Ciência Econômica é Arte da Retórica?

10 tipos de nuvens

Ciência de algibeira refere-se ao saber superficial. Ars gratia artis (no latim) significa “a arte pela arte”, ou seja, a concepção de que a arte justifica-se pela própria arte. Trata-se do conceito sobre a autonomia da arte, privilegiando a estética e livrando-a de conotações funcionais, pedagógicas e/ou morais.

Neste caso, deve-se diferenciar as artes plásticas, aquelas que ocupam das reproduções ou criações de formas, como o desenho, a pintura, a gravura, a escultura, etc., das artes liberais. Na Idade Média, assim se designavam as matérias ensinadas nas escolas da época, seja as do Trívio (Gramática, Retórica e Dialética), seja as do Quadrívio (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia). As artes liberais requerem estudo e grande aplicação da inteligência para aprender Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Astronomia, Engenharia e Medicina.

O conhecimento da arte da retórica é muito importante para entender como os economistas fazem a sua ciência. O estudo da retórica, enquanto ciência da argumentação, assume especial destaque na Economia a partir das publicações de “The rhetoric of economics” por D. N. McCloskey, nos Estados Unidos, em 1983, e “A história do pensamento econômico como teoria e retórica”, um ano depois, no Brasil, por Pérsio Arida.

As controvérsias econômicas só se resolvem quando uma tese conquista maior poder de convencimento. “Controvérsias se resolvem retoricamente; ganha quem tem maior poder de convencer, quem torna suas ideias mais plausíveis, quem é capaz de formar consenso em torno de si” (Arida; 1984: 30).

Essa linha de pensamento contemporâneo acha que o avanço da teoria econômica depende da habilidade no uso das regras da retórica e da persuasão. É a aderência a essas regras que conferiria um caráter científico à Economia. A Ciência Econômica seria a arte da retórica.

Há um núcleo comum composta de oito regras retóricas, que garantiria a organização e a evolução satisfatória do saber em Economia. Sua rejeição excluiria o indivíduo discordante do círculo dos praticantes da Ciência Econômica:

  1. Simplicidade: respeitada a complexidade, explicações simples têm sempre maior plausibilidade do que explicações complicadas;
  2. Coerência: a capacidade de levantar problemas e equacioná-los de forma não degenerada, sem hipóteses ad hoc – forjadas a partir do fato que pretendem justificar ou explicar –, é uma virtude na argumentação;
  3. Abrangência: a capacidade de explicar toda a evidência empírica disponível dá plausibilidade ao argumento;
  4. Generalidade: o argumento que incluir seu rival como um caso particular adquire maior plausibilidade;
  5. Redução de metáforas: a metáfora atinge seu máximo de eficiência retórica só no início do debate ou na apresentação de certas proposições originais; no decorrer da controvérsia, o argumento que se apresente menos carregado de metáforas tem maior plausibilidade;
  6. Formalização: o argumento que puder ser formalizado tem maior poder de convencimento, desde que o público seja capaz de entender a formalização, do que aquele apresentado literalmente;
  7. Reinventar a tradição: trata-se de uma estratégia de retórica que consiste em recortar o passado de forma a reivindicar para si uma tradição de pensamento e isolar o oponente como fruto de um desvio da tradição correta;
  8. Ignorar interesses práticos específicos: nunca se menospreza o argumento do adversário por estar motivado em interesses específicos na medida em que se aceita que esses interesses práticos que, justamente, motivam e tornam os indivíduos simpáticos a determinados argumentos.

Ao examinar com atenção a conversa entre economistas, pode se descobrir as figuras retóricas sob a forma de metáforas, analogias e argumentos de autoridade. A conversação em Economia é difícil de seguir, quando não se adquiriu, durante um tempo, o costume de ouvi-la. Porém, a conversação que os economistas mantêm entre si com o fim de convencer-se mutuamente tem um interesse maior do que acadêmico, pois ela pode acabar influindo na vida de todos os cidadãos.

A conversa entre economistas pode ser muita chata para leigos. Mas ninguém entende bem o que é interessante na Economia se não a tiver estudado com atenção. Continua-se a indagação: ela é arte ou ciência? Ou então: ciência ou ideologia?

Ideologia é um termo que possui diferentes significados e duas concepções: a neutra e a crítica. No senso comum, o termo ideologia é sinônimo ao termo ideário, contendo o sentido neutro de conjunto de ideias, de pensamentos, de doutrinas ou de visões de mundo de um indivíduo ou de um grupo, orientado para suas ações sociais e, principalmente, políticas. Sob uma concepção crítica, ideologia pode ser considerado um instrumento de dominação que age por meio de convencimento – persuasão ou dissuasão, mas não por meio da força física – de forma prescritiva, alienando a consciência humana.

Nessa visão crítica, que a considera ideológica, a Economia seria composta por preconceitos travestidos de evidência científica. Assim, buscaria legitimação de certa forma de dominação social. Boa parte dos interesses particularistas seria legitimada pela própria ciência que deveria denunciá-los. Por exemplo, ela defenderia que os membros das “castas” são moral e cognitivamente superiores aos “párias”, portanto, convence a respeito da servidão voluntária dentro dessa insuperável hierarquia social.

Michael Oakeshott (1901-1990), um teórico conservador, criticava o racionalismo na política como um véu ideológico que obscureceria a vida real, isto é, as coisas práticas do dia a dia com que todos os políticos e partidos têm de lidar. As ações de um racionalista são uma resposta às suas crenças teóricas fixas em vez da experiência objetiva ou prática. Por memorizar e orientar-se por um manual de regras permanentes, está constantemente desconectado da realidade, agindo ao sabor de ideologia ou crença fixa, deduzida de teoria abstrata.

Acha que as tentativas racionalistas de se atribuir sentido lógico ao comportamento da sociedade, inevitavelmente, distorceriam e simplificariam os fatos. Indiferentes à incerteza, elas converteriam situações complexas em fórmulas simples apriorísticas. Seus seguidores só reconhecem a autoridade de sua própria razão. Sem empatia com os outros, agem como só eles entendessem o mundo e pudessem ver como deveria ser conservado ou transformado.

É muito perigoso na política, segundo Oakeshott (O Livro da Política; 2013: 277), agir de acordo com uma ideologia artificial em vez da experiência real de governar. O conhecimento prático é o melhor guia e a ideologia é conhecimento falso.

Nessa visão conservadora dos interesses dominantes, ideologia é a referência dos outros; arte é a própria habilidade em conduzir os negócios. Onde fica a ciência? Por essa ótica, apenas na academia, pois não seria útil para orientar decisões práticas…

Clouds/EB-Kids jcliwea129j4 509 by 500 pixels EB Illustration/Animation Jerry Kraus April 11, 2006

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