O Processo de Formação de Preços na Economia Brasileira

Frequência de mudançs de preçosFatores para decisões de preços

Este boxe, publicado no Relatório da Inflação de dezembro de 2015, apresenta alguns resultados do artigo “Price-Setting Behavior in Brazil: Survey Evidence” de autoria de Arnildo Correa, Myrian Petrassi e Rafael Santos, a ser divulgado na Série Trabalhos para Discussão do Banco Central do Brasil.

A forma como a política monetária afeta a economia real e a inflação depende, pelo menos no curto prazo, das características do processo de ajuste de preços. Em particular, os efeitos macroeconômicos de choques nominais mensurados em modelos frequentemente usados por bancos centrais para análise de política monetária dependem da hipótese de rigidez de preços assumida na modelagem. Por essa razão, a fixação de preços na economia tem sido objeto de estudo de extensa literatura.

Embora a exploração de grandes bases de dados microeconômicos mensurando o comportamento dos preços tenha produzido resultados importantes para a caracterização da rigidez nominal, existem ainda aspectos da decisão de preços que não estão completamente compreendidos.

Vários artigos têm explorado dados qualitativos produzidos por entrevistas com dirigentes de firmas sobre as práticas de reajuste de preços. Essas informações qualitativas complementam os estudos baseados em micro dados e ajudam a compreender a decisão de reajuste por parte das firmas, e, portanto, o processo de formação de preços na economia.

Este boxe tem por objetivo apresentar resultados sobre o processo de formação de preços no Brasil, obtidos por meio de um survey conduzido pelo Banco Central do Brasil. A pesquisa envolveu entrevistas, no período de julho de 2011 a abril de 2012, com dirigentes de 7.002 firmas, localizadas nas cinco regiões geográficas do país, e atuando nos três setores econômicos: 2.424 firmas na indústria, 2.488 no setor de serviços e 2.090 empresas no comércio. A amostra foi construída para ser representativa em nível nacional, em cada um dos setores e em seus principais segmentos.

Na análise dos resultados para o Brasil, seguiu-se a prática internacional, na qual o processo de tomada de decisão de preços é tipicamente dividido em dois estágios.

O primeiro estágio envolve a revisão de preços, que consiste na seguinte avaliação: o preço atual é o melhor preço que a firma poderia escolher, dadas as condições correntes?

O segundo estágio consiste na implementação efetiva da mudança de preço, caso essa seja a conclusão do primeiro estágio, e levando-se em conta eventuais custos associados à mudança de preços.

No caso específico da revisão de preços no Brasil, as respostas das firmas foram separadas em duas categorias:

  1. aquelas que reveem seus preços frequentemente; e
  2. aquelas que reveem seus preços em intervalos fixos de tempo, indicando uma frequência menor.

Para a economia como um todo, as respostas indicam que aproximadamente 50% das firmas reavaliam seus preços frequentemente e 50% reavaliam em intervalos fixos.

Em termos setoriais, há diferenças: reavaliações de preços são menos frequentes no setor de serviços do que no comércio e na indústria – 66% das firmas no setor de serviços reportam que reavaliam seus preços em intervalos fixos, comparados a 39% no comércio e 42% na indústria. Esse resultado é mais evidente em casos como serviços educacionais, cujos preços são reavaliados, em geral, anualmente. Essa heterogeneidade reforça a importância de se monitorar subgrupos da inflação, que efetivamente possuem comportamentos distintos.

As empresas foram também perguntadas sobre a frequência com que mudam os preços de seus produtos. Os dados da Tabela 1 mostram que em torno de 20% das firmas brasileiras mudam seus preços ao menos uma vez por mês, enquanto 42% fazem isso anualmente. Considerando a média da economia, os dados sugerem que há importante rigidez nominal no Brasil, entretanto menor do que em países desenvolvidos.

As firmas mudam seus preços, em média, 3,6 vezes por ano, ou seja, os preços fixados possuem uma duração média de, aproximadamente, 3,3 meses. Esses resultados são compatíveis com a avaliação a partir de dados microeconômicos – Gouvea (2007) reporta duração média entre 2,7 a 3,8 meses, usando micro dados de preços ao consumidor.

Vale ressaltar importantes diferenças setoriais reportadas na Tabela 1. Firmas no setor de serviços mudam preços menos frequentemente que nos outros setores – 65% afirmam que mudam preços uma vez por ano. Já no setor de comércio, 40% das firmas mudam seus preços pelo menos mensalmente.

Algumas características das firmas e dos mercados também parecem afetar a estratégia de formação de preços.

  • Em relação às características das firmas, o tamanho mostrou-se importante. Firmas maiores, quando o tamanho é medido pelo número de empregados, reavaliam seus preços em frequência mais elevada.
  • Do ponto de vista das características dos mercados, o grau de competição importa. Firmas que reportam enfrentar elevada competição mudam preços mais frequentemente.

Outra variável relevante para a decisão de preços por parte das firmas é o custo de coletar e processar informação (denominado aqui, genericamente, de custo de menu). A maioria das empresas (57%) relata que o custo para revisar preços é baixo.

Custo de informação e frequência de mudança de preços

O Gráfico 1 mostra a relação entre o custo de se obter e processar informação e a frequência com que as firmas mudam seus preços. O eixo horizontal mostra o percentual de firmas, em cada subsetor, reportando que o custo de menu é alto. O eixo vertical indica o percentual de firmas mencionando que mudam seus preços ao menos uma vez a cada seis meses.

O Gráfico 1 mostra uma relação inversa entre ajustamento de preços e custo de coletar e processar informação: quanto maior o custo, menor é a frequência com que as firmas reavaliam e mudam seus preços.

A pesquisa também avaliou as estratégias de determinação de preços das firmas e os fatores de decisão de preços. A partir das respostas, pode-se concluir que a estratégia de somar um markup aos custos é bastante importante. De maneira geral, 49% das firmas entrevistadas declararam que, de alguma forma, seguem essa regra.

Outro elemento importante afetando as decisões de preços das firmas são os preços dos concorrentes. No total da amostra, 67% das firmas consideram importante mudar seus preços apenas após saber como o concorrente reajustou; e 66% consideram relevante a informação do número de competidores em seu setor.

Quanto aos principais determinantes das mudanças de preços, as firmas foram perguntadas sobre a importância de cinco fatores:

  1. taxa de câmbio,
  2. salários,
  3. custos de bens intermediários,
  4. inflação, e
  5. taxas de juros.

A Tabela 2 apresenta, para cada determinante, o percentual de firmas que consideram o fator muito importante para suas decisões de preços. Para a economia agregada, os dois fatores com maior importância são os preços dos bens intermediários e a inflação. Em ambos os casos, 50% das firmas indicaram que esses fatores são muito importantes.

Esses resultados reafirmam a hipótese já discutida no parágrafo anterior, de que o custo dos insumos é fator determinante para as decisões de preços das firmas. A importância da inflação, reportada na Tabela 2, está alinhada com o histórico de inflação elevada no Brasil.

Em resumo, os resultados, relevantes do ponto de vista de política monetária, sugerem que, de fato, as decisões de preço parecem ocorrer em dois estágios, como previsto na literatura internacional. Adicionalmente, existe importante rigidez de preços no Brasil, embora, aparentemente, menor do que em economias avançadas. Há também heterogeneidade na rigidez entre os setores e a estratégia de adicionar um markup aos custos parece ser a estratégia dominante de determinação de preços. Finalmente, os custos dos insumos intermediários e a inflação são fatores importantes para a fixação dos preços, assim como o grau de competição enfrentado pelas firmas.

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