Reformas: Fácil Falar, Difícil Fazer

Reformas, nem aqui, nem na China. Mas é uma palavrinha fácil na boca de economistas neoliberais que sabem poucos vocábulos a mais do que isso: eficiência, eficácia, livre-mercado… Já bastam para ter acesso privilegiado na “grande” mídia brasileira.

Acho hilário o esforço do WSJ no desmanche da China na opinião especializada ocidental. “Já vi este filme antes”, cujo protagonista era o Japão nos anos 80. O “bandido” também tinha olhinhos-puxados…

LINGLING WEI (WSJ, 8 de Novembro de 2015) informa que uma reunião a portas fechadas entre os principais mandarins econômicos da China ficou tensa. O chefe deles, o presidente Xi Jinping, estava insatisfeito de levar a culpa pela crise econômica que se instalara no país em meados do ano, e o trabalho da equipe era achar formas de corrigir o curso.

Membros da comissão de planejamento estatal, presentes na reunião de 22 de setembro, propuseram grandes gastos com aeroportos, estradas e outros projetos de infraestrutura que tinham sido uma arma do governo chinês para acelerar a economia nos últimos anos, de acordo a ata da reunião. Funcionários do ministério das Finanças discordaram, favorecendo um plano para incentivar os consumidores chineses a comprar mais eletrônicos, carros, roupas e outros bens produzidos no país.

Mas a maioria dos presentes concordava em uma coisa: seria difícil prosseguir com planos para liberalizar a economia rigidamente controlada e ainda esperar cumprir a meta de Xi para o crescimento do PIB, de 7% em 2015. Era pouco provável que esses planos conseguissem injetar a dose de dinamismo de que a economia precisa no curto prazo.

As reformas enfrentam enormes obstáculos”, disse um participante na reunião, que contou com autoridades da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, a agência de planejamento, e do Ministério das Finanças, de acordo com a ata, a qual o The Wall Street Journal teve acesso. “É duvidoso que qualquer dividendo da reforma possa ser traduzido em crescimento econômico no futuro próximo.”

Nas semanas seguintes à reunião, a China deu passos para retardar seus planos de relaxar o controle do governo sobre o sistema financeiro, o que se soma ao adiamento de outras reformas em meados do ano. Algumas medidas tiveram o efeito de manter a saúde de algumas indústrias de forma artificial. O banco central chinês, por exemplo, eliminou, em outubro, o teto sobre os juros que remuneram depósitos bancários, numa tentativa de estimular a concorrência entre os bancos e elevar a renda dos poupadores. Mas desistiu de abrir mão completamente do controle sobre os juros na economia, citando temores de que isso encareça o crédito para empresas e consumidores.

Outras medidas buscam impedir que o dinheiro saia do país. Em 30 de outubro de 2015, o banco central e outras agências adiaram planos para criar uma zona de livre comércio em Xangai que possibilitaria aos chineses comprar ativos estrangeiros com mais facilidade e é vista como um laboratório das reformas econômicas.

Muitos planos que o governo vem atrasando são justamente aqueles que economistas e alguns líderes chineses consideram necessários para colocar a segunda maior economia do mundo em uma trajetória de crescimento sustentável nos próximos anos.

“O motivo para querer a abertura [dos mercados] é introduzir uma disciplina de mercado no sistema”, diz Huang Yiping, professor de economia da Universidade Peking e membro do comitê de política monetária do banco central. “Um ritmo muito lento nas reformas seria a consequência dessa postura cautelosa.”

Por trás dessa nova precaução estão os problemas financeiros que vêm se agravando mais que o previsto e desafiando a capacidade do governo de lidar com eles. “O cenário da situação econômica é bastante pessimista”, admitiu uma autoridade do Ministério das Finanças presente na reunião de setembro. “Provavelmente, é pior do que se previa.”

Em meados do ano, os reguladores do mercado financeiro não conseguiram conter uma queda nas bolsas chinesas que eliminou US$ 2 trilhões em valor de mercado em menos de um mês. A desvalorização do yuan que o governo promoveu em seguida minou a confiança dos investidores, que correram para tirar seu dinheiro do país. As bolsas se recuperaram desde então e os reguladores anunciaram, na sexta-feira, que planejam reautorizar as aberturas de capital.

A China se depara, porém, com um ajuste de maior prazo à realidade de suas aflições econômicas, em uma época em que o acelerado crescimento de anos passados perde fôlego e os tradicionais motores do PIB se mostram menos potentes.

Xi já expressou que não está feliz com a forma com que seu governo tem gerenciado a economia. Em julho de 2015, quando as autoridades tentavam frear o colapso das bolsas, a revista “The Economist” o colocou na capa com os braços levantados tentando sustentar o índice em queda. [FNC: insuspeita revista que já colocou o Cristo Redentor como um foguete e como um satélite em parafuso.]

“Não queria estar nessa capa”, disse o presidente em uma reunião com assessores econômicos”, segundo pessoas próximas a ele. “Graças a vocês, cheguei lá.”

O mal-estar econômico põe em risco uma das premissas do Partido Comunista: a China precisa se expandir com dinamismo. Xi havia dito que um crescimento de 7% é necessário para cumprir a meta de duplicar o PIB e a renda per capta entre 2010 e 2020. Mas o mandatário acaba de reduzir suas expectativas para os próximos anos, dizendo que o país deve crescer um mínimo de 6,5% para alcançar seu objetivo. Muitos analistas dizem que a meta continua sendo ambiciosa e que o governo vai precisar acelerar as políticas de estímulo, atrasando as reformas.

A economia chinesa continua crescendo, mas a um ritmo muito mais modesto. A meta de 7% de crescimento, se atingida, já será a menor em 25 anos. Alguns economistas preveem uma expansão em torno de 4% nos próximos anos, bem abaixo do mínimo que o governo considera necessário para gerar empregos. O governo anunciou que as exportações do país caíram pelo quarto mês consecutivo, recuando 6,9% em relação a um ano antes, em termos de dólar.

Os líderes chineses agora veem um monte de riscos no caminho da liberalização [FNC: ?!!!] dizem fontes. O relaxamento dos controles sobre o sistema financeiro, por exemplo, poderia provocar uma fuga de capital justamente quando o país precisa manter o dinheiro em casa para estimular a economia. Além disso, permitir a quebra de empresas pode eliminar empregos no pior momento possível. E dar aos bancos total liberdade para estabelecer juros de depósitos e empréstimos poder encorajar excessos em meio a uma já crescente inadimplência.

Diante desses riscos, o governo chinês está mudando sua ênfase para a “estabilidade”, um termo que virou sinônimo de proceder lentamente com as reformas.

A reunião citada ilustrou a intensa divergência interna sobre a melhor forma de impulsionar o crescimento, com as autoridades da Agência de Planejamento defendendo o estímulo através de mais gastos nos grandes projetos estatais de infraestrutura, e os representantes do Ministério das Finanças defendendo a ampliação da participação dos consumidores na economia.

Alguns sugeriram que as metas de crescimento da China precisam ser repensadas. O governo, disseram eles, deveria reduzir ou até eliminar essas metas e se concentrar em fechar fábricas deficitárias, eliminar dívidas e tomar outras medidas que seriam dolorosas agora, mas que ajudariam a economia no longo prazo, segundo as atas.

“Se o governo reconhecer que a economia pode crescer somente cerca de 6% em vez de 7%, isso seria, na verdade, uma coisa boa”, disse uma autoridade do ministério das Finanças.🙂

FNC: enfim, é tal e qual a imprensa brasileira: jornalistas colocam na boca de “fontes não identificadas” (off record) as besteiras ideológicas que pensam…

2 thoughts on “Reformas: Fácil Falar, Difícil Fazer

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