Planos dos Candidatos à Presidência dos EUA

Estratificação nos EUA

Bob Davis (Valor, 05/01/16) informa que os candidatos à presidência dos Estados Unidos dos partidos Democrata e Republicano dizem que um crescimento econômico mais rápido é crucial para melhorar a vida da classe média americana. Mas eles discordam significativamente sobre como conseguir isso.

No nível mais amplo, os candidatos se dividem por partido, com os republicanos seguindo uma fórmula da época de Ronald Reagan, que presidiu os EUA nos anos 80, e defende que a redução de impostos e a eliminação de brechas fiscais são a resposta. Já os democratas defendem a ampliação de gastos, especialmente em projetos de infraestrutura, além do aumento dos impostos para pessoas de maior renda como forma de ter recursos para projetos como licença-maternidade e programas sociais.

Embora a campanha até agora não tenha abordado política econômica, as diferentes fórmulas para atingir o principal objetivo nacional — crescimento econômico — mostram como a divisão entre os dois partidos permanece profunda, talvez intransponível.

Os candidatos republicanos estão avançando em um conjunto de ideias ousadas – para alguns, radicais – para reformular o sistema fiscal como forma de incentivar gastos e investimentos. Segundo eles, isso colocaria dinheiro em todos os níveis de renda.

Os democratas defendem quase o oposto: que a diferença crescente entre pessoas de renda mais elevada e as demais tem mudado a economia de forma tão profunda que o governo deve direcionar o montante arrecadado com impostos especificamente para os cidadãos de baixa renda. Seu instrumento é um governo que estimula investimentos para a produção de empregos de renda mediana no curto prazo e para melhoria da produtividade do país no longo prazo.

Seja qual for a ideologia política, um mercado de trabalho com alta demanda é fundamental para ajudar os trabalhadores de baixa renda, diz Alan Blinder, economista da Universidade de Princeton que foi consultor do governo Clinton e hoje assessora a atual candidata a presidente Hillary Clinton. Como exemplo, ele cita o governo Bill Clinton no fim dos anos 90, quando a taxa de desemprego caiu para menos de 5% e permaneceu nesse patamar por anos à medida que a renda mediana crescia.

Os republicanos se voltam para o fim dos anos 80, quando a queda do desemprego ajudou a produzir ganhos na renda mediana.

O economista Glenn Hubbard, da Universidade Columbia, consultor do atual candidato republicano Jeb Bush, diz que o governo Obama tem tido um desempenho fraco na recuperação da economia e que o próximo presidente deve impulsionar o crescimento econômico para pelo menos 4% – quase o dobro da taxa atual. De acordo com ele, os cortes nos impostos devem ter um papel central.

“Acho que, ao longo da recuperação, essa que atravessamos, poderíamos ter crescido mais rápido”, disse Hubbard em um painel do centro de estudos Brookings Institution, em dezembro.

Outro candidato republicano, o governador de New Jersey, Chris Christie, também aposta em um crescimento de 4%. O candidato que no momento lidera as pesquisas de intenção de voto, o empresário republicano Donald Trump, diz que 6% é possível.

Alguns economistas acreditam que 4% pode ser o limite, pelo menos por um período significativo, considerado o envelhecimento da população americana e baixa produtividade, fatores importantes para determinar o crescimento.

Seja qual for o cálculo feito, o trabalho médio está sempre em desvantagem. A renda mediana dos domicílios caiu para os níveis de 1997, embora a economia tenha crescido em quase 50% desde então. O percentual da renda que vai para o 1% do topo da pirâmide não era tão desigual desde os anos 20.

Embora o desemprego tenha caído para 5%, nível considerado como de pleno emprego pelos economistas, muitos americanos saíram do mercado de trabalho. A renda semanal subiu apenas 1,6% em 2015, ajustada pela inflação.

Para elevar o crescimento, todos os candidatos republicanos reduziriam a maior taxa de imposto sobre a renda, atualmente em 39,6%, e reduziriam a quantidade de alíquotas de impostos, embora os detalhes variem.

O senador Ted Cruz, do Texas, faria uma das maiores mudanças, consolidando sete faixas em uma única alíquota de 10% e recuperaria parte da receita perdida adotando uma taxa de transferência para pessoas jurídicas de 16%, tipo de imposto sobre valor agregado (IVA). Mas o IVA, em especial, atingiria famílias de baixa renda, dizem os economistas republicanos e democratas, porque elas gastam uma fatia maior da sua renda que os mais ricos.

Ao taxar mais o consumo e menos a renda, argumenta Cruz, ele impulsionaria o investimento. Também eliminaria o imposto sobre a folha de pagamento, que pesa mais para os contribuintes de renda média. “Isso impulsionaria o crescimento” e iria gerar milhões de empregos, disse, em um debate presidencial em novembro.

Robert Stein, ex-autoridade fiscal do Tesouro durante o governo de George Bush, diz que esperava ver mais propostas voltadas para ajudar a classe média, como o plano do senador da Flórida Marco Rubio, que defende um crédito fiscal de US$ 2.500 para famílias com crianças e que enfrentam dificuldades. Vários candidatos republicanos, como Bush e o governador de Ohio, John Kasich, também estão procurando expandir o crédito fiscal sobre a renda, que beneficia os trabalhadores mais necessitados.

Do lado democrata, a economista Christina Romer, que assessora Hillary e cujo trabalho sobre os benefícios dos cortes de impostos é citado de forma favorável pelos republicanos, diz que os cortes de impostos destinados aos mais ricos não contribuem muito para impulsionar a economia.

“Na minha opinião, a melhor política para ajudar as famílias de classe média e fortalecer a economia seria aumentar significativamente os investimentos públicos em infraestrutura, pesquisa básica e educação“, diz Romer, professora da Universidade da Califórnia, Berkeley, e ex-chefe do Conselho de Consultores Econômicos do presidente Barack Obama.

Hillary Clinton e o senador Bernie Sanders, do Estado de Vermont, ressaltam os benefícios dos gastos em infraestrutura. Ambos elevariam impostos para quem tem renda mais elevada como forma de custear programas destinados à classe média, argumentando que esse é o único meio de garantir que os benefícios do crescimento sejam divididos igualmente.

Sanders defende um plano para tornar as universidades estaduais gratuitas, taxando as transações com ações — “a especulação de Wall Street”, como ele chama.

Hillary defende planos para impulsionar a educação da primeira infância e ofereceria licença-maternidade paga ao cobrar impostos dos contribuintes de maior renda, embora não tenha explicado em detalhes como. Ela isentaria famílias com renda inferior a US$ 250 mil por ano – cerca de 96% dos contribuintes americanos – do aumento de impostos.

Outro plano de Hillary ofereceria subsídios fiscais a empresas que oferecem bônus com base na participação dos lucros para os empregados. Os críticos, contudo, dizem que as empresas podem alterar tal sistema ao reclassificar uma parcela do salário como participação nos lucros para terem direito aos subsídios fiscais sem alterar a remuneração total que paga.

Isso é possível, segundo Blinde, o assessor de Hillary, embora ele diga que pesquisas mostram que as empresas com planos de participação nos lucros tendem a ser mais produtivas. Hubbard, assessor de Bush, diz que taxar os ricos pode prejudicar o crescimento ao “elevar taxas de impostos marginais sobre empresas e a renda dos trabalhadores”.

O economista Greg Mankiw, da Universidade Harvard, um ex-chefe do Conselho dos Consultores Econômicos do governo do presidente George Bush, diz que não está claro se qualquer plano faria imediatamente uma grande diferença nas vidas das famílias de classe média.

“Os legisladores não têm muitas medidas políticas que possam usar para mudar a renda antes dos impostos”, diz Mankiw, que no momento não apoia nenhum candidato. Uma das políticas efetivas seria elevar a educação pré-escolar para as famílias de baixa renda, diz ele, mas os resultados “não serão vistos por 20 ou 30 anos”.

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