Especulação a respeito de Especular com o Dólar

CDI X Dólar

Luiz Sérgio Guimarães (Valor, 28/12/15) especula a respeito da especulação com o dólar.

Vale a pena investimento em risco cambial (dólar) quando há o custo de oportunidade de investir em pós-fixados com taxa de juro real?

Depois da disparada do ano de 2015, investidores duvidam da capacidade da moeda americana em repetir a dose em 2016. O dólar subiu mais de 50% no ano passado. Mas, para muitos analistas, a moeda americana não pode ficar de fora das carteiras, pois os cenários interno e externo estão sobrecarregados de presságios assustadores.

Os especuladores utilizam-se do viés heurístico da representatividade“sempre a última manchete tem peso maior na avaliação emocional” — para assustar os incautos… E ganhar com isso!

Por exemplo, dizem que “a troca de comando no Ministério da Fazenda introduziu mais um elemento de incerteza. O mercado de câmbio parece não confiar nas boas intenções do ministro, por conta da pressão para adotar medidas antirrecessivas.”

O dólar deve seguir se valorizando diante do real, embora os analistas descartem uma guinada à esquerda da política econômica. E daí?! Não percebem que isso seria positivo para a economia de mercado, pois aumentaria a economia de escala com a inclusão social dos “párias” brasileiros?!

“Não há dinheiro para promover uma política anticíclica mais desenvolvimentista.” Este é o diagnóstico liminar dos representantes da casta dos mercadores.Mas pode não ser uma tarefa muito fácil bater o CDI no ano que vem. Se os investidores olharem apenas para as projeções para o câmbio do Boletim Focus do Banco Central, os investidores concluirão que a onda do dólar perdeu vigor. As cinco casas que mais acertam previsões cambiais – as Top 5 do Focus – colocam o dólar em R$ 4,35 no fim de 2016, uma alta de 11,54% sobre os R$ 3,90 estimados para o próximo dia 30. Pela mediana geral das cem instituições do Focus – de R$ 4,20 em dezembro de 2016 -, a valorização da moeda seria de 7,7%, muito próxima da inflação esperada, de 6,8%.

Mas mesmo os 11,54% parecem insuficientes diante da remuneração nominal prometida pela renda fixa. A taxa do CDI para 360 dias tem beirado os 16%. E, na cabeça-oca do investidor, o mínimo que uma aplicação decente deve pagar é o CDI.

Se serve de consolo para quem não aplicou em ativos dolarizados no ano de 2015, o fato é que poucos, entre os investidores pessoa física, aproveitaram a arrancada. Os fundos cambiais renderam 47,86% de janeiro a novembro, mas o seu patrimônio líquido é de apenas R$ 6,4 bilhões, irrisório diante do R$ 1,4 trilhão aplicado em renda fixa, segundo dados da Anbima. A razão é que o investidor tem medo de correr o risco cambial pleno.

A frenética volatilidade assusta, mas há ativos como os fundos multimercados de investimento no exterior e os Certificados de Operações Estruturadas (COEs), que, se não refletem fielmente o sobe e desce do dólar, são opções para proteger o patrimônio e, eventualmente, lucrar com a crise. São um incentivo para a fuga de capitais!

Mesmo partindo de um platô já elevado, o dólar tem condições no ano que vem de bater o CDI no acumulado de 12 meses. Pode haver meses em que o dólar perderá do CDI, pois costumar ficar parado após movimentos abruptos de mudança de patamar. Mas, no acumulado do ano, não parece ser difícil superar o juro, em um mercado de pequena dimensão, sujeito à volatilidade por causa de qualquer entrada e saída de capital.

Os idolatras do livre-mercado vestem a carapuça golpista e chegam a dizer que “não o fará se, no caso de vitória das forças políticas em prol do impeachment, acontecer uma mudança política efetiva pró-ajustamento fiscal”. É incrível a que ponto chega a estupidez humana… Os “2 neurônio” só conseguem pensar nisso: ajuste fiscal para garantir a solvabilidade do Tesouro Nacional quanto aos títulos de dívida pública. Como isto estivesse sob risco…

O risco de um overshooting” cambial capaz de catapultar a moeda para R$ 5,00 não pode ser descartado, na visão dos mercadores. “O câmbio, pela multiplicidade de fatores que formam seu preço, nunca está em equilíbrio. Ou está abaixo ou acima do valor de equilíbrio. E pode, em uma agudização da crise, ficar bem acima”. O movimento seria desencadeado por uma saída mais intensa de capital estrangeiro.

Cerca de 20% dos US$ 100 bilhões de investidores externos que estão alocados em títulos da dívida pública pertencem a instituições que, por estatuto, não podem aplicar em países considerados de grau especulativo por duas agências de rating. Estes US$ 20 bilhões já saíram ou estão em vias de ir embora. O problema maior virá do comportamento dos US$ 80 bilhões restantes. Tomarão a decisão de ficar aqui ou arrumar as malas dependendo de uma série de fatores, como a política monetária americana, o crescimento chinês e as decisões do novo ministro da Fazenda. Tudo isso refere-se a factoides para criar manchetes passageiras.

O investidor que não pode abrir mão de posições em dólar na carteira é o importador ou o endividado em moeda estrangeira. Mas o percentual deve ser menor que a alocação feita este ano, uma vez que a corrida começa com a moeda perto de R$ 4,00, e não R$ 2,6620 (cotação de venda do dólar comercial no dia 30 de dezembro de 2014).

Para o investidor que tem dívidas ou compromissos em moeda estrangeira ou quer proteger seu patrimônio em dólar, o hedge passivo fornecido pelos fundos cambiais é o mais indicado. Ele precisa escolher um cambial com grande aderência à oscilação do dólar e uma taxa de administração baixa.

Fundos multimercados com exposição ao dólar e de investimento no exterior merecem uma avaliação mais acurada. Como estarão em jogo dois tipos de risco, o do ativo estrangeiro e o do câmbio, o investidor precisa conhecer o gestor, seus cenários e estratégias.

Derivativos de câmbio – dólar futuro, cupom cambial e opções -, por seu elevado risco, só são alternativas aos investidores sofisticados, sobretudo institucionais.

Embora a tendência primária seja de permanência em 2016 de um ciclo de alta forte para o dólar, alguns especuladores recomendam aplicações em ativos flexíveis, como os multimercados. No ano de 2015, até novembro, os fundos macro renderam 20,85%, segundo a Anbima, ante 11,94% do CDI.

Nessas carteiras, os gestores têm mandato para promover rápidas guinadas de posição se ocorrerem alterações súbitas de cenário. Se o investidor faz uma aposta seca em um fundo cambial e há de repente uma distensão política — e comportamento de manada irracional –, a possibilidade de perda poderá ser grande. E a conjuntura, seja interna ou externa, não é propícia a apostas definitivas em nenhuma direção.

“No cenário mais factível, elaborado emocionalmente por especuladores, a presidente Dilma Rousseff, vitoriosa na batalha do impeachment, conseguirá costurar nova coalização de forças políticas capaz de lhe garantir a governabilidade. Mas mesmo nesta hipótese, será difícil encontrar atmosfera favorável para discussão e votação de reformas constitucionais que garantam solidez de longo prazo ao ajuste fiscal, o que impregna um grau maior de volatilidade à moeda”. Só enxergam essa meta única, pouco se importando com o aumento do desemprego…

Qual é o raciocínio padrão, adotado para assustar incautos?

“Externamente, devem vigorar pressões globais de valorização do dólar. A aceleração da economia americana impõe um viés natural de apreciação da moeda, enquanto perdura a tendência de restrição global ao crédito. Já sacrificados pelo declínio das commodities, os emergentes terão de pagar mais caro para renovar os seus empréstimos.”

“O quadro será complicado para os emergentes mesmo se o Federal Reserve (Fed) não fugir, em 2016, do script de promoção de um aperto monetário muito suave e não linear. Mas se a inflação americana indicar a necessidade de subida da taxa básica em todas as reuniões do ano, o que suscitaria uma realocação global de portfólios, o teatro de guerra estaria montado, sem poupar ninguém, atingindo até as economias emergentes mais estabilizadas. As desestruturadas, como a brasileira, seriam as mais abaladas”.

Tanta estupidez e má-fé dos especuladores… Se você duvida se é má-fé ou se é só ignorância, pode ter certeza, geralmente, as duas se somam.

PS:

COE

Diante das incertezas sobre o comportamento do dólar, os Certificados de Operações Estruturadas (COEs) surgem como opção para apostar na alta do dólar face à moeda nacional sem correr o risco de perder o principal caso a moeda seja apreciada.

Visíveis há apenas dois anos na galeria de ativos de grandes bancos frequentada exclusivamente por investidores de altíssima renda, eles entram agora em uma fase um pouco menos elitizada. Desde outubro, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) passou a permitir a oferta pública desses produtos, para o público do varejo.

O COE é muito similar a um fundo de capital protegido, mas com maior eficiência de custos. São estruturas que buscam traduzir em ganhos perspectivas de curto prazo para o mercado, por meio de derivativos reunidos em único papel, emitido por um banco. É possível criar estruturas com ou sem proteção do capital. O Santander largou na frente e já oferece aos clientes Select certificados a partir de R$ 15 mil.

Mesmo restrito à elite dos investidores, o crescimento dos COEs foi impressionante este ano. O estoque desses papéis, segundo dados da Cetip, pulou de R$ 3,9 bilhões no começo do ano para R$ 7,5 bilhões em novembro, um salto superior a 92%. A tendência é que caia nas graças dos investidores de varejo especuladores.

Aponta-se pelo menos três vantagens dos COEs:

  1. flexibilidade operacional,
  2. acesso mais fácil a mercados sofisticados e
  3. proteção do capital principal aplicado.

São instrumentos de risco que travam operações em múltiplos segmentos, como dólar, ações, índices futuros, derivativos e commodities. Se o investidor especulador acredita que o dólar possa dar uma nova arrancada em 2016, monta com o gestor operação que assegura a maior parte da alta. Se, ao contrário, a moeda cair, pelo menos não perderá o capital aplicado. Cerca 98% do total do estoque de COEs refere-se a aplicações de capital protegido.

A maior parte das operações têm prazo superior a dois anos, o que denuncia a prevalência de estratégias de longo prazo destinadas a ganhar prêmios além da variação do IPCA. Mas há COEs, sobretudo os cambiais, com prazo entre 90 e 180 dias.

O resgate antecipado, antes do vencimento programado, não é simples. Como o gestor terá de desmontar a operação, a garantia de proteção do principal pode não ser atendida.

O COE sofre a mesma tabela de imposto de renda incidente sobre os ativos de renda fixa e o investimento não é coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Por isso, é importante avaliar o risco de crédito associado ao emissor do papel.

Para perfis moderados, deve haver, no máximo, destinação de 5% da carteira aos COEs, cambiais ou não. Com esse produto, o investidor não assume uma exposição direta ao câmbio, mas pode alavancar uma rentabilidade bem superior ao CDI. Se errar em sua aposta de amador, perderá muito com o custo de oportunidade durante um prazo médio que só terá irritação e sofrimento psicológico

Do estoque total registrado em novembro na Cetip, cerca de R$ 7,5 bilhões, a maior participação é de COEs atrelados a índices de inflação, com 43,73%. Os cambiais vêm depois, com uma fatia de 22,57%, seguidos pelos atrelados a índices de ações internacionais e nacionais, com 12,61% e 10,18%, respectivamente.

Investir não é como jogar em um cassino de modo especulativo. É buscar proteger com juro real a renda do capital que custa muito a acumular via sobra da renda do trabalho. Quando se sabe “quanto lhe custa ganhar dinheiro”, não se arrisca a perdê-lo facilmente em risco, sabendo que há aplicações pós-fixadas com alta taxa de juro real.

3 thoughts on “Especulação a respeito de Especular com o Dólar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s