Economia Institucionalista: Emulação X Racionalidade

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Mesmo em épocas mais obscuras, quando parece ser total o domínio do “pensamento único”, há no subterrâneo do debate público um pensamento alternativo. Thorstein Bunde Veblen (1857-1929) foi um economista e sociólogo norte-americano, filho de imigrantes noruegueses. Veblen se formou em Filosofia pela Universidade Johns Hopkins e doutorou-se por Yale. Sem poder encontrar trabalho como professor, matriculou-se de novo na Universidade de Cornell, onde conheceu James Laurence Laughlin, que o convidou a entrar para o Departamento de Economia da Universidade de Chicago. Em 1919, Veblen foi um dos fundadores da New School for Social Research.

Sua obra mais famosa é A Teoria da Classe Ociosa (1899), na qual Veblen analisou a estrutura econômica de sua época desde a ótica do darwinismo, e criticou a ostentação das classes mais favorecidas. Por sua ênfase nos usos e costumes sociais como fenômenos explicativos da atividade econômica, ele é considerado o fundador da Economia Institucionalista, dentro da história do pensamento econômico.

A existência de uma classe de indivíduos que se abstêm do trabalho produtivo e/ou manual, a chamada “classe ociosa”, é uma instituição. Outros exemplos de instituições são a propriedade absenteísta, ou seja, o hábito, bastante presente na economia capitalista, de o dono das ações não ser exatamente quem administra, pessoalmente, o negócio. Essa necessidade de demonstrar a desnecessidade de “trabalhar como um escravo no Brasil”, cujo regime escravista tinha sido extinto apenas há uma década, em 1888, a emulação, talvez seja o mais importante no livro A Teoria da Classe Ociosa.

A classe ociosa adota costumes, como o consumo suntuário do luxo e o conhecimento aprofundado de artes e vinhos, entre outras coleções, para demonstrar que usa seu tempo apenas para “cultivar o bom gosto”. É óbvio que o efeito-demonstração provoca a emulação: o hábito dos indivíduos de se compararem uns com os outros invejosamente, ou o esnobismo, o desejo das pessoas de serem reconhecidas como melhores que os outros indivíduos. A classe ociosa era imune à inveja, não à chacota.

O ócio das castas dos proprietários é claro desperdício de tempo produtivo, ligado ao esforço para o consumo conspícuo, aquele claramente visível, facilmente notado, que salta à vista. Atrai a atenção por suas dimensões inusitadas e pelo contraste que faz com o consumo do pária que luta para atender às necessidades básicas de sobrevivência. Então, os ociosos atraem a atenção pelo exagero, pelo mau gosto e pelo espalhafato. Já a casta dos sábios busca ser notável pelo saber, titulações ou dignidade. Para ser ilustre, eminente, assume um semblante muito grave ou circunspecto de pessoa séria, respeitável. É óbvia à mente, perceptível, dedutível, a diferença de postura entre essas castas.

Em termos de Ciência Aplicada, Veblen fez uma crítica profunda à teoria econômica neoclássica. Destacou que os consumidores não compravam bens simplesmente por causa de sua utilidade, mas também por razões puramente sociológicas, como para emular os ociosos. Isso ocorria mesmo que fosse prejudicial a suas finanças pessoais. Rompeu, assim, com o pressuposto neoclássico central de que o gasto do consumidor era uma questão de cálculo racional que não prejudicava o auto interesse.

O consumidor não faz uma escolha e um cálculo que lhe são próprios, pois estes são influenciados pela escolha de outros — pela moda, o desejo de não ficar atrás, a necessidade de demonstrar superioridade, e pela propaganda. Os cálculos neoclássicos baseavam-se em premissas falsas, porque buscavam compreender o comportamento humano a partir de números derivados de um agregado de indivíduos em que todos, supostamente, fariam escolhas racionais.

Veblen, ao contrário dos “economistas puros” de sua época, reconhecia que a propriedade privada e o instinto predatório levaram às sociedades predatórias e divididas em classes da época da escravidão e da época feudal. O capitalismo foi o resultado final do feudalismo na Europa Ocidental. Enquanto o instinto predatório dominou totalmente a sociedade escravocrata e feudal, no capitalismo, teria ocorrido um importante e profundo desenvolvimento do instinto construtivo.

No capitalismo, de acordo com a visão de Veblen, as forças construtivas e as forças predatórias de exploração tinham entrado em choque. Esse antagonismo foi expresso por ele como um conflito entre “negócio” (comércio) e “indústria” (atividade) – ou entre “comprar-e-vender” e “trabalhar”. Quando passou a predominar o “trabalho livre”, em que a obrigação de trabalhar era causada pela necessidade de ganhar a vida e não por uma necessidade imposta coercitivamente, o instinto construtivo prosperou: a atividade industrial apresentou grande progresso.

No entanto, no século XIX, as forças predatórias, que tinham sido herdadas das sociedades escravocratas e feudais, começaram a retomar força. Isso continuou até o sistema capitalista chegar, no fim do século XIX, ao ponto em que as forças construtivas e as forças de exploração eram ambas forças poderosas.

Essas duas forças sociais estavam presentes no capitalismo em duas classes inteiramente diferentes. Enquanto a essência do sucesso dos trabalhadores envolvia criatividade produtiva, a essência do sucesso dos proprietários e empresários envolvia vantagens para explorar os outros.

O treinamento capitalista promovia os ideais predatórios, ao passo que o treinamento dos operários promovia os ideais construtivos. Embora os ideais construtivos fossem muitíssimo úteis à sociedade, destruiriam a própria base institucional que sustentava a existência luxuosa, ociosa e parasitária da classe dos proprietários ausentes. Portanto, era sempre necessário contrabalançar o crescimento exagerado dos ideais construtivos. Desde então, os conservadores gritam: viva o reacionarismo! Viva o neoclassicismo! Viva o neoliberalismo!

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