Pensamento Neoclássico: Defesa do Capitalismo

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Leon Walras (1834-1910) tinha várias características em comum com quase todos os economistas teóricos que escreveram com base na tradição da utilidade, desde Jean-Baptiste Say (1767-1832), passando por William Stanley Jevons (1835-1882) e Carl Menger (1840-1921), até hoje. Primeiramente, via a economia quase que inteiramente sob uma perspectiva da troca. Até quanto escreveu sobre a produção, como quase todos os teóricos da utilidade, interpretou-a, basicamente, como uma série de trocas e nunca sob a perspectiva das relações de classe ou castas envolvidas. Assim, sua análise se ateve ao que Marx chamou de esfera da circulação.

A negação de Walras das relações de classe ou castas no processo de produção pode ser vista com mais clareza na elaboração neoclássica sobre o empreendedor. É atemporal. Há três tipos de fatores produtivos – capital, terra e trabalho. A propriedade de cada um desses fatores era tomada como dado. Cada indivíduo, agindo da mesma forma em busca da maximização da utilidade, prazer ou felicidade, vende uma certa quantidade de serviços produtivos a um empresário, a fim de comprar alguns bens de consumo. Todo o processo é um mero exercício de maximização da utilidade através da troca.

Cada serviço produtivo é pago pelo empresário exatamente de acordo com o valor que ele adiciona à produção. Os juros são o pagamento do capital, os alugueis são o pagamento do arrendamento da terra ou do imóvel urbano, e os salários são o pagamento do trabalho. Em equilíbrio geral, esses pagamentos produtivos equivalem, exatamente, ao valor do que produziram. Não há mais-valia (“aquela coisa de comunista”) alguma. Logo, o lucro só surge quando há desequilíbrio, ou seja, é igual a um prejuízo de alguém nesse sistema idealizado.

De acordo com esse modo abstrato de ver as coisas, é o simples acaso que determina quem é o verdadeiro empreendedor. Pode ser um capitalista, que paga os serviços do trabalho e os serviços da terra e fica com o resíduo exatamente igual, em situação de equilíbrio geral, aos juros dos serviços de seu capital. Mas, nessa visão idílica, pode também ser um trabalhador, que tem, então, de pagar os serviços do capital e os serviços da terra, ficando com uma sobra exatamente igual aos salários recebidos em troca de seus serviços de trabalho. Analogamente, pode ser um proprietário de terra ou uma pessoa que possua uma combinação de serviços produtivos e que aja como empreendedor, recebendo um arrendamento.

Como, em equilíbrio geral, os lucros são zero, não importa quem é o empreendedor, pois ninguém tem lucro nem prejuízo. Ganham a vida não como empreendedores, mas como proprietários de terra, trabalhadores ou capitalistas, em seu próprio negócio. Portanto, todos os indivíduos são simplesmente agentes de trocas que maximizam a utilidade, com uma “dotação” inicial de propriedades trocáveis.

Não haveria diferença alguma entre um capitalista super rico e um trabalhador mais pobre! Ambos seriam apenas agentes maximizadores de troca, dados os recursos limitados de cada qual. A produção é meramente uma espécie de troca. Esta idealização social é a essência da teoria de Walras, segundo Hunt & Lautzenheiser (2013), “que tem muitos defensores na Economia acadêmica contemporânea”.

Já a defesa ideológica que Alfred Marshall (1842-1924) fazia do capitalismo baseava-se na incorporação de importantes elementos do darwinismo social evolucionário à sua teoria. Diferentemente de seu contemporâneo americano Thorstein Veblen, que era totalmente evolucionista (cujas ideias apresentaremos mais adiante), ainda de acordo com Hunt & Lautzenheiser (2013), “Marshall não percebeu que a ética social utilitarista era nitidamente incompatível com uma abordagem evolucionária da teoria econômica”.

Marshall dispôs-se a “considerar as principais consequências, para a economia, da lei segundo a qual a luta pela existência faz com que se multipliquem os organismos mais adaptados para extrair benefícios do ambiente”. A principal conclusão a que chegou através de sua abordagem evolucionária resumia-se à expressão latina que aparecia junto ao título de seu livro Princípios de Economia: “Natura non facit saltum” (“A natureza não dá saltos”).

Ele argumentava que todo progresso humano era muito lento e que só prosseguia através de mudanças marginais diminutas. As tentativas de alterar rapidamente a sociedade estavam fadadas ao fracasso e, se levadas a cabo, só levariam à miséria. O progresso social era, em geral, um processo lento de aperfeiçoamento da hereditariedade de uma raça ou de uma nação. A direita insiste na convicção de que as desigualdades humanas e sociais são naturais e, enquanto tal, não são elimináveis.

“Essa influência da hereditariedade aparece de modo mais marcante na organização social. Isso porque tem de haver, necessariamente, um crescimento lento, produto do trabalho de muitas gerações: o crescimento tem de se basear nos costumes e aptidões da grande massa de pessoas, o que não admite mudanças rápidas.” Este credo liberal-conservador afasta qualquer possibilidade de revolução ser bem sucedida.

Um argumento encontrado comumente no darwinismo social direitista prega a visão ex-post da história dos vencedores, i.é, a partir do ponto-de-chegada, esquecendo-se das circunstâncias ex-ante, inclusive da ausência dos privilégios de nascença, dos vencidos. Diz: “nessa lenta evolução das instituições sociais, determinada estrutura social pode, muitas vezes, parecer exploradora, à primeira vista, mas a sobrevivência dessa estrutura social durante muito tempo prova que, em sua época e segundo suas circunstâncias, suas características progressistas positivas superaram qualquer defeito”!

Marshall acreditava que o mesmo argumento se aplicava ao capitalismo moderno. Superficialmente, o sistema capitalista parecia ser “impressionantemente contrastante” com o sistema de castas, mas também “se parecia de modo não menos impressionante com o sistema de castas”. Marshall insistia em dizer que “o sacrifício do indivíduo às exigências da sociedade, no que tange à produção de riqueza material, parece, em certos aspectos, um caso de atavismo, uma reversão a condições que vigoravam em épocas muito remotas do domínio de castas”. Todavia, argumentava que, “no capitalismo, como no sistema de castas, os benefícios da estrutura social existente mais do que compensavam seus defeitos.” Só faltou gritar: viva o conservadorismo!

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