Arte da Economia: Conclusão

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“Tal como a maioria dos assuntos aparentemente impenetráveis, a arte assemelha-se a um jogo; só precisamos conhecer as regras e os regulamentos básicos para que o antes desconcertante comece a fazer algum sentido”, afirma Gompertz, no livro Isso É Arte? (2013). Aplicamos essa leitura estimulante nesta série de posts que se encerra hoje.

Assim como na Arte da Economia, quando se trata de apreciar e usufruir Arte Moderna e Contemporânea não é o caso de decidir se ela é em alguma medida boa ou não, mas compreender como ela evoluiu. “A arte ajudou a transformar o mundo e o mundo ajudou a transformar a arte. Cada movimento, cada ‘ismo’, está intricadamente conectado, um levando a outro como os elos em uma corrente. Mas todos eles têm suas próprias abordagens individuais, estilos distintos e métodos de fazer arte, que são o ponto culminante de uma ampla variedade de influências: artísticas, políticas, sociais e tecnológicas” (Gompertz: 2013: 17).

A Academia cumpre, de maneira ortodoxa, o dever auto imposto de proteger a rica herança neoclássica, mas torna-se irremediavelmente retrógrada quando se trata de abrir novas perspectivas. As correntes econômicas evoluíram assim como os movimentos artísticos. Alguns teóricos foram para a arte conceitual – e não voltaram…

Estes teóricos defendem que a arte está na ideia, não no objeto. Ao proporem que uma ideia é mais importante que o meio, privilegiando assim o raciocínio sobre a técnica, terão eles obstruído as Escolas de Pensamento Econômico com dogmas, tornando-as amedrontadas e desdenhosas em relação à habilidade técnica? Ou fizeram a arte da tomada de decisões práticas se emancipar do misticismo e da ideologia, permitindo-lhe florescer e desencadear uma revolução intelectual inspirada no iluminismo? Mas tiveram a capacidade, posteriormente, de abandonarem o império do racionalismo e aproximarem-se mais do conhecimento dos interesses diversos e das emoções insuperáveis na “hora da decisão”?

O trabalho de um teórico não é proporcionar prazer estético – modeladores vivem para isto –, mas afastar-se do mundo real e tentar compreendê-lo ou comentá-lo por meio da apresentação de ideias sem nenhum propósito funcional imediato além de si mesmas. Mas o artista na tomada de decisões práticas, (in)formado por essas teorias, tem de baixar o nível de abstração para a realidade mais concreta, reincorporando os conflitos mundanos, para contemplar interesses diversos com os efeitos decorrentes.

O policy-maker é o homem-que-vaga-pela-cidade: “observador, filósofo, flâneur – a multidão é seu elemento”. Dotando-se da capacidade de ver, possuir o poder de expressão, esse artista da Economia busca encontrar o permanente na vida social. Extraí-la do eterno transitório. O objetivo essencial dessa arte é captar o universal no cotidiano, que é específico a seu aqui e agora: o presente. Necessita mergulhar no dia a dia da vida econômica: observar, pensar, sentir, registrar, por fim, decidir.

Impressionismo foi o mais famoso movimento artístico a ganhar forma desde o Renascimento. Nele, há muito pouco detalhe. Trata-se, na verdade, de uma impressão do que o artista viu. Neoclassicismo é a mais famosa corrente de pensamento econômico a ganhar forma desde o Iluminismo. Tem uma vaga impressão do mundo real.

Assim como a noção predominante de que a pintura impressionista é para ser experimentada, não somente olhada, exige-se da corrente neoclássica uma experimentação. O impressionismo era toscamente pintado, vivamente colorido, rapidamente executado, e tinha por tema a burguesia moderna. Este é o eterno tema do neoclassicismo: o burguês camuflado sob a roupagem do Homo Economicus.

A arte dos impressionistas tornou-se, no século XIX, a arte do mundo moderno. Paralelamente, a arte dos neoclássicos tornou-se a arte do mundo racionalista.

Nos anos 1880, a Ciência estava mudando a vida dos pintores. Acreditava-se que tudo podia ser descrito pela Ciência, mesmo quando se tratava de fazer Arte. A Economia recebia o mesmo impacto. Buscava transformar a complexidade em simplicidade, simplificando o complicado, deslindando a confusão e complexidade inerentes de seu objeto, unificando-o em um modelo abstrato em que forma e função se combinam em estética harmonia.

É o tipo de simplicidade que o artista e o economista, ao longo de todo o século XX, esforçaram-se por atingir. Uma preocupação muito difundida no seio da vanguarda intelectual dos economistas é como criar ordem e progresso no mundo por meio de algo tão ambígua quanto a Arte da Economia.

O que a Economia moderna precisava, pensavam os neoclássicos, era combinar o liberalismo dos velhos mestres da Economia Política clássica com o estudo da Matemática e da observação estatística tal como o empreendido pelos físicos. Talvez tenha sido a Aritmética que induziu muitos dos economistas de hoje a abandonar a arte figurativa, tendo concluído que uma única equação pode apreender a realidade melhor que qualquer observador.

No entanto, uma equação não pode resumir o comportamento de um ser humano, sempre faltará alguma coisa. Um modelo abstrato simula uma fração de segundo no tempo, captada por uma mente racional. Em contraposição, a observação comportamental é, de fato, a culminação de dias, semanas e, no caso de muitos economistas, de anos de contemplação de um único tema: a diversidade dos comportamentos humanos e a auto organização sem autoridade central.

É o resultado de vastas quantidades de informação armazenada, experiência, anotações e estudos que finalmente se revelaram em uma obra de arte acabada. Em decorrência da natureza dos seres humanos, podemos todos olhar a mesma vista, mas não vemos exatamente a mesma coisa. Dotados de um simples modelo abstrato, do mesmo ponto de vista neoclássico, todos os economistas tirariam a mesma foto…

Vemos as coisas que nos parecem interessantes e ignoramos as que não parecem. Levamos nossas misturas únicas de preconceitos, experiências, gostos e conhecimento para qualquer situação dada, definindo a maneira como interpretamos o que está diante de nós. Não há objetividade de modelo neoclássico que supere a subjetividade dos interesses do analista e tomador de decisões práticas.

Ver não é acreditar, é questionar. Foi essa intuição filosófica que vinculou o fim da Idade da Razão iluminista com o modernismo do século XX e com a arte do século XXI. Foi a intuição que mudaria a face da arte. A genialidade não é apenas simples, mas também assombrosamente óbvia.

O problema com a arte da modelagem neoclássica com base no referencial liberal clássico é que ela não representava o modo como realmente vemos a sociedade, que não é só de uma única perspectiva. É, pelo menos, das perspectivas de duas classes sociais, segundo os marxistas, ou de quatro castas (e inúmeras subcastas, fora os párias), segundo o éthos de cada ocupação.

Multiplicar as perspectivas representa o ganho da verdade. É assim que nos vemos.

O desafio atual da Arte da Economia é elaborar uma composição dos diferentes ângulos de que todos nós desfrutamos ao analisar uma cena social. Ela tenta transmitir uma outra verdade sobre o modo como assimilamos informação visual. Se vemos um conjunto, não “lemos” o que está diante de nós como coisas ou seres individuais, mas sim registramos uma unidade singular: um agrupamento, uma classe ou uma casta. Isso significa que o plano global de todo o quadro – o Sistema Complexo – é mais importante que as partes componentes, embora aquele resulte das interações destas.

A combinação de olhares lançados sobre um tema a partir de mais de um ângulo com a tentativa de unificar uma composição leva a um aumento da quantidade de informação analítica fornecida. Ocorre em prejuízo da ilusão do espaço bidimensional dos tradicionais gráficos de correlações entre variáveis, representadas em apenas dois eixos, por exemplo, valor-tempo ou valor-quantidade. Obscurecem-se as correlações espúrias com um terceiro elemento, o que exigiria ao menos uma perspectiva tridimensional. Idealmente, chegar-se-ia ao cubismo.

Para os artistas hábeis na tomada de decisões práticas, os elementos individuais e as configurações do conjunto são como notas musicais que eles arranjam, meticulosamente, para produzir um som harmonioso – cada decisão suas conduzindo à seguinte, e trabalhando em combinação com ela. É uma abordagem que requer bastante planejamento.

O artista econômico tem de se empenhar em criar uma composição rítmica, racional. Os interesses dos agentes econômicos e o modo como eles se combinam, espelham e se complementam, mutuamente, devem ser todos cuidadosamente considerados, não se medindo esforços em aplicar a Teoria da Aleatoriedade e a Ciência da Complexidade.

Ele pensa que os economistas neoclássicos não estão sendo suficientemente objetivos. A seu ver, falta-lhes rigor em sua busca de realismo. Volta-se, então, para a Ciência da Complexidade em busca de ajuda para resolver a questão. Mas pode também voltar-se para a Natureza, ou seja, inspirar-se na Economia Evolucionária. Ou para a Sociedade, inspirando-se em Economia Institucionalista. E para a Mente Humana, incorporando a Economia Comportamental.

Ainda no início de sua jornada em busca de acrescentar um novo elo à Arte da Economia, produzida anteriormente com academicismo – adoção de ideias e atitudes especulativas sem efeito prático –, os economistas multidisciplinares entreabriram, finalmente, a porta para o modernismo. Não será mais possível fechá-la. Afirma Gompertz, no livro Isso É Arte? (2013): “o grande poder das ideias é que não é possível desinventá-las”.

Nuvens sobre Monhtanhas

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