Uma História dos Povos Árabes

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O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, narra a explosiva situação do Oriente Médio, com os intermináveis conflitos entre israelenses, palestinos e seus vizinhos, a guerra Irã-Iraque, a guerra do Golfo, o fortalecimento do fundamentalismo islâmico. Desde a Segunda Guerra, os árabes estão no centro das questões mais turbulentas de nossa época. No entanto, deles e de sua história sabemos muito pouco. É esta lacuna grave e lamentável que Uma história dos povos árabes vem sanar e meu curso Economia no Cinema, no primeiro semestre letivo de 2016, tentará remediar para os alunos do IE-UNICAMP.

Albert Hourani, durante décadas professor em Oxford, escreveu um livro de leitura obrigatória não apenas para os interessados nas raízes da atual crise internacional, mas para todos aqueles que têm curiosidade por uma cultura de extraordinária riqueza, cuja importância em termos mundiais só tende a aumentar. Reproduzo, editando-a, a Parte I – A Criação de um Mundo (Séculos VII-X) – abaixo.

“No início do século VII, surgiu às margens dos grandes impérios, o Bizantino e o Sassânida, um movimento religioso que dominou a metade ocidental do mundo. Em Meca, cidade da Arábia Ocidental, Maomé começou a convocar homens e mulheres à reforma e à submissão à vontade de Deus, expressa no que ele e seus seguidores aceitavam como mensagens divinas a ele reveladas e mais tarde incorporadas num livro, o Corão.

Em nome da nova religião – o Islã –, exércitos recrutados entre os habitantes da Arábia conquistaram os países vizinhos e fundaram um novo Império, o Califado, que incluiu grande parte do território do Império Bizantino e todo o Sassânida, e estendeu-se da Ásia Central até a Espanha. O centro de poder passou da Arábia para Damasco, na Síria, sob os califas omíadas, e depois para Bagdá, no Iraque, sob os abácidas.

No século X, o Califado desmoronou, e surgiram califados rivais no Egito e na Espanha, mas a unidade social e cultural que se desenvolvera em seu interior continuou. Grande parte da população tornara-se muçulmana (ou seja, seguidores da religião do Islã), embora continuasse havendo comunidades judaicas e cristãs.

A língua árabe difundira-se e tornara-se o veículo de uma cultura que incorporava elementos das tradições dos povos absorvidos no mundo muçulmano, e manifestava-se na literatura e em sistemas de lei, teologia e espiritualidade. Dentro dos diferentes ambientes físicos, as sociedades muçulmanas desenvolveram instituições e formas distintas. As ligações estabelecidas entre países da bacia do Mediterrâneo e do oceano Índico criaram um sistema de comércio único, trazendo mudanças na agricultura e nos ofícios, proporcionando a base para o surgimento de grandes cidades, com uma civilização urbana expressa em edificações de um característico estilo islâmico.

  1. Um Novo Poder em um Velho Mundo: O Mundo Em Que Os Árabes Surgiram

O mundo de Ibn Khaldun devia parecer eterno para a maioria dos que o compunham, mas ele próprio sabia que esse mundo havia substituído um anterior. Setecentos anos antes de seu tempo, os países que ele conhecia tinham tido uma face diferente, sob o domínio das “duas maiores potências da época”.

Durante muitos séculos, os países da bacia do Mediterrâneo tinham feito parte do Império Romano. Uma zona rural colonizada produzia grãos, frutas, vinho e azeite, e o comércio se efetuava ao longo de rotas marítimas pacíficas; nas grandes cidades, uma classe abastada, de origem variada, partilhava da cultura grega e latina do Império.

A partir do quarto século da era cristã, o centro do poder imperial mudara-se para leste. Constantinopla substituíra Roma como a capital; ali, o imperador era o foco da lealdade e o símbolo da coesão.

Mais tarde, surgira o que se chamou de “divisão horizontal“, que iria permanecer, sob outras formas, até o nosso tempo. Na Alemanha, Inglaterra, França, Espanha e norte da Itália, governavam reis bárbaros, embora ainda houvesse um senso de pertinência ao Império Romano. O sul da Itália, a Sicília, o norte da costa africana, o Egito, a Síria, a Anatólia e a Grécia permaneciam sob o governo imperial direto de Constantinopla.

Nessa forma encolhida, o Império era mais grego que romano. (Em suas fases posteriores, é mais comumente chamado de “bizantino” que de romano, segundo o antigo nome de Constantinopla, Bizâncio.) O imperador governava por meio de funcionários de língua grega; as grandes cidades do Mediterrâneo Oriental, Antióquia, na Síria, e Alexandria, no Egito, eram centros de cultura grega, e forneciam membros das elites locais para o serviço imperial.

Outra mudança, mais profunda, ocorrera. O Império tornara-se cristão, não apenas por decreto formal do soberano, mas por conversão em diferentes níveis. A maioria da população era cristã, embora filósofos pagãos ensinassem na escola de Atenas até o século VI, comunidades judaicas vivessem nas cidades, e lembranças de deuses pagãos ainda rondassem os templos transformados em igrejas.

O cristianismo dera uma nova dimensão à lealdade prestada ao imperador e um novo esquema de unidade para as culturas locais de seus súditos. As ideias e as imagens cristãs eram expressas nas línguas literárias das várias regiões do Império, e também no grego das cidades: armênio na Anatólia Oriental, siríaco na Síria, copta no Egito. Os túmulos de santos e outros locais de peregrinação podiam preservar, em forma cristã, as crenças e as práticas imemoriais de cada região.

As instituições politicamente autônomas das cidades gregas haviam desaparecido com a expansão da burocracia imperial, mas os bispos proporcionavam liderança local. Quando o imperador deixou Roma, o bispo da cidade, o papa, pôde exercer sua autoridade de uma maneira que seria impossível para os patriarcas e os bispos das cidades orientais romanas; embora estes estivessem estreitamente ligados ao governo imperial, ainda podiam expressar sentimentos locais e defender interesses locais.

O eremita ou o santo milagreiro, também, vivendo na periferia da cidade ou em regiões colonizadas na Anatólia ou na Síria, podia atuar como árbitro de disputas ou porta-voz da população local, e o monge no deserto egípcio dava exemplo de uma sociedade que diferia da do mundo secular urbano. Além da Igreja Ortodoxa oficial, surgiram outras, que diferiam dela em doutrina e prática, e davam expressão às lealdades e oposições à autoridade central daqueles de outra língua que não o grego.

Só depois, aos poucos, e sobretudo em relação à questão da autoridade, foi que se deu a divisão entre a Igreja nos territórios bizantinos, a Igreja Ortodoxa Oriental, com seus patriarcas como chefes do sacerdócio, e os da Europa Ocidental, que aceitavam a autoridade suprema do papa em Roma.

As principais diferenças doutrinárias referiam-se à natureza de Cristo. O Concílio da Calcedônia, em 451, definira a segunda pessoa da Trindade como tendo duas naturezas, divina e humana. Essa era a formulação aceita pelo corpo principal da Igreja, no Oriente e no Ocidente, e defendida pelo governo imperial.

Algumas comunidades, porém, sustentavam que Cristo tinha uma única natureza, composta de duas. Esta, a doutrina monofisista, era sustentada:

  1. pela Igreja armênia na Anatólia,
  2. pela maioria dos cristãos egípcios (conhecidos como “coptas“, do nome antigo do Egito) e
  3. por muitos dos cristãos nativos, de língua siríaca, da Síria (conhecidos como ortodoxos sírios, ou “jacobitas“, do nome de seu mais destacado teólogo).

Outros faziam uma divisão ainda mais precisa entre as duas naturezas, a fim de manter a total humanidade de Jesus, e achavam que a Palavra de Deus estava no homem Jesus desde sua concepção. Essa era a doutrina daqueles comumente conhecidos como nestorianos, nome derivado do de um pensador identificado com a doutrina. A Igreja deles foi mais importante entre os cristãos do Iraque, além da fronteira oriental do Império Bizantino.

No século vii, surgiu mais um grupo, como resultado de uma tentativa de acordo entre a posição ortodoxa e a monofisista: os monoteletas, que defendiam que Cristo tinha duas naturezas, mas uma só vontade.

A leste do Império Bizantino, do outro lado do rio Eufrates, havia outro grande Império, o dos sassânidas, cujo domínio se estendia sobre o que é hoje o Irã e o Iraque, e entrava pela Ásia Central adentro. A terra hoje chamada de Irã ou Pérsia continha várias regiões de grande cultura, e cidades antigas habitadas por diferentes grupos étnicos, separadas umas das outras por estepes ou desertos, sem grandes rios para oferecer-lhes comunicações fáceis.

De tempos em tempos, tinham sido unidas por dinastias fortes e duradouras; a última fora a dos sassânidas, cujo poder original se assentava nos povos de língua persa do sul do Irã. Era um Estado familiar, governado por intermédio de uma hierarquia de funcionários, que tentou proporcionar uma base sólida de unidade e lealdade, revivendo a antiga religião do Irã, tradicionalmente associada com o mestre Zoroastro. Para essa religião, o universo era um campo de batalha, abaixo do Deus supremo, entre bons e maus espíritos; o bem venceria, mas homens e mulheres de virtude e pureza ritual podiam apressar a vitória.

Depois que Alexandre, o Grande, conquistou o Irã em 334-33 a.C., fazendo com que este estabelecesse ligações mais estreitas com o mundo do Mediterrâneo Oriental, as ideias do mundo grego avançaram para o Oriente, enquanto as de um mestre do Irã, Mani, que tentara incorporar todos os profetas e mestres em um único sistema religioso (conhecido como maniqueísmo), avançaram para o Ocidente.

Sob os sassânidas, a doutrina associada a Zoroastro foi revivida em moldes filosóficos, com mais ênfase no dualismo de bem e mal, e tendo uma classe sacerdotal e um culto formal; ficou conhecida como mazdaísmo ou zoroastrismo. Como Igreja do Estado, o mazdaísmo defendia o poder do soberano, visto como um rei justo, que preservava a harmonia entre as diferentes classes da sociedade.

A capital sassânida não ficava no planalto do Irã, mas em Ctesifonte, na fértil e populosa área do Irã Central, irrigada pelos rios Tigre e Eufrates. Além de zoroastrianos e seguidores de Mani, o Iraque tinha os cristãos da Igreja nestoriana, que eram importantes no serviço público. Essa área era também o principal centro do ensino religioso judaico, e um refúgio para filósofos pagãos e cientistas médicos das cidades gregas do mundo mediterrâneo.

Várias formas da língua persa ali disseminavam-se; a forma escrita usada na época é conhecida como pálavi. Também disseminado estava o aramaico, uma língua semita ligada ao hebraico e ao árabe, e corrente em todo o Oriente Médio na época; uma de suas formas é conhecida como siríaco.

Os dois impérios incluíam as principais regiões de cultura e civilização da metade ocidental do mundo. Porém, mais ao sul, dos dois lados do mar Vermelho, havia duas outras sociedades com tradições de poder e cultura organizados, mantidos pela agricultura e o comércio entre o oceano Índico e o Mediterrâneo.

Uma delas era a Etiópia, um reino antigo, que tinha o cristianismo em sua forma copta como religião oficial. A outra era o Iêmen, no sudoeste da Arábia, uma terra de férteis vales montanheses e ponto de trânsito do comércio de longa distância. A certa altura, seus pequenos estados locais haviam sido incorporados em um reino maior, que enfraquecera quando o comércio declinara no início da era cristã, mas revivera depois.

O Iêmen tinha sua própria língua, diferente do árabe falado em outras partes da Arábia, e sua própria religião: uma multiplicidade de deuses, servidos por sacerdotes em templos que eram locais de peregrinação, oferendas votivas e prece privada (mas não comunal), além de ser também centros de grande riqueza.

Nos séculos seguintes, influências cristãs e judaicas vieram da Síria, pelas rotas comerciais, ou do outro lado do mar, da Etiópia. No século VI, um núcleo de cristianismo fora destruído por um rei atraído para o judaísmo, mas invasões originárias da Etiópia haviam restaurado certa influência cristã; tanto os bizantinos como os sassânidas envolveram-se nesses acontecimentos.

Entre os grandes impérios do norte e os reinos do mar Vermelho, ficavam terras de uma espécie diferente. A maior parte da península Arábica era estepe ou deserto, com oásis isolados contendo água suficiente para cultivo regular. Os habitantes falavam vários dialetos do árabe e seguiam diferentes estilos de vida.

Alguns eram nômades criadores de camelos, carneiros ou cabras, dependendo dos escassos recursos de água do deserto; eram tradicionalmente conhecidos como “beduínos“. Outros eram agricultores estabelecidos, cuidando de suas safras ou palmeiras nos oásis, ou então comerciantes e artesãos em pequenos vilarejos que sediavam feiras. Outros ainda combinavam mais de um meio de vida.

O equilíbrio entre povos nômades e sedentários era precário. Embora fossem uma minoria da população, eram os nômades dos camelos, móveis e armados, que, juntamente com os mercadores das aldeias, dominavam os lavradores e os artesãos. O ethos característico deles – coragem, hospitalidade, lealdade à família e orgulho dos ancestrais – também predominava. Não eram controlados por um poder de coerção estável, mas liderados por chefes que pertenciam a famílias em torno das quais se reuniam grupos de seguidores mais ou menos constantes, manifestando sua coesão e lealdade no idioma da ancestralidade comum: tais grupos são em geral chamados de tribos.

O poder dos chefes tribais era exercido a partir dos oásis, onde mantinham estreitas ligações com os mercadores que organizavam o comércio através do território controlado pela tribo. Nos oásis, porém, outras famílias podiam estabelecer um tipo diferente de poder, pela força da religião.

A religião dos pastores e dos agricultores parece não ter tido uma forma clara. Julgava-se que deuses locais, identificados com objetos no céu, se incorporavam em pedras, árvores e outras coisas naturais; acreditava-se que bons e maus espíritos corriam o mundo em forma de animais; adivinhos afirmavam falar com a língua de um saber sobrenatural.

Sugeriu-se, com base em práticas modernas no sul da Arábia, que eles achavam que os deuses habitavam um santuário, um haram, um lugar ou aldeia separados do conflito tribal, que funcionava como centro de peregrinação, sacrifício, encontro e arbitragem, e era supervisionado por uma família sob a proteção de uma tribo vizinha. Essa família podia obter poder ou influência fazendo hábil uso do prestígio religioso, de seu papel de árbitro em disputas tribais e de suas oportunidades de comércio.

Por todo o Oriente Próximo, muita coisa estava mudando no século VI e início do VII. O império Bizantino e o Sassânida empenhavam-se em longas guerras, que se estenderam, com intervalos, de 540 a 629. Guerras travadas sobretudo na Síria e no Iraque; em uma ocasião, os exércitos sassânidas chegaram até o Mediterrâneo, ocupando as grandes cidades de Antióquia e Alexandria, além da cidade santa de Jerusalém, mas na década de 620 foram repelidos pelo imperador Heráclio I.

Por algum tempo, o domínio sassânida ampliou-se até o sudoeste da Arábia, onde o Reino do Iêmen perdera muito de seu antigo poder devido às invasões da Etiópia e a um declínio da agricultura. As sociedades organizadas governadas pelos impérios fervilhavam de interrogações sobre o sentido da vida e a maneira correta de vivê-la, expressas nos idiomas das grandes religiões.

O poder e a influência dos impérios afetaram partes da península Arábica, e por muitos anos os pastores árabes nômades do norte e do centro da península vinham se mudando para o campo da área hoje chamada de Crescente Fértil. Eram de população em grande parte árabe:

  1. o interior da Síria,
  2. a região a oeste do Eufrates no baixo Iraque e
  3. aquela entre o Eufrates e o Tigre (a Jazira).

Eles trouxeram consigo seu ethos e suas formas de organização social. Alguns de seus chefes tribais exerciam a liderança com base em aldeias nos oásis, e eram usados pelos governos imperiais para manter outros nômades longe das terras ocupadas e para recolher impostos. Puderam, assim, criar unidades políticas mais estáveis, como a dos lakhmidas, com a capital em Hira, em uma região onde os sassânidas não exerciam controle direto, e a dos gassânidas, em uma região semelhante do Império Bizantino.

O povo desses estados adquiriu conhecimento político e militar, e abriu-se a ideias e crenças vindas das terras imperiais; Hira era um centro cristão. Por via desses estados, do Iêmen, e também dos mercadores que trafegavam pelas rotas comerciais, começou a entrar na Arábia um certo conhecimento do mundo externo e de sua cultura, além de alguns colonos de lá procedentes. Eram artesãos judeus, mercadores e cultivadores dos oásis do Hedjaz na Arábia Ocidental, e monges e convertidos cristãos na Arábia Central.

FNC: está entendendo a origem remota dos conflitos no Oriente Médio? Religiões e Impérios. Tal lá (no passado) como cá (no presente). É possível superá-los no futuro?

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