Crise de 1997 X Crise de 2015

Uma casa de câmbio nas Filipinas mostra a cotação do dólar em outras moedas. A alta do dólar está tornando mais difícil para as empresas pagar dívidas na moeda americana.

GREG IP (WSJ, 27 de Agosto de 2015) informou que o Federal Reserve planejava elevar os juros, os preços do petróleo vinham afundando e um país asiático emergente desvalorizou sua moeda.

 

Para os mercados emergentes, há semelhanças perturbadoras entre 1997, quando a desvalorização da Tailândia desencadeou uma crise que tomou conta da Ásia e logo se arrastou pela Rússia e América Latina, e o presente, quando a desvalorização da China provocou uma debandada de investidores de mercados de câmbio, ações e dívida.

A boa notícia é que muita coisa mudou desde então. Hoje, o declínio de moedas não é um sinal de que uma crise está se formando, mas sim um amortecedor de choques bem-vindo. A má é que a desaceleração da China e a queda dos preços das commodities que a acompanhou estão expondo fraquezas estruturais há muito negligenciadas pelas economias emergentes.

Para os países emergentes, a aparente determinação do Fed, o banco central americano, de promover um aperto em sua política monetária traz de volta recordações desagradáveis. Em 1981-1982, 1994 e 1997-1998, altas de juros nos Estados Unidos, ou o medo delas, espremeu as finanças de países e empresas que acumulavam dívidas em dólar, precipitando crises.

No início de 1997, muitas moedas de mercados emergentes estavam atreladas ao dólar. Esse vínculo com a moeda americana estabilizou a inflação e deu segurança a investidores e exportadores. Mas também incentivou governos, bancos e empresas a tomar grandes empréstimos em dólar, que eram mais baratos que empréstimos em moeda local, e levou estrangeiros a emprestar em moeda local.

Déficits comerciais crescentes, porém, tornaram esse vínculo insustentável. Para combater a pressão de venda, os bancos centrais passaram a usar suas escassas reservas internacionais para comprar moedas locais. No fim, eles acabaram forçados a desvalorizar, começando com a Tailândia e, logo, Filipinas, Malásia, Coreia do Sul, Indonésia, Rússia e Brasil.

As desvalorizações ampliaram drasticamente o peso das dívidas em dólar. Para limitar a pressão de venda, muitos países recorreram a aumentos de juros. Na Coreia do Sul e Tailândia, os juros de curto prazo quase dobraram, para mais de 20% ao ano.

Hoje, a maioria das grandes economias emergentes mantém um câmbio flutuante. Isso as protegeu das recessões nos EUA e Europa e do colapso dos preços das commodities. Os bancos centrais desses países ainda se preocupam com a inflação. Mas, com os preços aumentando a um ritmo de um dígito, a maioria, por enquanto, tem evitado elevar os juros. Indonésia, Coreia do Sul e Tailândia cortaram suas taxas de juros neste ano. O Brasil ainda batalha contra a inflação e aumentou os juros, mas eles ainda estão num nível muito menor que em 1998-1999.

Ao mesmo tempo, os bancos de mercados emergentes são hoje administrados de forma mais conservadora e mais regulados que no fim dos anos 90. Eles estão mais capitalizados e dependem mais de depósitos e menos de empréstimos de grandes investidores, muitas vezes estrangeiros.

A China é uma exceção gritante a algumas dessas tendências. O país manteve uma taxa de câmbio fixa. A desvalorização do yuan teve algo de 1997: a ameaça de juros mais altos nos EUA levou os investidores a vender yuans, forçando o Banco Popular da China a gastar reservas para sustentar a moeda.

Mas, enquanto as desvalorizações dos anos 90 foram desordenadas, dramáticas e forçadas, o controle da China sobre os fluxos de capital e as enormes reservas internacionais de US$ 3,7 trilhões significam que o país, em boa parte, é imune à especulação, o que dá ao BCCh um controle rígido do câmbio e liberdade para cortar os juros.

É verdade que as empresas de países emergentes exploraram as baixas taxas de juros dos EUA para tomar grandes empréstimos em dólar nos últimos anos; e fica mais difícil pagar essa dívida à medida que o dólar sobe. Mas, como os empréstimos têm sido feitos predominantemente por meio de títulos vencimentos longos, em vez de empréstimos bancários de curto prazo, essas dificuldades provavelmente vão se materializar gradualmente.

Os bancos da China são outro problema em potencial: seus empréstimos inadimplentes são quase que certamente muito mais altos que o 1,5% dos ativos relatados pelo regulador do país.

Crises bancárias sistêmicas ocorrem quando depositantes e credores, temendo que a inadimplência possa afundar os bancos, sacam seu dinheiro. Para conter o pânico, o governo é obrigado a resgatar ou nacionalizar os bancos. Mas uma fuga de depósitos em bancos da China é improvável, já que a maioria é controlada pelo governo, que não deixará que os bancos quebrem: “Eles já vêm pré-nacionalizados”, diz Simon Cox, do BNY Mellon Investment Management.

A combinação de fugas de capitais, altas taxas de juros e bancos em colapso abateram as economias do Leste da Ásia: a Coreia do Sul encolheu 5% em 1998, a Tailândia 11% e a Indonésia, 13%. Por outro lado, um “pouso forçado” da economia da China significa que ela ainda cresceria 4% ao ano nos próximos anos, previu a Oxford Economics.

Então, os países emergentes não estão à beira de uma crise financeira. Mas muitos enfrentam, de qualquer forma, uma crise econômica prolongada.

O crescimento impressionante de que muitos emergentes desfrutaram nos últimos dez anos era altamente dependente do apetite por commodities da China. As exportações para o país representam cerca de 2% do PIB da Indonésia, Brasil e África do Sul, segundo a IHS. Isso subestima a influência da China, já que sua demanda serve de base para os preços das commodities não importa para quem elas sejam vendidas.

O recuo chinês está expondo as barreiras mais difíceis para o crescimento global:

  1. o fracasso da Rússia de se diversificar para além do petróleo e gás,
  2. a infraestrutura pública inadequada do Brasil e da Indonésia,
  3. o envelhecimento da população da Ásia Oriental e
  4. a educação de baixa qualidade da África do Sul.

Em todo o mundo emergente, corrupção e ingerência excessiva do Estado minam a confiança do público e da iniciativa privada.

No longo prazo, esses problemas são mais importantes, e mais difíceis de corrigir, que uma desaceleração na China.”

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