar das trevas, permitindo-lhe florescer e desencadear uma revolução intelectual de longo alcance?

Will Gompertz tem esta última opinião. Duchamp redefiniu o que a arte era e podia ser. A seu ver, o papel de um artista na sociedade era semelhante ao de um filósofo; não importava sequer se ele sabia pintar ou desenhar. O trabalho de um artista não era proporcionar prazer estético – designers podiam fazer isto –, mas afastar-se do mundo e tentar compreendê-lo ou comentá-lo por meio da apresentação de ideias sem nenhum propósito funcional além de si mesmas.

Charles Baudelaire, o poeta, escritor e crítico de arte francês, produziu um ensaio intitulado “O pintor da vida moderna”. Este ensaio apresenta várias referências à palavra “flâneur”, o conceito do homem-que-vaga-pela-cidade: “observador, filósofo, flâneur – chame-o como quiser… a multidão é seu elemento”.

Não houve melhor provocação para os impressionistas saírem e pintarem ao ar livre. Baudelaire acreditava apaixonadamente ser dever dos artistas vivos documentar seu tempo. Dotar-se da capacidade de ver, possuir o poder de expressão. Ele desafiou artistas a encontrar o eterno na vida moderna, a “extraí-lo do transitório”. Este, a seu ver, era o objetivo essencial da artecaptar o universal no cotidiano, que era específico a seu aqui e agora: o presente.

Cabia mergulhar no dia a dia da vida metropolitana: observar, pensar, sentir e, por fim, registrar. Esta foi uma filosofia que se espalhou pela história da arte moderna.

Impressionismo foi o mais famoso movimento artístico a ganhar forma desde o Renascimento. Nele, há muito pouco detalhe. Trata-se, na verdade, de uma impressão do que o artista viu.

Os elementos que tornaram o movimento famoso foram:

  1. as pinceladas staccato,
  2. o tema moderno,
  3. a priorização dos efeitos de luz sobre qualquer detalhe pictório e
  4. a noção predominante de que esta é uma pintura para ser experimentada, não somente olhada.

“Mau esboço” é um bom exemplo do impressionismo inicial: toscamente pintado, vivamente colorido, rapidamente executado e tendo por tema a burguesia moderna.

Artistas Mortos

Quando um marchand compra, de imediato, grande parte do trabalho dos inovadores, mas também cria uma demanda comercial para ele, transforma a maneira como o mercado de arte funcionava. A Revolução Republicana, a urbanização e a mecanização haviam criado uma nova classe social conhecida como burguesia. O marchand intuía que essa nova classe média nouveau riche iria querer um tipo diferente de arte.

O homem moderno esclarecido iria querer adquirir arte que refletisse seu estimulante novo mundo, não enfadonhas pinturas marrons cheias de iconografia religiosa antiga. O lazer era a grande novidade, tempo livre para passear e se divertir, a grande dádiva da nova tecnologia.

Os clientes do marchand iriam comprar imagens de pessoas parecidas com eles mesmo desfrutando os prazeres da vida urbana. Estimulou os jovens artistas a pintar quadro menores, que pudessem caber nas paredes de colecionadores menos abonados, donos de apartamentos mais modestos.

Com um pressentimento de que os gostos estavam mudando tão depressa quanto o mundo em que todos estavam vivendo, o plano de negócios especulativo, mas bem-sucedido, deu aos artistas talentosos, mas rejeitados pela Academia de Belas Artes, a independência financeira que lhes permitiria perseguir suas metas criativas sem interferência ou inquietações materiais.

Essas ações propiciaram diretamente a emergência e o rápido desenvolvimento da arte moderna. Bem como implantaram um projeto comercial em torno de marchands bem-informados e empreendedores que prospera até hoje.

Quanto ao papel dos críticos de arte, foi como diria Oscar Wilde um pouco mais tarde: “Só há uma coisa pior do que falarem de nós: não falarem”. A vida na linha de frente da vanguarda nunca é fácil, devido a vã guarda da tradição conservadora…

Quando o mais famoso marchand promoveu uma grande exposição dos impressionistas nos Estados Unidos, em 1886, ele comparou os norte-americanos com os franceses, dizendo: “O público norte-americano não riqueza. Ele compra!

A arte dos impressionistas tornara-se a arte do mundo moderno.

Catálogo de Exposição

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