Ô Fim do Cem, Fim…

capa

Voltar a Belo Horizonte, minha terra natal, possibilita-me não só um reencontro com minhas raízes familiares como também um “banho-de-cultura”. É uma cultura mais humanista do que a competitiva paulista. Conheci, com certo atraso, uma Arte naïf (tradução literal: ingênua) — essa ‘arte primitiva moderna’ é a que é produzida por artistas sem formação acadêmica — que, manuscrita e desenhada com canetas Bic, propicia reflexão sobre a razão de ser, ou melhor, sobre o que pode ser a razão.

O documentário O Fim do sem Fim (Direção: Beto Magalhães, Cao Guimarães e Lucas Bambozzi; 2000),  cujo trailer apresento acima, mereceu resenha de um crítico (“O Fim do sem Fim” reúne pessoas em ofícios à beira da inexistência; Armando Antenore – Folha de S.Paulo) em que apresenta a pergunta-chave: “o que, afinal, acontece com as coisas — as pessoas, as iniciativas, os sonhos — que já não têm lugar? Para respondê-la, o trio de cineastas dribla a tentação panfletária (que poderia resultar em pregações sociológicas, por exemplo) e encontra uma saída belíssima. Entre um depoimento e outro, introduz imagens religiosas, “takes” de crianças brincando e o tagarelar de um certo Mestre dos Mestres — sujeito amalucado que dispara frases repletas de termos científicos e acadêmicos, mas inteiramente desconexas.”

Se o crítico se desse ao trabalho (prazeroso) de ler o livro de tal “sujeito amalucado”, não repetiria esse erro de avaliação leviana. Desconexas com a realidade são as ideias restritas à lógica mecanicista newtoniana – tipo cadeia linear de causas-e-efeitos – hegemônica no cânone da ciência ainda iluminada pelo século XVIII. E sobrevivente até hoje em mentes de pessoas que insistem em pensar o mundo real a partir da noção de equilíbrio. Cabe indagar: quem? O que? Onde? Por que meios? Por que? Como? Quando? Cabe questionar: essas pessoas não percebem a composição orgânica do mundo real a partir do relacionismo do século XIX e/ou da relatividade do século XX?!

O que dá a qualidade de erudito é apenas a instrução e o conhecimento adquiridos por meio da leitura escrita em linguagem culta?! Só esta compreende a língua literária?! Só porque esta tem por base a norma culta, forma linguística utilizada (e imposta) pelo segmento influente de uma sociedade?!

A linguagem culta é aquela que está de acordo com as normas gramaticais, sendo então mais próxima da escrita formal. Já a linguagem coloquial é aquela mais próxima da fala, sendo mais informal. O livro Ô fim do cem, fim… (leia as imagens de algumas páginas) apresenta algo diferente: a linguagem escrita mais próxima da fala popular! Uma oralidade-escrita extremamente expressiva da cultura variada do autor!

Paulo Marques de Oliveira apresenta-se como cientista, astrofísico, teólogo e sismografista autodidata. Ele é o autor do livro Ô fim do cem, fim… editado pela Vereda em 2011 e reeditado pela Benvinda Editora em 2014.

Em http://piseagrama.org/o-fim-do-cem-fim/ encontrei uma avaliação mais condizente com a obra-prima originalíssima. Reproduzo abaixo a apresentação de Renata Marquez.

“Dona Eva [esposa do seu Adão] ‘inventou o sistema de cozinhar’, relata Paulo Marques de Oliveira em seu livro interminável. Eva e a cozinha nos parecem, em princípio, duas entidades simbólicas tão díspares que não poderiam estar juntas, mas essa é apenas uma minúscula amostragem da conjunção única de universos que esse resoluto cientista aproxima e faz coincidir em raciocínio. Teologia, vida sertaneja, medicina, astrofísica, botânica, Senado Federal e anéis de plantio compõem em grau de igualdade o olhar complexo que o homem que se diz “resolvido à luz das mais recentes aquisições das ciências em geral” lança sobre os fenômenos do mundo.

Vestindo uma camisa de fundo branco e padronagem geométrica e uma gravata escura, Paulo Marques de Oliveira se apresenta com solenidade performática e profetiza, cientificamente, o fim do sem fim no filme de mesmo nome lançado por Beto Magalhães, Cao Guimarães e Lucas Bambozzi em 2001. Dez anos depois, páginas selecionadas de seus escritos ricamente ilustrados foram reunidas no livro Ô fim do cem, fim…

Inquestionável humanista do sertão, morador de Salinas, Vale do Jequitinhonha, Paulo Marques de Oliveira está próximo da terra e dos seus muitos mistérios. Se a antropologia é um humanismo democrático, como pensou Lévi-Strauss, nos dando a conhecer outros modos de ver e viver, temos com Paulo um lugar fértil para nos desenraizar da ciência tal qual a conhecemos.

O livro, veículo legítimo de distribuição do conhecimento científico, é a mídia escolhida pelo mestre autodenominado também astrofísico, cientista, teólogo e sismografista, sujeito “prefulgenciado e aclarado” que anuncia sem modéstia: “este livro é a luz do mundo” e “quem ler este livro não fica arrependido”. Um livro manuscrito que, nas palavras de seu autor, se quer “livro didático”, “livro útil”, “livro eficaz”.

Ele conta que “uma mulher bordadeira de guardanapo e tapete viu este livro e se interessou em comprar o livro para fazer esse sistema de bordados nos seus artesanatos de tapete e guardanapos… veja só: até para artesanatos o livro é de utilidade…”.

Ciência que guardanapo e tapete podem transformar imediatamente em artesanato, sem nenhum problema de cunho disciplinar, pelo contrário, combinando com o próprio desejo do seu autor de fazer disseminar livre e amplamente as suas explicações. O ato de bordar é para ele uma linguagem tão familiar quanto a sua ciência, pois ele mesmo é um artesão da ciência, autor de uma artesania lexicográfica. O “mestre dos mestres pós-popular”, como ele se descreve em terceira pessoa, é ao mesmo tempo culto e popular, erigindo uma ponte possível sobre o abismo dessa dicotomia tão fora de moda.

Na contramão dos ambientalistas inimigos do “agrotosse”, mas vez por outra ensinando alguns meios de prescindir dele nos diversos cultivos que descreve, o cientista, acreditando ser do Senado Federal a responsabilidade de realizar os plantios de alimentos para os cidadãos, relata:

“Um certo dia fui ao cemitério de Salinas e admirei tanta sepultura. Perguntei ao coveiro: Por que o povo de Salinas morre tanto assim? Ele disse: É de polifagia. Então eu disse a ele: O que é polifagia? Ele disse: Polifagia é a pessoa ter vontade de comer uma fruta, um pedaço de carne, um copo de leite, chupar uma laranja, olhar para uma banana madura, olhar para uma melancia e não chupar. Olhar para um abacaxi e para tudo que alimenta a gente e não ter um níquel para alimentar, significa isso. Fiquei pasmado de ver a resposta porque estamos assim deveras… Chega a apodrecer porque nós não podemos comprar. E assim o povo está enchendo o cemitério de mortos de polifagia.”

1-128_Fim_do_Cem_Fim_Miolo-Ok-76 1-128_Fim_do_Cem_Fim_Miolo-Ok-37 1-128_Fim_do_Cem_Fim_Miolo-Ok-42

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s