Literatura da Crise

Crunch Lit

Andrew Hill (FT, 01/12/15) resenha o livro “Crunch Lit” de autoria de Katy Shaw (208 págs., US$ 29,95; Bloomsbury).

Escritores de ficção podem, às vezes, nos ajudar a compreender melhor o mundo das finanças do que os jornalistas? Teria sido melhor prestar atenção aos romancistas, em vez de aos economistas, nos primeiros sinais de alerta da crise financeira de 2007-08? Pode a onda de livros, filmes e peças sobre a crise do crédito mudar nossa atitude em relação às finanças?

Em “Crunch Lit“(“Literatura da Crise” em tradução livre), resultado de sua pesquisa sobre os “escritos da recessão” daquele período, Katy Shaw sugere que a resposta é “sim” para as três perguntas. Mas ela está certa apenas em relação à primeira.A autora, professora universitária de Literatura Contemporânea, descreve “crunch lit” como um “gênero possibilitador”. A ficção, ela escreve, encoraja os leitores a “compreender os princípios, ainda que não os detalhes mais complexos” de toda a superestrutura rebuscada das finanças modernas. Isso é verdade. John Lanchester – frequentemente citado em “Crunch Lit” – vem tentando, mais do que muitos, decifrar as complexidades das altas finanças: com artigos elegantes, um interessante livro de não ficção sobre as crises (“Whoops!“), um razoável romance satírico, “Capital“, até seu mais recente glossário de termos financeiros, “How to Speak Money”.

Mas acredito que “Capital” vai oferecer aos futuros leitores a melhor percepção sobre as crises no Reino Unido, assim como mais de nós descobrimos agora as maquinações das finanças vitorianas com a leitura deThe Way We Live Now“, de [Anthony] Trollope, ouLittle Dorrit” de [Charles] Dickens, do que desenterrando artigos bombásticos de jornais do século XIX.

Mas se os romancistas escrevem o que há de mais interessante sobre a história financeira imediata, dificilmente eles são videntes, conforme sugere Katy Shaw às vezes. Muitos escritores de ficção identificaram a crescente alavancagem financeira das economias dos Estados Unidos e do Reino Unido antes da crise.

Mas assim também fizeram vários comentaristas de não ficção – e nos mesmos termos amplos. Adam Haslett concluiu seu excelente romance “Union Atlantic“, sobre um banqueiro amoral, na semana do colapso do Lehman Brothers em 2008. Mas, mesmo que tivesse sido publicado antes, o livro não teria alertado o mundo para os perigos representados pelos bancos considerados “grandes demais para quebrar”.

O ponto é que ninguém percebeu a aproximação da crise. [FNC: ?!!!] Os fatalistas foram ignorados por aqueles que estavam envolvidos, que haviam decidido que, enquanto a música não parasse, eles precisavam continuar dançando, parafraseando o então executivo-chefe do Citigroup, Chuck Prince (ou “Price“, conforme é chamado por Katy Shaw em um de uma série de pequenos e irritantes erros).

A biblioteca de Shaw é bem limitada. Como lista de leitura de tesouros ocultos do gênero, o livro é desapontador. Uma defesa óbvia, porém, é que “Crunch Lit” – parte de uma série da Bloomsbury Academics sobre novos gêneros do século XXI – é apenas um esboço inicial de história literária. Haverá novos e melhores livros, peças e filmes para se analisar mais adiante.

Por exemplo, o colapso da economia da Irlanda já alimentou a indignação de um grupo de interessantes autores irlandeses, que escreveram sobre as tragédias sociais e familiares que provocou. Seus livros parecem ter chegado tarde demais para a monografia de Shaw. Essa ficção vai certamente “contestar os discursos hegemônicos predominantes” – afirma Shaw, sem entusiasmo -, mas é improvável que isso venha a mudar nosso comportamento.

Crunch Lit” começa com a ideia de que, antes de 2007, a atividade bancária era em si mesma “uma forma de ficção, um mito digno de grande confiança”, e isso foi destruído pela crise.

Mesmo assim, a ficção não é tão poderosa quanto Shaw imagina, quando confrontada com as narrativas do próprio setor bancário. Em 2012, o Citigroup começou a veicular um pomposo comercial de TV em comemoração ao seu bicentenário. Como era de se esperar, não fez nenhuma referência ao socorro financeiro recebido do governo americano pouco tempo antes. Isso é um lembrete deprimente de como as instituições financeiras estão sempre criando novos mitos, tentando suprimir histórias e encorajando os clientes a deixar de lado sua descrença – mais uma vez.

 

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