China entre O Estado e O Mercado

Mark Magnier (WSJ, 8 de Janeiro de 2016) afirma que os solavancos que os mercados de câmbio e ações da China estão sofrendo são um reflexo do pessimismo que está se consolidando em todos os lados da segunda maior economia do mundo.

Empresas nos centros manufatureiros no sul e no leste do país, que produzem de tudo, de dispositivos eletrônicos a produtos têxteis e móveis, reclamam da falta de pedidos e de pagamentos atrasados. Enquanto isso, os fabricantes de aço, cimento e vidro, motores da indústria pesada chinesa, permanecem sobrecarregados com excesso de capacidade acumulado durante os anos do boom.

Quem exporta confecções para a Europa e Estados Unidos projeta um 2016 sem crescimento sustentado. “Nenhum número mostra um cenário positivo. Será muito conturbado.”

A dura constatação vem golpeando a moeda chinesa e as bolsas do país. Economistas e executivos de empresas da China afirmam que o cenário sombrio se justifica considerando os desafios econômicos futuros e questionam se o governo do país possui as políticas adequadas para enfrentá-los. [Quando há crise, abandonam “as forças de O Mercado” e apelam para “o Estado”, seja como salvação, seja como bode-expiatório.]

Um forte movimento de venda se acelerou nas bolsas depois que o banco central chinês desvalorizou muito o yuan em relação ao dólar com o objetivo de ajudar os exportadores em dificuldades. Mas a desvalorização tem gerado temores entre operadores de que a economia esteja recuando mais rápido que o esperado.

As negociações da bolsa de Xangai foram suspensas após apenas meia hora de pregão depois de o principal índice cair 7%, acionando a interrupção automática. No fim do dia, o regulador do mercado mobiliário suspendeu o mecanismo, conhecido como “circuit break”, que entrou em funcionamento, dizendo que ele estava elevando as perdas.

A enorme economia chinesa, com um PIB de US$ 10 trilhões, está fornecendo, até o momento, uma proteção para o período de instabilidade e ainda apresenta alguns pontos brilhantes. O consumo tem se mantido em alta. A contratação no setor de serviços tem ajudado a equilibrar as perdas de empregos no setor manufatureiro. E a produção industrial mostra sinais de estabilização, embora em um nível baixo, com um aumento dos investimentos em infraestrutura.

Em seu discurso de Ano-Novo na mídia estatal, o presidente Xi Jinping disse que o crescimento econômico da China permanece entre os mais rápidos do mundo e as medidas para reestruturar a economia estão em pleno vapor.

Mas os investidores e as empresas estão perdendo a confiança na capacidade de Pequim de administrar problemas cada vez mais complexos em meio a uma queda na demanda e uma desaceleração do crescimento. A intervenção do governo, que pareceu energizar o crescimento durante anos, agora está gerando preocupações, à medida que suas novas e malsucedidas políticas criam turbulências nos mercados de ações e de câmbio.

“Pessoas que fazem negócios aqui no longo prazo sabem há tempos que o crescimento é muito menor do que o dito pelo governo”, diz um “economista desconfiado”, cuja opinião é simplesmente externada (e extrapolada) pelo WSJ. Ele acredita que o crescimento real esteja em torno de 4%. [E por que acreditar na opinião leviana em vez da informação oficial? A desconfiança não é subjetiva?]

Em mais um teste de credibilidade para o governo, os problemas mais recentes ocorrem logo após a reunião de política econômica anual, em dezembro de 2015, que definiu as políticas para o curto prazo. [O “austericídio” é universal.] O documento comprometeu o governo a:

  1. reduzir os custos para as empresas para dar impulso aos investimentos,
  2. diminuir o excesso de fábricas e dos edifícios residenciais vazios e
  3. baixar os altos níveis de endividamento que derrubaram o crescimento nos últimos quatro anos.

Uma autoridade sênior descreveu as políticas como soluções para o “lado da oferta” e disse que o governo realisticamente espera uma recuperação em forma de “L”, bastante lenta, em vez de uma virada acelerada em forma de “V”. [Mas em L  a economia não cai e permanece em estagnação?]

Algumas empresas estão começando a sucumbir à desaceleração. Várias pequenas empresas, na área de fornecimento de componentes tecnológicos, fecharam suas portas nos últimos meses com o recuo do crescimento econômico e a consolidação industrial, o que dobrou os protestos de trabalhadores.

 

Os economistas alertam que o pequeno impulso visto este ano pode cair no primeiro trimestre, à medida que as fábricas fecham para o feriado do Ano Novo Lunar, em fevereiro, e os governos locais esperam pelas metas econômicas normalmente divulgadas na reunião anual do Parlamento chinês, em março. As vendas no varejo também podem cair este ano se o desemprego subir em uma economia já em desaceleração.

“O principal problema não é a alta dos custos agora. O problema é que há pouca demanda”, diz um proprietário de uma confecção de camisas e calças. “A maioria das empresas que conheço está com o mesmo problema.” [Ora, ora, enquanto isso, o economista diz que é um problema de oferta… Por que lâmina a “tesoura de Marshall” corta primeiro? A da oferta ou a da demanda?]

Por ora, há empresário que não planeja demitir nenhum de seus empregados, mas que também não está pensando em expandir o negócio. Os clientes, diz ele, estão demorando mais para acertar as contas. “Está ficando cada vez mais difícil receber”.

A maioria dos economistas diz que o governo chinês parece relutar em promover a dolorosa, mas necessária, migração de uma economia baseada na indústria tradicional para uma que beneficia o consumo interno e as pequenas empresas, para evitar ficar atado a um período de crescimento baixo e renda estagnada.

Um dos motivos que está atrasando o progresso das reformas é a preocupação de que o fechamento de grandes empresas estatais não rentáveis ​subtrairá dinamismo da economia, aumentando o desemprego e intensificando a agitação social, dizem os economistas descrentes com a panaceia neoliberal de “privatização“. A China indicou que pretende estabelecer este ano uma meta de crescimento econômico médio de 6,5% para os próximos cinco anos. A maioria dos economistas estima que isso vai exigir que o governo deixe as reformas em segundo plano e se concentre em ampliar os gastos estatais.

Tal perspectiva alimenta o pessimismo entre as empresas e os investidores. “Quaisquer que sejam as intenções do governo, as forças de mercado estão causando um impacto indelével no que está acontecendo”, diz economista. “E essas forças colocam mais pressão sobre a necessidade de promover reformas na economia. Por ora, parece haver uma tensão entre os líderes [do PCCh] e O Mercado.”

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