Concentração da Riqueza Financeira: Renda do Capital X Renda do Trabalho

Descobri no Jornal GGN uma síntese muito bem elaborada por Luiz de Queiroz e Pedro Garbellini do assunto abordado por mim no 65º Fórum de Debates Brasilianas.org: ‘Dinheiro de Pobre’: Inclusão Social no Sistema Financeiro. No dia do sexto aniversário deste modesto blog pessoal, é o meu presente!

A desigualdade social no Brasil pode ser observada a partir da interação dos cidadãos com o sistema bancário. Terminada a Era Neoliberal, o país entrou em um Período Social-desenvolvimentista no qual o acesso popular a banco e crédito foi tratado como política pública.

Apesar de o país ter um número muito restrito de pessoas concentrando a maior parte dos recursos financeiros, os bancos que se prestaram a atender apenas a essa elite não conseguiram competir com os bancos de varejo massificados. Estes dominam também o segmento de alta renda.

Nos últimos anos, o market share dos bancos estatais cresceu, enquanto que o dos bancos privados diminuiu. Além disso, bancos nacionais compraram estrangeiros, que não enxergaram as oportunidades de negócios com a mobilidade social no Brasil.

Mas não é que a desigualdade social tenha acabado. Pelo contrário, ela ainda está aumentando. A renda do capital continua a crescer mais do que a do trabalho. Só que em um ritmo mais lento do que no passado.

Os bancos estatais tiveram um papel fundamental na inclusão dos cidadãos de baixa renda no sistema financeiro. E também em prover crédito a juros civilizados, em um momento de crise, em que os bancos privados aumentaram taxas e diminuíram prazos.

O acesso popular a banco e a crédito

“É bom considerar o papel que os bancos públicos tiveram em conceder “acesso popular a banco e a crédito”. Quando eu estive na Caixa foi a maior bandeira nossa — e eu acho que foi coroada de êxito, pois esses números confirmam. Em 1999, existiam 75 milhões de clientes. Em junho de 2015, 209 milhões de clientes. Eu defendo a hipótese de que toda a PEA (População Economicamente Ativa) no Brasil já foi bancarizada. Isso é um ponto relevante, que eu acho que é um sucesso tomado por iniciativa de banco público. Com isso, você termina com a divisão entre ‘dinheiro de pobre’ (sem correção monetária) e ‘dinheiro de rico’ (com correção e capitalização). É uma possibilidade de o pobre se defender da inflação”.

A financeirização e a estratificação social do Brasil

0,33% de contas bancárias (DV, CDB, DP, LCI, LCA, etc.) concentram 55% da riqueza financeira. Existem 98 milhões de clientes de poupança. Qual é a média de depósito em poupança? A média é apenas R$ 6.600. Entretanto, isso que é mais impressionante, 85 milhões de pessoas, dá 87,4% dos clientes, têm menos de R$ 500 em depósito de poupança! Ou seja, têm depósito de poupança como este fosse uma conta corrente em que não se paga tarifa… Não têm recursos financeiros, não têm reserva financeira nenhuma. 85 milhões de pessoas. Não têm reserva financeira!

O retrato da casta dominante: a regra dos nove

“Eu me perguntei: quantas pessoas têm curso superior no Brasil? Aí, pesquisei e achei: eram nove milhões e 600 mil pessoas em 2010. É crucial essa primeira divisão. Aí peguei outra fonte de pesquisa — a distribuição de rendimentos da população ocupada: 9% recebem acima de cinco salários mínimos, R$ 4 mil. Peguei outra fonte, a de renda familiar — Classe A e B. Com a mobilidade social que houve, somam 10%. E a última fonte: cerca de nove milhões de pessoas têm PGBL e VGBL. Todas essas fontes diversas apontam a renda e a riqueza financeira concentrada no mesmo pequeno universo de castas! A concentração de riqueza é muito, mas muito maior do que concentração de renda! Isto mostra, perfeitamente, o que é a estratificação social no Brasil.

A renda do capital e do trabalho nas eras neoliberal e social-desenvolvimentista

Continua o aprofundamento da concentração de riqueza. Mesmo em uma época de hegemonia de um partido trabalhista. Mas diminuiu. Na Era Neoliberal, a queda do salário real foi 17%. Na Era Social-desenvolvimentista — que terminou no ano passado [2014], pois voltamos à Era Neoliberal neste ano [2015] — foi “igual e contrário”, pois cresceu 16%. Por isso, os neoliberais estão batendo panela vazia… Por quê? Porque o ganho do capital foi três vezes maior, em termos reais, isto é, em poder aquisitivo, na Era Neoliberal e na Era Social-desenvolvimentista apenas dobrou e somou mais ¼… Só… Embora continue a concentração da renda e da riqueza, foi num ritmo menor”.

A cruzada da Dilma e a atuação anticíclica dos bancos públicos

“Em Junho de 2011, reconheceu-se nova barbeiragem do Banco Central, pois ele operou em excesso, aplicando uma overdose da chamada Macroeconomia Prudencial. A partir de então, a minha ex-aluna tomou a frente e gritou: ‘chega’! Começou a “Cruzada da Dilma” [que os neoliberais condenaram como fosse proibida uma Nova Matriz Macroeconômica, isto porque ganhavam mais juros com o Tripé Macroeconômico ou o Regime Macroprudencial].

Foi quando aprofundou-se a atuação anticíclica dos bancos públicos. Ela durou até a famigerada manifestação de junho de 2013. Aí, a direita perdeu a vergonha e “saiu do armário”, depois de 30 anos escondida por causa do fim da ditadura militar. Viu que tinha espaço político para ela. Em ano pré-eleitoral, o susto do governo com o falso alarmismo econômico e o terrorismo dos black-blocs foi tão grande que ele reverteu tudo subitamente.

Eu acho que o erro não foi a Nova Matriz Macroeconômica, ou seja, a cruzada contra os juros altos. Qualquer um que conhece estatística internacional vê que os juros do Brasil eram (e são) absurdos comparativamente a outros países do mundo. O erro foi ter interrompido, bruscamente, essa política de tendência de queda da taxa de juros. Reversão súbita, geralmente, não dá certo em economia. Levou à ‘marcação-de-mercado” das aplicações prefixadas e à perda de riqueza de quem não passou logo para aplicações pós-fixadas.

Market share, patrimônio e lucro líquido, rentabilidade: a concentração bancária no Brasil

“O market share: durante a crise, os bancos públicos empatam com os bancos privados; e daí, “abre a boca do jacaré”. E o market share hoje dos bancos públicos é 55% e dos bancos privados 30%. E por que isso? Porque no início da crise, todos os bancos privados frearam. E os bancos públicos, que tomam decisão de concessão de crédito não baseados em expectativas do mercado, mas sim em políticas públicas, não ficaram contaminados com as expectativas pessimistas, cresceram o crédito 55% no início da crise. Então, ganharam market share”.

Eu digo para os meus alunos que a concentração bancária no país ocorre para facilitar o meu trabalho de pesquisador!🙂 Basta eu analisar os BBICS [Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Caixa e Santander], que representavam, em 2009, 82%. Em 2014, 86%. Aumentaram a participação deles, ou seja, o market share nas operações de crédito. Em patrimônio líquido, ou seja, capitalização, esse ‘universo’ continua o mesmo: 76%. Lucro líquido, os BBICS tinham 81%, passaram a ter 85%. Os bancos nacionais privados antes tinham 41%, depois subiram para 55%, ou seja, no caso de lucro, não tem razão nenhuma para reclamar. Os lucros continuam crescendo muito bem, obrigado…🙂 A rentabilidade patrimonial dos bancos privados continua boa, da maneira que sempre esteve”.

Rentabilidade e índice de eficiência na tentativa de civilizar os juros

“Qualquer pessoa sensata, independentemente da linha de pensamento econômico, desde que não seja apenas ideológico, percebe que os juros no Brasil precisavam ser diminuídos. Efeito dessa política de diminuir a taxa de juros: a relação entre despesas e receitas dos bancos cai. O índice de eficiência, se você compara os dois períodos, piorou em todos os bancos. Os bancos estrangeiros foram os que mais pioraram a eficiência, particularmente do HSBC, que teve prejuízo. Os bancos privados nacionais pioraram 30 pontos de eficiência. E os bancos pioraram menos: 12 pontos. E a Caixa? Ficou praticamente no mesmo patamar. Quem piorou mesmo em eficiência foi o Banco do Brasil. Qual é a dedução disso? É que o banco mais atuante, que ganhou mais market share, mais economia de escala, que competiu mais, forçando a queda da taxa de juros, cumprindo a política pública denominada “Cruzada da Dilma”, obteve melhores resultados”. 

Apresentação em PowerPointFERNANDO COSTA Bancos Públicos – Fórum Brasilianas 12.11.15

Apresentação completa:

3 thoughts on “Concentração da Riqueza Financeira: Renda do Capital X Renda do Trabalho

  1. Excelente publicação. Parabéns Professor!
    Não sou do área da economia. gosto muito. Mas, admiro seu trabalho, dedicação e grande esforço. Louvável!

  2. 7×1
    Divida interna: R$3 tri
    Aumento dos juros nos últimos 2 anos 7%
    Aumento do gasto com o pagamento de juros: 3bi x 7% = 210 bi a.a.
    Gasto com o Bolsa Família = 30 bi
    7 para os bancos 1 para o BF!

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