Da Ciência Econômica para a Arte da Economia

stormwolfs

De toda a evolução pregressa da história do pensamento econômico, o que ficou de contribuição da Ciência Econômica para a Arte da Economia? A combinação idealizada de preços diversos em um equilíbrio geral está entranhada no imaginário dos economistas. Eles acham possível o Banco Central, tal como um “leiloeiro walrasiano”, equilibrar todos os preços relativos via tateio!

Outra metáfora profissional sugere que as tarifas e os tributos, a taxa de juros, a taxa de câmbio, a taxa de crescimento da renda e do emprego, a taxa de inflação, e a taxa de salário real, todos esses preços básicos interagem uns sobre os outros como “bolas na tigela”. Nenhum desses preços relativos está determinado antes que todo o resto também o esteja. Uma “bola adicional na tigela”, que atrapalha a configuração prévia, é representada pela expectativa quanto ao curso futuro dessas taxas.

A metáfora da aleatoriedade do ajuste entre preços relativos talvez seja melhor representada pelo Globo para Sorteio. Bolas numeradas são colocadas dentro dele e sorteadas uma a uma. Esse instrumento é comum em loterias, bingos, escolhas de confrontos de times em torneios de futebol, etc. Ele pode designar melhor a qualidade de interação entre preços relativos, mantendo com o primeiro – bolas na tigela – certa semelhança.

Mas, na economia de mercado capitalista, o Globo para Sorteio está quase sempre girando. E quando para, nunca a bola representativa dos salários reais dos trabalhadores é sorteada. Ela parece ser maior do que o buraco da escolha…

Por que é necessário fazer um ajuste fiscal favorável ao capital financeiro e produtivo? Porque, em economia de mercado capitalista, a riqueza que mais importa. O emprego e o salário real são variáveis determinadas pelo capital. Com a condenação midiática do que denominam, ironicamente, “nova matriz macroeconômica” (a que levou à menor taxa de desemprego) de economistas desenvolvimentistas, sustentada cotidianamente por sabidos economistas neoclássicos, provoca-se, de imediato, um choque inflacionário de preços relativos com a política de realinhamento tarifário. Gira o Globo para Sorteio….

Por que não se faz uma reforma tributária estrutural? Porque um ajuste fiscal paliativo tem menor dificuldade política, em um Congresso Nacional dominado por bancadas conservadoras e fisiológicas do que uma perene reforma com progressividade tributária. Impostos em alta apenas reduzem a renda líquida e agravam a recessão.

Não se sabe a priori quanto tempo durará a depressão econômica, provocada pelo ajuste fiscal, até a retomada do crescimento sobre um PIB em dólar muito inferior. A curva em J representa, graficamente, a acentuação da depressão, durante um certo tempo, seguido de sua diminuição progressiva, devido à retomada da exportação, em médio prazo, e do investimento público-privado em infraestrutura, inclusive energética, e logística, em longo prazo.

O efeito preço (realinhamento de preços administrados) e desemprego (queda da demanda doméstica) sobre o custo unitário do trabalho real e a relação câmbio / salário é imediato, mas o efeito da depreciação da moeda nacional (competitividade face a importados) e produtividade (produzir mais com menos empregados) leva mais tempo. A arrecadação fiscal é uma variável dependente dessa evolução da renda.

Na prática, essa é a usual Arte da Economia. Porém, à medida que a depressão se agrava, nenhum economista parece saber o que fazer. Os neoclássicos não abrem mão de seu velho método do “laissez faire, laissez aller, laissez passer”, expressão-símbolo do liberalismo econômico, defendendo que o mercado deve funcionar livremente, sem interferência, apenas com proteção dos direitos de propriedade privada.

Veem tudo como fatalidade: logo a economia de mercado sofrerá uma reviravolta. Os desempregados acabarão compreendendo que só conseguirão encontrar emprego caso se dispuserem a trabalhar por menores salários. Os empresários também recobrarão a razão, cortando seus preços para aumentar as vendas. Tudo dependerá, portanto, dos empresários e dos trabalhadores. Qualquer interferência governamental no curso normal dos eventos só piorará as coisas: não cabe ao economista se meter. Apesar do agravamento da crise social, os defensores do livre mercado agarram-se à sua ideologia. As coisas podem andar mal no momento, mas em longo prazo acabarão se corrigindo. Keynes retrucou, irreverentemente: “A longo prazo, estaremos todos mortos.

A solução keynesiana, para combater a depressão, é fazer gasto público. Na ausência de investimento privado, o gasto que cria empregos só pode ser feito pelo governo. Tem de se esquecer, em conjuntura de depressão, o equilíbrio do orçamento fiscal, e usar dinheiro para criar projetos de obras públicas, construir infraestrutura, escolas e hospitais.

Um elemento central da teoria neoclássica é a Lei de Say, segundo a qual a oferta cria sua própria demanda e uma depressão total é considerada simplesmente impossível. “Keynes mostrou que o que ocorria de fato era o inverso da Lei de Say. Era a demanda que criava a oferta. Assim que a demanda definhava, os fabricantes eram forçados a reduzir a produção e dispensar operários. Isso tinha um efeito alastrante. Mesmo um só operário demitido significava uma família inteira reduzindo seu gasto. As lojas onde ela comprava sofriam as consequências, o que podia até ocasionar a dispensa de mais um trabalhador. À medida que o efeito se espalhava pela comunidade, a causa inicial agia como um ‘multiplicador’. Por outro lado, quando o investimento ocorria, o multiplicador funcionava em sentido contrário. Uma nova máquina, um novo operário admitido para operá-la, mais gasto nas lojas locais, um novo balconista admitido, etc.” (Strathern; 2003).

Segundo Keynes, o fator crucial na economia é a demanda efetiva que depende do gasto do consumidor e do investimento. Os gastos do consumidor e do empreendedor dependem da psicologia. Preocupação com a manutenção do emprego, o estado do país ou uma inquietação geral acerca do futuro são expectativas pessimistas que afetam esses gastos. A confiança não é uma questão de cálculo matemático já que não é racional, mas sim um estado emocional.

As medidas objetivas para aumentar a confiança do consumidor que os economistas ortodoxos adotam, geralmente, é a redução da taxa de juros, para a obtenção de crédito mais fácil, e a redução de impostos, que eleva a renda disponível. Mas Keynes deixou claro que esses não são os fatores mais importantes no que diz respeito à confiança do consumidor. Em primeiro lugar, na mente das pessoas está sempre a renda. Se elas ganham mais, e se sentem seguras de que continuarão ganhando no futuro, inclinam-se a gastar mais no presente e aplicar menos em reservas financeiras.

A demanda agregada aumenta com o aumento da renda, mas em ritmo menor. É necessário o investimento elevar-se em ritmo mais acelerado do que permitem as expectativas pessimistas dos empresários. Keynes sugeriu uma “socialização do investimento”. Isso é interpretado pelos neoliberais como “controle total do investimento pelo governo”. Na prática, significa apenas elevação do gasto do governo para compensar a falta de investimento privado, durante conjuntura de pessimismo nos negócios, e uma redução desse gasto, em período de retomada do otimismo, para não estimular a inflação e desequilibrar mais as finanças públicas.

“A ‘socialização do investimento’ de Keynes pretendia unicamente refrear esse instinto gregário, aplainar os picos e depressões do ciclo comercial. Ele não tinha nenhum gosto por controle estatal comunista” (Strathern, 2003).

Mais uma vez, o “véu ideológico” obscurece a visão da realidade e a sociedade sofre com a arte, no caso, o artifício empregado para levar o adversário ideológico ao erro. Nesse sentido, a Arte da Economia é burla, engano, malícia, travessura, traquinagem…

2 thoughts on “Da Ciência Econômica para a Arte da Economia

  1. Mais Outra Postagem Perfeita, revelando Conhecimento, Maturidade, Coerência com os Fatos, Ética e algo praticamente que não encontramos nos Escritos, seja no Brasil ou no Resto do Mundo: Honestidade Intelectual. Em síntese: comunicar o que é, tendo cumprimento apenas à cientificidade. Parábens para o Ilustre Professor Fernando Nogueira da Costa, um Exemplo a ser seguido, principalmente em momentos onde faltam: determinação, competência e coragem para fazer àquilo que é correto para o Brasil.

    1. Prezado Wilson,
      muito grato pelas bondosas palavras. Há momentos difíceis quando necessitamos escutá-las como incentivo.

      Fiz uma cirurgia delicada no meu olho esquerdo: catarata e retirada de uma película atrás da retina, que estavam prejudicando minha visão. Para evitar o descolamento da retina, que provoca cegueira, a oftamo teve de colocar um gás. Ficarei 15 dias em repouso absoluto sem sair de casa.

      Depois, voltarei devagar às minhas atividades.
      Abraço

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