História contada por Novodesenvolvimentista

INPC baixa renda 2005-2015Resultado Primário jan-nov 2015Previsão Dívida BrutaMercado Paulistano de UH novas 2004-2015FBCF 2010-2015

Balanço Comercial do Agronegócio 2014-15Paulo Gala é estrategista e diretor de renda fixa e multimercados da FAR ­ Fator Administração de Recursos. É também Doutor em Economia pela FGV-EAESP e Professor da FGV-EESP. Compartilho o artigo dele, para comparar sua análise da história econômica brasileira recente, realizada com uma abordagem novodesenvolvimentista (e estruturalista), com a abordagem neoliberal do Cristiano Romero, apresentada no post anterior. Ambos publicaram suas colunas no mesmo dia (Valor, 06/01/16), o que demonstra um louvável pluralismo de opiniões publicadas no jornal, ainda que predomine nele, amplamente, colunistas neoliberais.

“A conta corrente brasileira está se ajustando rapidamente e a pergunta que fica é: nosso câmbio já atingiu o equilíbrio? Há novas desvalorizações à vista?

Nos últimos dez anos, a economia brasileira se especializou em produzir commodities, bens agrícolas, serviços não sofisticados e prédios. Quais foram os negócios que mais prosperaram no país na última década? Shopping centers, prédios comerciais e residenciais, lojas de varejo de todo tipo (como cabeleireiros, restaurantes, vestuário, concessionárias de automóveis etc.), grandes obras de infraestrutura, petróleo, etanol, café e minério de ferro.

Esses negócios progrediram graças ao boom de crédito, redução do desemprego, transferências de renda pelo Estado e elevados preços de commodities em dólar no mercado mundial, por conta da descomunal expansão da economia chinesa.

Uma das principais consequências desse movimento foi a apreciação cambial real e nominal no Brasil. A taxa de câmbio nominal saiu de R$ 4 no início do governo Lula para R$ 1,50 antes da crise de 2008. O preço dos serviços domésticos aumentou fortemente, contribuindo para a apreciação do câmbio real.

Essa combinação de alta de preços de serviços, alta de preços de commodities em dólares e apreciação cambial aumentou muito a rentabilidade das atividades de importação em geral, serviços, varejo, construção civil e a própria produção de commodities. Enquanto isso, a produção doméstica de manufaturas e bens industriais perdeu muita rentabilidade e regrediu.

Até 2007, a indústria brasileira conseguiu acompanhar o boom de demanda aumentando a produção, ainda na esteira da desvalorização cambial de 2002. A partir da crise de 2008, nossa indústria sucumbiu à concorrência internacional, aos aumentos de custo de produção em reais (principalmente salários) e à forte apreciação do câmbio nominal e real.

A expansão de PIB observada no pós-2008 foi toda baseada em serviços não sofisticados e construção civil (quadro típico de doença holandesa). A demanda por bens industriais foi totalmente suprida por importações. E, sem estímulos para produzir domesticamente, o empresário industrial brasileiro passou a ser importador, montador ou, simplesmente, encerrou seu negócio. Houve enorme perda de complexidade produtiva da economia brasileira.

A produtividade total da economia caiu e vai continuar caindo. Até mesmo serviços sofisticados, como bancos, marketing, design, logística e advocacia, começaram a regredir por conta da dependência que têm em relação ao setor industrial complexo.

O quadro para o futuro é alarmante, pois graças ao que se conhece como histerese (em Física e Economia), a reconstrução do tecido produtivo brasileiro será lenta e dolorosa. A desvalorização cambial não produzirá imediatamente a reconstrução do setor de bens transacionáveis não-commodity brasileiro. Ou seja, o que o câmbio apreciado destruiu em cinco anos não será reconstruído com desvalorização cambial nos próximos cinco.

Como bem ressalta o economista argentino Roberto Frenkel em um trabalho recente, “aquele que se queima com leite vê uma vaca e chora”. Será muito difícil convencer os empresários brasileiros a voltarem a investir no setor de bens transacionáveis não-commodities depois de uma década de sobrevalorização cambial. E, sem investimentos, não haverá aumento de produtividade e complexidade e nossa renda per capita mal conseguirá crescer – se é que vai crescer nos próximos anos. O ajuste de preços relativos entre bens e serviços transacionáveis e não-transacionáveis levará tempo para produzir seus efeitos.

Nesse contexto, o ajuste de contas externas continuará pela via da desvalorização cambial e da recessão. Nossa conta corrente está passando por uma melhora significativa, mas o ajuste se faz, principalmente, pela via da enorme retração da demanda doméstica neste ano e no próximo. Esse movimento provoca grande queda das importações e reequilibra a balança comercial e as contas correntes. Estruturalmente, não existe ainda uma mudança.

Se a economia voltar a crescer, as contas externas voltarão a ser pressionadas até que a estrutura produtiva brasileira seja capaz de reagir com “substituição de importações”. Para isso, um câmbio mais competitivo continuará sendo necessário nos próximos anos.

O canal de financiamento externo se agravou por conta da dinâmica fiscal. Sem volta do crescimento não haverá arrecadação, o que complica muito o restabelecimento de uma dinâmica de dívida pública sustentável.

O ajuste fiscal pela via do corte de gastos e criação de novos impostos é importante, mas não resolve a questão. Somente o retorno de taxas de crescimento mais elevadas trará tranquilidade fiscal no longo prazo. Até lá, o risco país e os CDS continuarão pressionados, as taxas de juros curtas e longas também e o câmbio depreciado seguirá pressionando a inflação.”

2 thoughts on “História contada por Novodesenvolvimentista

  1. Para promover a substituição de importações será necessário voltarmos à política de o governo dar incentivos fiscais para a produção de bens por setores industriais capazes de concorrer no mercado interno com os dos concorrentes externos, elevando pari passu as alíquotas aduaneiras necessárias. Entretanto isto talvez nao seja possível face a acordos internacionais vigentes.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s