Marshall e Wicksell: da Teoria à Prática

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A partir do Modelo de Equilíbrio Geral, alguns economistas já tinham passado a desprezar a Economia Matemática como irremediavelmente estreita e absolutamente imprópria para aplicação ao comportamento humano — que era apenas “falsamente lógico”. Em vez disso, descobriu-se a “lógica dos sentidos”: tratava-se da lógica irracional que era responsável pelos caprichos da emoção condutora da ação humana. Esses atos ilógicos eram determinados por uma expressão da psicologia humana subjacente. Isto era um fato incontestável que não admitia maior explicação teórica.

Alfred Marshall (1842-1924), além de fornecer o conceito de que o valor (preço) de um bem era determinado pela “tesoura da oferta e da demanda”, ampliou também enormemente a ideia de análise do equilíbrio. Walras realizara a análise do equilíbrio geral, que envolvia uma economia inteira ou macroeconomia. Marshall introduziu a noção de análise do equilíbrio parcial, que se concentrava em um setor particular da economia. Isso podia se limitar a uma indústria particular, uma empresa particular ou mesmo a um indivíduo consumidor.

A análise do equilíbrio parcial permitia um estudo muito mais detalhado dos diferentes fatores que afetavam o setor econômico sob estudo — como a possibilidade de crescimento de um pequeno mercado; se a indústria deveria consolidar sua posição no mercado de luxo ou expandir-se em segmentos inferiores; se o alto valor das prestações empurraria os indivíduos para o endividamento impeditivo de futuro consumo, etc.

Walras fora forçado a fazer vários pressupostos consideráveis como pleno emprego e o dispêndio de toda a renda. Marshall foi forçado a fazer um número ainda maior deles. O mais importante foi a condição “as outras coisas sendo iguais”, isto é, coeteris paribus: “o pressuposto de que os fatores externos à economia sob estudo não afetariam seriamente seu funcionamento interno”.

Apesar disso, Strathern (2003) avalia que “talvez o fator mais importante introduzido por Marshall na economia tenha sido o tempo. As considerações anteriores do assunto haviam tendido a incluir intuições, conceitos e cálculos que lidavam com uma situação essencialmente estática. Não há dúvida de que a ‘mão invisível’ de Adam Smith movia-se no tempo, mas não se concentrava no efeito do tempo. Mesmo o equilíbrio de Walras era essencialmente uma noção estática, como seu nome sugere”.

Segundo Keynes, Marshall viu o quadro global como um “um sistema copernicano completo, pelo qual todos os elementos do universo econômico são mantidos em seus lugares por mútuo contrapeso e interação”. Interações e ajustamentos têm lugar no tempo, e o tempo que demandam terá seu efeito.

Em curto prazo, ajustamentos no preço serão afetados por oferta e demanda. O preço dos produtos cai quando eles inundam o mercado. Em longo prazo, porém, o custo de produção desempenhará o papel principal na determinação do preço: o custo da montagem e do transporte dos produtos vai limitar a queda do preço. É o tempo que age como contrapeso — entre oferta/demanda e custo da produção — na determinação do valor. O tempo desempenhará também um importante papel na elasticidade. Alguns preços levarão mais tempo para se espalhar na economia antes de terem um efeito significativo.

Com Marshall, a análise econômica começou a se expandir rumo ao próprio cerne da vida econômica e seus processos. Formando tradição, as ideias neoclássicas foram sendo cada vez mais aplicadas à prática comercial. Homens de negócios, proprietários de fábrica, políticos e funcionários públicos, até jornalistas — todos perceberam rapidamente os benefícios da análise econômica racionalista. A compreensão dos métodos e processos do mercado, e de como se podia agir sobre eles, proporcionava vantagem comercial sobre competidores. Mas como isso funcionava? Em benefício de quem?

A ideia da Economia crescera o suficiente para que seu efeito pudesse ser visto em todos os aspectos da atividade humana. Ironicamente, enquanto isso acontecia suas investigações haviam se tornado cada vez mais teóricas. A introdução do tempo na equação econômica por Marshall é indicativa desse desenvolvimento. Tratava-se de um tempo abstrato, não um tempo histórico nem pessoal. Coeteris paribus, nenhum outro evento que não certos fenômenos econômicos tinham lugar nesse tempo.

“A Economia percorrera um longo caminho desde A Riqueza das Nações de Adam Smith, cuja erudição discursiva buscara abranger tudo — de desenvolvimentos históricos a inquietações morais. Como incluir coisas como essas na análise do equilíbrio? É difícil medir a moralidade, no entanto sua exclusão da equação econômica estava se tornando agora uma fonte de crescente preocupação — e não só para socialistas utópicos e marxistas. Um dos que suscitaram essa questão foi o pouco conhecido e excêntrico sueco Knut Wicksell”, afirma Strathern (2003).

Wicksell foi o autor neoclássico verdadeiramente revolucionário, pois evoluiu o pensamento neoclássico a partir de Walras. Isto ocorreu não só para falseá-lo, em uma crítica imanente, como também para contribuir para a arte da tomada de decisões práticas, no caso, a decisão de fixação do juros básico pelo Banco Central.

“Wicksell voltou também sua atenção para uma questão central: dinheiro. A ideia do dinheiro é ao mesmo tempo óbvia e elusiva. Que é ele? Que faz? Tem um valor fundamental (além de si mesmo)? É um meio ou um fim? Até essa altura, os economistas neoclássicos haviam encarado o fluxo e refluxo do dinheiro no mercado como um mero ‘véu’ que obscurecia o que realmente estava se passando — a saber, a transferência de bens do vendedor para o comprador. Wicksell entendeu as coisas de outra maneira. O dinheiro, e sua disponibilidade, afetavam diretamente a economia. A disponibilidade do dinheiro passara a depender cada vez mais dos bancos. Mais e mais empreendimentos, grandes e pequenos, dependiam de um empréstimo bancário para deslanchar. A taxa de juros a que esse dinheiro era emprestado era portanto de extrema importância. Uma taxa de juros elevada significava que menos pessoas iriam, ou poderiam, fazer empréstimos; uma taxa baixa estimulava o risco empresarial”.

Wicksell identificou duas taxas de juros distintas. A “taxa de mercado” era aquela cobrada pelos bancos. O homem de negócios tomava dinheiro emprestado do banco à taxa de mercado para capital de giro ou investimento. A “taxa natural” era a taxa de retorno que ele obtinha com o dinheiro que investia na fábrica, no maquinário ou na contratação de maior efetivo de trabalhadores. Se a taxa natural excedesse a taxa de mercado, ele lucraria de maneira correspondente. Os ganhos oriundos do investimento seriam mais altos que o custo de pagamento do empréstimo.

Wicksell foi capaz de demostrar o Processo Cumulativo: se a taxa natural fica acima da taxa de mercado, isso causa uma expansão descontrolada do mercado acompanhada por uma elevação dos preços. Por outro lado, se a taxa natural cai abaixo da taxa de mercado, o investimento declina e o desemprego cresce.

Segundo a análise de Wicksell, a taxa de mercado deveria ser mantida tão perto quanto possível da taxa natural, e isso só podia ser feito se ela fosse fixada pelo Banco Central. Havia uma necessidade manifesta de uma autoridade monetária como essa.

Esse é mais um exemplo de intervenção do governo, no caso, do Banco Central, para assegurar o funcionamento regular da economia — que iria distorcer os valores se deixada livre de restrições. Os bancos centrais começaram a reconhecer isso, progressivamente, até adotarem o regime de meta de inflação e fixarem a taxa de juro.

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