Arte da Economia: Introdução

8 Nuvens

Na semana do Natal de 2015, fui para Paraty. Lá, pegava um barco e ia para a ilha do Cedro tomar sol, beber “astronauta” — um refrescante drink que mistura maracujá com limão, vodka e muito gelo dentro de um imenso pote –, e boiar em água morna. Ficava observando o movimento das nuvens cumulus sobre a paisagem verde da Serra do Mar. Nada mau. Muito inspirador.

Cabeça nas nuvens, mas não cabeça desmiolada. Li o livro Isso É Arte? e voltei inspirado a correlacionar os movimentos artísticos com as correntes do pensamento econômico. Na semana do Reveillon 2015-16, anotei algumas reflexões preliminares. Passarei a postá-las, diariamente, em série.

Começo, naturalmente, pela…

Introdução

Arte é declinação do latim ars. O vocábulo é utilizado para designar mais do que as produções artísticas. Por exemplo, o aprendizado de uma língua é uma arte. No português, “fazer arte” expressa traquinagem infantil. Mas, essencialmente, o vocábulo serve para designar a capacidade criadora de pessoas que conseguem expressar sentimentos, emoções e ideias por meio de pinturas, esculturas, músicas, danças, etc. Por mais insólitos e desconcertantes que sejam os objetos artísticos, seu entendimento é possível, pois todos artistas partem de uma ideia e, depois, buscam o meio de expressá-la. O conceito é a chave de sua compreensão.

No dicionário, verifica-se que o substantivo feminino arte tem inúmeros significados:

  1. o conjunto dos princípios e técnicas característicos de um ofício ou profissão;
  2. artifício empregado para levar alguém ao erro; burla; engano, malícia;
  3. travessura, traquinagem;
  4. segundo tradição filosófica que remonta ao platonismo, habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional;
  5. segundo tradição filosófica que remonta ao aristotelismo, conjunto de meios e procedimentos através dos quais é possível a obtenção de finalidades práticas ou a produção de objetos; neste caso, apresenta-se arte como técnica por oposição à Ciência, vista como “conhecimento não aplicado”;
  6. por extensão, o uso dessa habilidade nos diversos campos do pensamento e do conhecimento humano;
  7. por extensão, o uso dessas habilidades nos diversos campos da experiência e da prática humana;
  8. por extensão, acervo de normas e conhecimentos indispensáveis ao exercício correto de uma atividade;
  9. tratado que encerra tais normas, procedimentos, cuja inicial é maiúscula, por exemplo, “a Arte Poética de Aristóteles” ou “a Arte da Fuga de Bach”;
  10. por extensão, perfeição, esmero técnico na elaboração (por oposição à espontaneidade natural); requinte;
  11. o próprio ofício, especialmente quando se trata de trabalho manual, por exemplo, “a arte da marcenaria”;
  12. capacidade especial; aptidão, jeito, dom:
  13. qualidade de experto; perícia, habilidade;
  14. forma de agir; maneira, jeito;
  15. caráter, índole, propensão;
  16. habilidade para fascinar, seduzir ou enganar; ardil, artimanha, astúcia;
  17. em estética, produção consciente de obras, formas ou objetos voltada para a concretização de um ideal de beleza e harmonia ou para a expressão da subjetividade humana, tal como nas artes plásticas;
  18. por extensão, o talento, a contribuição própria da inteligência e da sensibilidade de um artista;
  19. por extensão, a tendência geral e/ou a totalidade das manifestações artísticas em determinada época, fase, lugar, etc., por exemplo, “a arte do Renascimento” ou “a arte expressionista”;
  20. obra humana, de funções práticas ou mágicas, e posteriormente considerada bela, sugestiva;
  21. artes na manufatura ou indústria que ainda mantém tradições artesanais, por exemplo, “a arte do vidro” ou “a arte do bordado”;
  22. em gráficas, qualquer original, em fase de leiaute ou de arte-final, a ser impresso;
  23. em jornalismo, a editoria incumbida de preparar desenhos, selecionar e cortar fotos, cooperar com os diagramadores;
  24. em publicidade, conjunto das atividades relativas à apresentação gráfico-visual de anúncios, cartazes, logotipos, etc.
  25. em publicidade, setor ou grupo de profissionais em agência de publicidade responsáveis pela execução de rafes, leiautes, ilustrações, artes-finais, etc., para a produção de anúncios, encartes, cartazes, letreiros, painéis, etc.
  26. armação ou aparelho utilizado em pescaria, por exemplo, “arte de arrastar”.

Em Economia, de início, o significado de arte remonta mais ao platonismo do que ao aristotelismo. O leigo que demoniza O Estado e louva O Mercado como virtuoso talvez entenda a Arte da Política Econômica como a segunda (“engano”) ou a terceira concepção (“traquinagem”)…

Ciência (também substantivo feminino), por sua vez, tem menos significados. Ciência é o conhecimento atento e aprofundado de alguma coisa. Obtém-se esse conhecimento como informação, noção precisa, consciência. Trata-se, então, de um conhecimento amplo adquirido via reflexão ou experiência.

É o processo racional usado pelo homem para se relacionar com a natureza e a sociedade e assim obter resultados que lhe sejam úteis. Envolve um corpo de conhecimentos sistematizados que, adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, são formulados metódica e racionalmente.

À semelhança de arte, ciência pode ser vista também como atividade, disciplina ou estudo voltado para qualquer ramo do conhecimento. Por extensão, é o conjunto de conhecimentos teóricos, práticos ou técnicos voltados para determinado ramo de atividade, que exige talento, mestria, erudição, saber. No entanto, diferentemente de arte, ciência refere-se também ao conhecimento puro independente da aplicação.

Em Filosofia, é o conhecimento que, em constante interrogação de seu método, suas origens e seus fins, procura obedecer a princípios válidos e rigorosos, almejando especialmente coerência interna e sistematicidade por oposição à mera “opinião pública” – a pior entre todas as opiniões… Supõe-se que apenas a “opinião especializada” é formada por esse conhecimento.

Na metafísica grega ou no hegelianismo moderno, ciência é o conhecimento filosófico racional, absoluto e sistemático a respeito da essência do real, culminância de todos os saberes particulares e específicos. Na Filosofia ocidental, ciência é cada um dos inúmeros ramos particulares e específicos do conhecimento, caracterizados por sua natureza empírica, lógica e sistemática, baseada em provas, princípios, argumentações ou demonstrações que garantam ou legitimem a sua validade. Menos importante na Filosofia grega, tal sentido da palavra tornou-se hegemônico no decorrer do pensamento filosófico moderno.

Já “ciências”, citadas no substantivo feminino plural, referem-se aos conhecimentos ou disciplinas que mantêm articulações, semelhanças ou conexões sistemáticas, tendo em vista o estudo de determinado tema, por exemplo, “Ciências Econômicas” ou “Ciências Naturais”. São tanto disciplinas voltadas para o estudo sistemático da natureza e dos negócios, quanto para o cálculo matemático.

Partindo dessas considerações preliminares, o objetivo desta série de posts é analisar o significado da frase “Política Econômica é mais Arte do que Ciência”. A metodologia de exposição partirá do exame da relação entre a Ciência Abstrata e a Arte de Decisões Práticas. Buscará respostas para as seguintes questões-chave:

  • Esta última (Arte) tem como pré-requisito o conhecimento daquela primeira (Ciência)?
  • O conhecimento econômico se acumula através da cultura livresca ou da experiência vivenciada, propiciada pela repetição e aprendizagem em uma série de tentativas-e-erros?
  • Entre uma (Ciência) e outra (Arte), não há um “salto epistemológico” no caso da não consideração das demais áreas de conhecimento representadas por Ciências Afins?

A hipótese preliminar é que uma mediação, via Ciência Aplicada, é necessária para reincorporar o antes abstraído com a finalidade de teorizar os fenômenos econômicos puros. O pressuposto é que a economia enquanto atividade, tal como qualquer Sistema Complexo, emerge de interações entre múltiplos componentes, cuja composição resulta de aspectos individuais, institucionais e valores culturais estratificados. Logo, a Arte da Economia não pode prescindir da Ciência Aplicada.

Economia enquanto conhecimento exige o estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico, ou das teorias e práticas em geral, avaliadas em sua validade cognitiva, ou descritas em suas trajetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou suas relações com a Sociedade e a História. Então, a Teoria da Ciência evolui analogamente aos movimentos artísticos.

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