Classes e/ou Castas X Homo Economicus

Cumulonimbus

No mesmo contexto de convulsões sociais, Karl Marx (1818-1883) ofereceu uma análise do progresso social baseada na Economia Política. Propunha a mudança social com base na ação político-ideológica, e não no racionalismo positivista. Transformou a busca da utopia socialista em um determinismo “científico” da Lei da História para a passagem do capitalismo para o socialismo, assim como aquele tinha ultrapassado o feudalismo.

O Manifesto Comunista (1848) afirmava: “a história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”. Enquanto o feudalismo fora caracterizado por duas classes, de nobres ou aristocratas e camponeses ou servos, a moderna sociedade industrial criara uma classe burguesa de capitalistas e uma classe proletária de operários que trabalhavam na indústria.

Embora tenha tido enorme eficácia ideológica a divisão social biunívoca entre “nós” (pobres) e “eles” (ricos), Marx errou em sua análise “científica” da história por não contemplar o caso indiano milenar, isto é, o “cisne negro” que falsearia sua hipótese. Casta é uma forma de estratificação social caracterizada pela endogamia, pela transmissão hereditária de um estilo de vida que frequentemente inclui um ofício (profissão), status ritual em uma hierarquia e interações sociais consuetudinárias (habituais) e exclusão baseada em noções culturais de pureza.

Seu exemplo etnográfico paradigmático é a divisão da sociedade indiana em grupos sociais rígidos, com raízes na história milenar da Índia que persiste nos dias atuais. O sistema de castas indiano é muitas vezes utilizado como analogia para o estudo de outros tipos de estratificação social existentes fora do subcontinente indiano.

As castas são sistemas tradicionais, hereditários ou sociais de estratificação, ao abrigo da lei ou da prática comum, com base em classificações tais como a raça, a cultura, a ocupação profissional, etc. Varna, a designação sânscrita original para “casta”, significa “cor”. Está relacionado ao conceito de castidade, palavra com a qual compartilha o mesmo radical latino referente à pureza. Para mantê-la, o pária, que trabalha com “sujeira”, é “intocável” pelos membros das castas.

O sistema de castas (Varna) indiano é dividido de acordo com a estrutura do corpo de Brahma. As quatro principais castas são:

  1. a cabeça (Brâmanes) representa os sacerdotes, filósofos e professores;
  2. os braços (Xátrias) são os militares e os governantes;
  3. as pernas (Vaixás) são os comerciantes, os financistas e os agricultores;
  4. os pés (Sudras) são os artesãos, os operários e os camponeses.

A “poeira sob os pés” não foram originados do corpo de Brahma, por isso não pertencem às castas. Esses exclusos são os Dalit ou párias, classificados como intocáveis. Mahatma Gandhi substituiu o nome por Harijan, que significa “filhos de Deus”. Os Dalit são vistos como aqueles (e seus descendentes) que violaram os códigos das castas a que inicialmente pertenciam. São considerados impuros e, por isso, ninguém ousa tocar-lhes. Fazem os trabalhos considerados mais desprezíveis: recolhimento de lixo, coveiros, com couro, etc. Pelo “não pertencimento social”, após as invasões mongóis da Índia, no século XIII, milhões de párias converter-se-iam ao islamismo, uma religião que não os discriminava. Fora do sistema das castas, também existem os Adivasis (povos tribais) e os Mechhas (estrangeiros).

É muito convincente a análise da evolução histórica apresentada por David Priestland, no livro Uma Nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro, Sábio. Nela, a suposta dicotomia entre valores (“paixões”) e interesses econômicos é falseada. Todos nós somos motivados por ambos. Nossos interesses e valores estão entrelaçados por aquilo que fazemos no trabalho, ou seja, nossa ocupação.

Claro que nossas opiniões, nossos valores e nossas lógicas de ações são moldados por muitas outras coisas. A família, o gênero e a etnia têm influência, além de nossa experiência como membros de uma geração ou mesmo de um partido. Mas a ocupação, que inclui escolaridade, é crucial.

Somos mais propensos a ter uma visão igualitária da economia se trabalhamos para o setor público do que se estamos no setor privado. Temos maior inclinação a ser culturalmente liberais se tivermos uma ocupação que nos conceda certa autonomia do que em um emprego submetido a um controle rígido. Tendemos a buscar e encontrar um trabalho que combina com nossos valores e nossa educação. Nossa experiência de trabalho molda esses valores.

Nesse caso, a sociedade não é vista como um aglomerado de indivíduos atomizados, como os neoliberais individualistas tendem a enxergar, nem como composta das classes econômicas binárias de Marx, segundo as quais as pessoas são categorizadas conforme suas propriedades: ter ou não ter. A sociedade é analisada sim como composta de grupos profissionais, cada um dos quais gerando seu próprio éthos, isto é, espírito, caráter, mentalidade.

Assim, “casta” é a designação que Priestland usa em seu ensaio, pois permite ver os grupos sociais não só como organismos que buscam o interesse próprio e a vantagem econômica, mas também como encarnações de ideias e estilos de vida, que com frequência procuram impor aos outros. Buscam exercer o Poder.

Ele argumenta que podemos compreender melhor nossa história se nos apoiarmos no papel dessas castas e de seus valores, com suas raízes distantes nos quatro antigos grupos ocupacionais e culturais:

  1. o aristocrata ou guerreiro,
  2. o sábio ou sacerdote,
  3. o comerciante ou financista, e
  4. o trabalhador ou camponês.

Hoje, o mercador é poderoso em algumas áreas de negócios com bancos e comércio, mas menos forte em firmas industriais complexas, onde os sábios-tecnocratas têm mais influência, sob a forma de gestores. É por isso que o termo “capitalismo” nem sempre é útil, pois ele assume muitas formas ou variedades:

  • algumas mais dominadas por instituições financeiras, tais como bancos de investimento,
  • outras por organizações sábio-tecnocratas, tais como as grandes corporações,
  • outras por culturas paternalistas, lideradas por relações corruptas e promíscuas entre o público e o privado, tais como o “capitalismo patrimonialista de compadrios ou laços”.

Através desse esquema de conflitos entre interesses das castas e alianças mutáveis, distinto das revoluções de classe e/ou lutas econômicas mais restritas que Marx destacou como “motor da história”, sempre em sentido progressivo – escravismo-feudalismo-capitalismo-socialismo –, que Priestland nos ajuda a entender a crise que o mundo desenvolvido enfrenta hoje. Destaca a possibilidade de reversão histórica.

As ordens das castas estão em situação mais vulnerável quando são menos inclusivas, pois o domínio irrestrito exercido por qualquer uma delas tem suas desvantagens:

  1. os Sábios-Tecnocratas podem trazer a burocratização ou a presunção arrogante típica dos especialistas;
  2. os Trabalhadores e Artesãos podem adotar o corporativismo e excluir “os de fora” na sua busca de espírito comunitário;
  3. os Guerreiros atiçam guerras intermináveis por honra e vingança; e,
  4. quando o Mercador domina sem restrição, sua influência pode ser igualmente catastrófica, infligindo com instabilidade econômica e elevação das desigualdades.

Os teóricos da Economia abandonaram essa riqueza analítica, abstraíram o detalhamento e adotaram o reducionismo. Reduziram todos os agentes econômicos, em última análise, ao tomarem decisões práticas, ao abstrato Homo Economicus plenamente racional, perfeitamente informado e isento de stress e paixões. Vivo apenas para defender seu interesse particular em uma análise fria…

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