Vingança da Formiga sobre o Elefante

Luiz Cezar Fernandes

André Rocha (Valor, 05/01/16), inspirado na leitura da mesma fonte, o excelente perfil do efeito da bancarrota sobre um banqueiroDe Elefante à Formiga –, esboçado por Consuelo Dieguez, escreveu um artigo que eu tinha pensado em escrever como post. Compartilho-o abaixo.

“A substituição do presidente do BTG Pactual, André Esteves, em decorrência do seu envolvimento na Operação Lava-Jato possui semelhanças com a destituição do controlador do antigo Pactual, Luiz Cezar Fernandes, ocorrida há 16 anos. Por que esses eventos se parecem?

Há histórias marcantes. E existem livros e reportagens que as tornam ainda mais interessantes. Ao deparar-me com a crise do BTG Pactual, lembrei-me de uma reportagem da revista Piauí de novembro de 2006 – http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/de-elefante-a-formiga/  – que abordava a atual vida bucólica de Luiz Cezar Fernandes em contraposição ao seu glorioso passado de banqueiro.Fernandes veio de berço de classe média como Esteves. Após trabalhar em funções burocráticas em algumas instituições financeiras, foi contratado em 1970 pela corretora Libra, onde conheceu Jorge Paulo Lemann. Em 1971, Lemann fundou a corretora Garantia e o convidou a se juntar à sociedade. A remuneração baseada em desempenho alçou-o à riqueza. O Garantia se tornou uma instituição mítica do sistema financeiro nacional por conta de seus critérios de meritocracia na remuneração, do sistema de “partnership” e da inovação em produtos financeiros e práticas de mercado como a introdução do sistema de custódia.

Fernandes desligou-se da instituição em 1982. A reportagem alega que as desavenças com os demais sócios ocorriam devido à sua participação societária relevante apesar da formação educacional inferior, à sua indisciplina e pelo fato de “suas relações com altos funcionários públicos, apesar de muito úteis, serem heterodoxas”.

Quase em seguida, Fernandes funda o Pactual juntamente com os economistas Paulo Guedes e André Jakurski. O crescimento foi vertiginoso. De um capital inicial de US$ 200 mil em 1983, a instituição foi vendida para o suíço UBS em 2006 por US$ 2,6 bilhões. Com o crescimento do Pactual, o número de sócios foi aumentando. Entre esses, destaque para André Esteves.

A vontade de seguir os passos de Lemann, que já atuava na economia real a partir da aquisição das Lojas Americanas e da cervejeira Brahma, fez com que o Pactual, no início da década de 90, passasse a atuar na reestruturação de empresas problemáticas como a companhia aérea Varig, a varejista Mesbla e a fabricante de chocolates Lacta.

Fernandes queria que o Pactual passasse a ter participação em empresas como a GP Participações, de Lemann, mas os outros sócios foram contrários. Com isso, ele criou a holding Latinpart para investir por conta própria em empresas não financeiras.

As investidas – Indústrias Têxteis Berberá (Teba), a fabricantes de embalagens Overprint e a de processamento de suco de laranjas Citromatão – revelaram-se fracassos, gerando um rombo nas finanças de Fernandes que recorreu a seus sócios no Pactual para se financiar. Eles aceitaram, mas desde que Fernandes vendesse sua participação, o que acabou retirando-lhe o controle do banco.

Aqui a história de Fernandes começa a se parecer com a de Esteves. Após recomprar o banco do UBS, Esteves abriu seu capital em 2012.

Na minha análise sobre o IPO em abril daquele ano, alertei que a tese de investimento do BTG Pactual não era para investidores que buscassem ações depreciadas, pois as units do banco nasciam com preço esticado e o lucro tenderia a ser mais volátil devido “às atividades de banco de investimento, que possuem maior sensibilidade ao PIB”.

Se Esteves foi contrário no antigo Pactual ao investimento em empresas da economia real, mudou de opinião. Embora tenha havido bons investimentos como os hospitais Rede D’Or, cuja participação já foi vendida, e a rede de estacionamentos Estapar, ainda à venda, os fundos do BTG Pactual investiram com recursos próprios e/ou de terceiros em empresas que têm apresentado problemas financeiros sérios como a drogaria BR Pharma, a empresa do setor de petróleo Sete Brasil, a Estre Ambiental e a rede varejista Leader. Outras ainda dão prejuízo como o banco Pan e a incorporadora BR Properties.

Além disso, Esteves e alguns sócios investiram privadamente na Derivados do Brasil (DVBR), que, segundo as delações do doleiro Alberto Youssef e do ex-executivo da Petrobras Nestor Cerveró, “teria pagado propina para fazer negócios com a estatal” BR distribuidora. Sete Brasil e Estre Ambiental também estão envolvidas na operação Lava-Jato.

Após a prisão, Esteves foi destituído das presidências executiva, do Conselho e do controle do BTG Pactual.

As semelhanças entre Esteves e Fernandes são várias. Ambos não vieram de berço de ouro e venceram como banqueiros. A causa da derrocada de Fernandes lembra a de Esteves: o envolvimento em investimentos malsucedidos em companhias da economia real. A dinâmica e a capacidade de gerenciamento dessas empresas são distintas das exigidas por instituições financeiras. Além disso, como disse anteriormente, as atividades dessas empresas são muito mais dependentes do desempenho do PIB. Mesmo Lemann, vitorioso na Ambev e em tantas outras investidas, colecionou fracassos como Telemar (atual Oi), Hopi Hari, supermercados ABC e nas ferroviárias ALL e CSX.

O envolvimento de Fernandes com o governo foi criticado pelos sócios, o que lhe custou a saída do Garantia. Esteves parece também não ter avaliado corretamente o risco de investir em empresas próximas ao governo.

O BTG Pactual não aprendeu com a sua própria história.”

2 thoughts on “Vingança da Formiga sobre o Elefante

  1. Muito interessante o artigo De Elefante à Formiga, em especial a lição de que precisamos, sempre, procurar aprender com nossos erros. Mais isso implica em sabedoria, num equilíbrio entre humildade e audácia-ambição.

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