China: Crescimento Sustentado pelo Consumo e Investimento Domésticos

Crescimento chinês

Está caindo o mito de que o crescimento chinês, economia de grande mercado interno como os demais países emergentes, é orientado para as exportações. Isto embora a economia chinesa seja a maior exportadora mundial.

Sérgio Lamucci (Valor, 23/11/15) informa que as exportações chinesas têm perdido fôlego nos últimos anos, em um quadro de valorização significativa do yuan, mas a desaceleração da China não parece se dever ao impacto da moeda mais forte sobre as vendas externas do país. O investimento e o consumo explicam muito mais o comportamento da economia chinesa do que o setor externo, segundo estudo da economista Paulina Restrepo-Echavarria, do Federal Reserve de St. Louis.

“A evidência sugere que a apreciação do yuan não é a culpada pela desaceleração da China“, diz Paulina. Uma decomposição do PIB chinês feita pelo Barclays mostra de fato que a contribuição do setor externo para o crescimento tem sido pequena, indicando não ser o principal motivo para a expansão mais lenta do país asiático.Em 2014, a China cresceu 7,3%. O investimento foi responsável por 3,4 pontos percentuais dessa taxa e o consumo total (o privado e o do governo), por 3,8 pontos. As chamadas exportações líquidas (a diferença entre vendas e compras externas) entraram com apenas 0,1 ponto.

Para 2015, o Barclays espera um avanço da economia de 6,8%, com o consumo explicando 3,4 pontos percentuais, o investimento, 3 pontos e o setor externo, 0,4 ponto — as importações têm caído mais do que as exportações, em um cenário de atividade econômica mais fraca. Em outubro, as vendas externas recuaram 6,9% em relação ao mesmo mês do ano passado, enquanto as compras do exterior encolheram 18,8%.

A China passa por uma transição delicada do modelo de crescimento, com o objetivo de dar mais ênfase ao consumo privado e menos ao investimento e às exportações. Os analistas consideram o movimento saudável e necessário, mas alertam que ele implica uma desaceleração da economia. As taxas de crescimento próximas ou superiores a dois dígitos, observadas em boa parte da década passada, ficaram para trás.

Nos últimos anos, a China também tem vivenciado o fortalecimento de sua moeda. Esse processo levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) a dizer, em meados do ano de 2015, que a divisa não estava mais desvalorizada. Mesmo depois da avaliação do FMI, há quem considere que a moeda chinesa segue depreciada em excesso, como o Tesouro americano. Muitos países viam – e ainda veem – o yuan como artificialmente depreciado, o que incentivaria exportações e desestimularia importações.

Os números, porém, apontam uma valorização expressiva nos últimos anos. Segundo o FMI, a taxa real de câmbio efetiva se fortaleceu a uma média de 5% ao ano entre 2006 e 2014. Em maio deste ano, essa medida estava 11% mais forte em relação à média do ano passado, apontou o Fundo. A taxa real efetivaajustada pela inflação, ponderada pelo peso dos principais parceiros comerciais do país. No estudo, publicado em 19 de outubro de 2015, Paulina diz que desde 2010 o yuan se apreciou cerca de 10% em comparação com o dólar.

Em agosto de 2015, as autoridades chinesas promoveram uma desvalorização de 2% do câmbio, mudando a forma de fixação da cotação da divisa, que passaria a ser mais determinada pelas forças de mercado. Depois, o yuan perdeu um pouco mais de valor, mas a avaliação da maior parte dos analistas é de que não haverá uma depreciação maciça da moeda, até porque a depreciação desde agosto de 2015 foi pequena.

O principal objetivo da medida seria de fato ter uma moeda mais definida pelo mercado, um passo necessário para ela integrar a cesta dos Direitos Especiais de Saque (DES), a divisa do FMI, hoje composta pelo dólar, o euro, o iene e a libra esterlina. O Fundo deverá bater o martelo pela inclusão do yuan na cesta no fim do mês, o que dará a ele o status de moeda de reserva internacional.

O yuan mais forte não é o responsável pela perda de fôlego da China. Além de a contribuição do setor externo para o crescimento ser pequena, não mostra um declínio sistemático ao longo dos anos. Os números mostram que o investimento e o consumo têm muito mais importância para determinar a taxa de expansão do PIB.

Mas há quem veja a valorização do yuan como responsável pela desaceleração da economia chinesa. Em artigo recente, o economista Jeffrey Sachs, da Universidade Columbia, diz que o país asiático comete o mesmo erro do Japão nos anos 1980, quando deixou a moeda se apreciar, devido às pressões e ameaças de retaliação comercial dos EUA. Sachs ressalta a perda de fôlego das exportações chinesas nos últimos anos, atribuindo-a ao yuan mais forte.

Para ele, persistir nessa estratégia será um erro, que pode custar à China anos de baixo crescimento, como ocorreu com o Japão. A posição de Sachs, porém, não é majoritária. Muitos analistas veem como natural o fortalecimento do yuan ocorrido até aqui.

Daqui para frente, a moeda também não deverá mais andar apenas em uma direção, como ocorreu em grande parte da última década, especialmente num quadro em que as forças de mercado terão maior peso para determinar a cotação da divisa.

As exportações mais fracas tendem a induzir a alguma desvalorização do yuan, mas não exagerada. Já a inclusão na cesta do FMI pode aumentar em alguma medida a demanda pela moeda chinesa, mas os economistas não esperam nada drástico.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s