Ciência, Preconceitos e Predisposições

meteorologyclouds

A ciência é uma busca contínua pela verdade. “A Verdade é o Todo”, segundo Hegel. Movida pela curiosidade humana, a ciência trava uma luta perpétua para descobrir como o Universo funciona, desde as primeiras civilizações, confiando no raciocínio, na observação e na experimentação.

Pode-se confiar inteiramente no pensamento e em argumento sem fazer experimentações? Não, um rigoroso cientista deve se basear em prova empírica, não só em retórica. Um sistema lógico para o processo científico segue o método de fazer observações, construir uma teoria para explicar o que ser passa e, em seguida, realizar um teste para verificar se a teoria funciona. Se parecer verdadeira, os resultados podem ser enviados para revisão dos colegas, quando pessoas da mesma área de conhecimento são convidadas a encontrar falhas e, assim, prová-la falsa, ou repetir a experimentação, assegurando a precisão dos resultados.

Daí o problema de elaborar uma hipótese ou previsão apenas de forma retórica, não passível de teste, e sujeita só ao contra-argumento ideológico dos próprios pares rivais. Como economistas raramente são capazes de realizar experimentações sociais a priori, isto é, antes das decisões práticas com impactos sociais, “a prova” só poderia vir pela observação estatística. Esta é um registro de dados do passado ao presente, que não provam nada a respeito de resultados futuros. Estes são incertos, pois são frutos de decisões descentralizadas, descoordenadas e desinformadas umas das outras.

Um experimento seria atrativo para o cientista se ao propor uma nova teoria pudesse fazer uma previsão de seu desfecho. Se a experiência resultar no previsto, então o cientista a posteriori tem a prova como respaldo.

De acordo com Karl Popper (O Livro da Ciência; 2014: 12), a Ciência jamais pode provar que uma teoria esteja correta, ela pode apenas desmentir suas deduções. Cada experimentação deve resultar na resposta prevista, mas bastará um único teste fracassado para falsear uma teoria.

O conhecimento científico opera por indução. Isso significa trabalhar a partir de observações particulares, tais como “todo cisne que vejo é branco”, em direção a princípios gerais como “todos os cisnes são brancos”. Mas esses princípios não podem ser comprovados, apenas refutados, por exemplo, pela observação de “um único cisne negro”. Para Karl Popper (1902-1994), na medida em que uma afirmação científica trata da realidade, ela deve ser falsificável.

Hans-Georg Gadamer (1900-2002) é associado à hermenêutica, vocábulo derivado do grego hermeneuo, que significa interpretar. Hermenêutica é o estudo sobre como os seres humanos interpretam o mundo. A interpretação de nossa existência é sempre um processo de aprofundamento da nossa compreensão, começando com o que já sabemos. Quando deparamos com o que não sabemos, sentimos a necessidade de atingir um nível mais profundo de compreensão.

Enquanto interpretamos determinados componentes, nosso sentido a respeito do Sistema Complexo começa a mudar. Quando nosso entendimento do todo muda, também poderá mudar nossa compreensão sobre cada parte. Isso é conhecido como o “círculo hermenêutico” (O Livro da Filosofia; 2011: 260).

Gadamer explorou essa abordagem circular em Verdade e Método (1960). Nossa compreensão é sempre a partir da perspectiva de um ponto particular na história. Nossos preconceitos e crenças, os tipos de perguntas que julgamos que valem a pena ser feitas e o tipo de respostas com as quais ficamos satisfeitos, tudo é produto de nossa história.

Cada casta tem certo éthos. Este é o conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres, etc.) e da cultura (valores, ideias ou crenças), característicos de uma determinada coletividade, época ou região. Trata-se da reunião de traços psicossociais que definem a identidade de uma determinada cultura. Então, como não nos livramos dos nossos valores culturais, nunca podemos alcançar uma perspectiva absolutamente objetiva e atemporal.

A interpretação do mundo sempre ocorre dentro de uma época histórica particular que nos proporciona preconceitos e predisposições. Sem esse sistema de interpretação não seríamos capazes de ver nada. Não há, portanto, como nos livrar dos preconceitos e predisposições para compreender o mundo. Em outras palavras, “a história não nos pertence, nós pertencemos a ela”.

Mas é possível (e necessário) uma “conversa com a história”. Com a leitura de textos clássicos, provenientes de outras gerações, por contraste percebemos nossas próprias normas culturais e preconceitos, ampliando a compreensão sobre nossas vidas no presente, o que nos incentiva (ou não) a mudá-las. Nesse sentido, não apenas lemos, somos também “lidos” por grandes autores.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s