Poucas Cores na Paleta de Tintas dos Economistas

Raios

A Arte da Economia necessita de um instrumento de medição para lidar com ela. Nesse sentido, o quadro econômico é uma pintura!

O sistema fisiocrático, qualificação que se refere ao “poder sobre a natureza”, ou seja, extração de riqueza da natureza, foi apresentado no Quadro Econômico de François Quesnay (1694-1774), cirurgião-médico que se inspirou na circulação do sangue no corpo humano para modelar o diagrama, publicado originalmente em 1758. Ilustra, com uma série de linhas cruzadas e ligadas, o fluxo de dinheiro, bens e serviços entre três grupos sociais: proprietários de terras, agricultores e artesãos.

O enfoque mercantilista dominava o pensamento econômico anterior às revoluções republicanas a favor dos direitos da cidadania, destacadamente o direito à propriedade privada e o de um homem não ser escravizado por outro. A publicação por Adam Smith de A Riqueza das Nações, em 1776, deu maior suporte intelectual à ideologia do individualismo libertário em sua luta contra o Estado monárquico e absolutista.

Os mercantilistas achavam que o Estado deveria se comportar como um comerciante, ampliando os negócios, comprando ouro para monetização, e interferindo na economia com impostos, subsídios e reservas de mercado. Os fisiocratas adotavam a visão contrária: a economia auto regula-se, naturalmente, e precisa apenas de proteção contra acidentalidades ou intervenções que afetam o processo natural de extração de riqueza da terra: livre-comércio, baixos tributos, garantia de direitos de propriedade e diminuto endividamento público.

Os mercantilistas diziam que a riqueza estava na concentração fundiária e no entesouramento de títulos de dívida pública, ou seja, era um estoque. Os fisiocratas preferiam destacar o fluxo de renda que provinha da “economia real”, isto é, os setores produtivos de bens e serviços. Para eles, a agricultura era o mais produtivo dos setores.

Ainda em época de predomínio da sociedade rural, os fisiocratas acreditavam que a agricultura era superior à manufatura. Diziam que quanto mais bens são consumidos, mais dinheiro circula no sistema, tornando o consumo a força motriz da economia. Pouco dinheiro nas mãos dos pobres, que o gastam, vale muito mais para a economia como um todo do que o dinheiro nas mãos dos ricos, que o acumulam em reservas improdutivas. A circulação monetária é o que importa.

Avant la lettre, Quesnay apresentou a economia como um Sistema Complexo, oferecendo os fundamentos para a macroeconomia moderna. Tentou descobrir leis sociais abstratas, que regulam a economia, decompondo-as em suas partes constituintes e verificando as interações entre esses agentes econômicos. Foi o primeiro modelo macroeconômico de base empírica.

A moderna Abordagem da Circulação assume também a posição que a produção depende da disponibilidade de moeda, pois a força de trabalho é contratada e as matérias primas são compradas por moeda, em resposta às pressões da demanda efetiva, por sua vez, validada por moeda. A moeda considerada é essencialmente moeda bancária (crédito) que circula em uma sequência particular. Uma análise desses passos revela a possibilidade de ocorrerem crises de numerosas maneiras, todas elas nascidas de falhas intertemporais em pagamentos monetários, devido a “vazamentos” no circuito monetário.

Quanto às causas das crises, os autores pós-keynesianos sublinham o comportamento psicológico dos agentes econômicos como observadores do futuro incerto. Os autores circuitistas sublinham o caráter descentralizado das decisões em uma economia de mercado.

Porque insistem na hipótese de que a moeda é um ativo desejável por si só, os pós-keynesianos estão permanentemente preocupados com seu entesouramento, que reduz o consumo. Porque enfatiza a moeda como meio de circulação, a abordagem da circulação está preocupada com desproporcionalidades, resultantes de falta de coordenação.

Portanto, o pós-keynesianismo enfatiza o problema de carência de demanda efetiva, enquanto a abordagem da circulação coloca sua ênfase sobre o problema das desproporções na circulação. Para esta, o desemprego é devido à independência das decisões por parte de demandantes e de ofertantes de trabalho. O pleno emprego é uma emergência – ato ou efeito de emergir – em que coincidem essas decisões e ocorre apenas no auge de ciclo econômico.

Keynes estruturou um Sistema de Contas Nacionais a partir de contas de grandes agentes institucionais – empresas, famílias, governo e o resto do mundo. Desde então, estabeleceu-se uma tradição reducionista de discussão da política econômica apenas em termos de poucos agregados macroeconômicos: a oferta agregada e as políticas de controle da demanda agregada (fiscal, monetária, cambial e de controle de capital) necessárias para se estabelecer os preços relativos de obtenção do idealizado “equilíbrio geral” nos mercados de bens e serviços, trabalho, monetário e câmbio, enfim, n-1. Quando a demanda agregada ultrapassa a oferta agregada, tem como efeito emergir uma situação grave, perigosa, ou seja, uma conjuntura crítica com inflação.

Observou-se que o valor de produção, por incluir diversas vezes uma mesma parcela de valor, não dava a medida do produto real da economia, apenas indicava uma medida da circulação da produção. Quanto maior o processo de circulação da produção, isto é, quanto maior o número de fases de processamento do produto final entre as empresas, maior deve ser o valor de produção da economia.

Além da Conta do Produto (diferença entre o valor da produção e o consumo intermediário), quando elimina-se essa “dupla contagem”, o valor agregado na produção pode ser estimado também na Conta da Renda e na Conta da Despesa. Ao realizar-se o processo de produção, durante o qual adicionam-se novos valores aos produtos utilizados como insumos, gera-se, simultaneamente, a renda dos agentes econômicos que participam do processo: os trabalhadores e os capitalistas.

Por sua simplicidade, essa ótica binária predomina, enquanto as reais interações entre os membros de todas as castas deveriam (e podem) ser distinguidos para observar melhor a emergência de novos fenômenos em escala macroscópica. A renda dos que vivem exclusivamente de seu trabalho é composta por salários dos trabalhadores manuais e os ordenados dos funcionários administrativos, além dos soldos dos militares. A renda dos que vivem da propriedade é apropriada por lucro industrial, lucro comercial, juros, aluguel e arrendamento da terra. A casta dos sábios é composta por trabalhadores intelectuais que recebem maior renda do trabalho, durante a fase ativa de sua vida profissional, e buscam acumular o suficiente para receber a renda do capital necessária para manter seu padrão de vida durante a fase inativa.

A geração da renda aparece do mesmo modo como é criado o produto, ou seja, a adição do novo valor em relação ao consumo intermediário resulta em renda gerada. A renda é igual ao valor agregado. Entretanto, como só se pode repartir algo já existente, somente depois de gerada, ou mais exatamente, a partir de sua criação que a renda vai ser repartida entre salário e lucro. A repartição da renda é determinada pelo fato da produção capitalista estar associada a uma dada distribuição de propriedades privadas.

Em economia de mercado capitalista, onde as trocas se realizam, indiretamente, por meio da moeda, a demanda se apresenta como a quantidade de dinheiro disponível para a compra de produtos. As necessidades dos membros das castas se apresentam, no mercado, como um poder de compra, convertendo-se em demanda. Já a parcela da população “pária”, excluída do mercado, embora tenha necessidades, por não dispor de poder de compra monetizado, não expressa uma demanda efetiva.

Então, nem sempre a demanda resulta em compra. Demanda, isto é, uma intenção de compra, é um conceito mais geral do que o de despesa, que é a concretização da demanda, ou seja, um ato de compra decorrente da demanda. Na Conta de Despesa Nacional Bruta embute a soma do consumo pessoal, consumo do governo, investimento bruto, variação de estoques mais a exportação líquida de bens e serviços, isto é, descontada a importação. Dessa despesa interna bruta a preços de mercado desconta-se ainda a renda líquida enviada ao exterior para resultar na despesa nacional bruta. Não se observa o potencial do poder de compra dos “párias” caso eles fossem inclusos socialmente no mercado.

Nesse sentido, o outro Modelo de Contas Nacionais com ênfase na análise mais detalhada da estrutura produtiva e da interdependência entre os setores de atividade econômica, elaborado por Wassily Leontief, que teve como fontes de inspiração o Tableau Économique de François Quesnay e o Modelo de Equilíbrio Geral de Léon Walras, tem maior importância para o planejamento. A matriz de insumo-produto tem a sua importância realçada como instrumento de planejamento ao fornecer as informações necessárias para a avaliação dos impactos das medidas de política econômica sobre as atividades produtivas interdependentes e as interações entre os diversos componentes de um Sistema Complexo.

O modelo de Leontief permite que se analise a economia a partir das informações sobre a interdependência entre os setores produtivos e as atividades econômicas – cadeias produtivas que hoje são internacionais. Estas duas técnicas (insumo-produto e contabilidade social), embora percorrendo caminhos distintos e baseando-se em teorias conflitantes, culminaram em um único instrumento de planejamento representado pelo Sistema de Contas Nacionais adotado pelas Nações Unidas.

No entanto, praticamente, por causa da maior ligeireza em sua confecção e divulgação, os economistas só se utilizam de poucas cores disponíveis em sua paleta de tintas, ou seja, acompanham poucos agregados macroeconômicos na Arte da Tomada das Decisões Práticas de Política Econômica.

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