Preciso Aprender a Ser Só

Misantropia

Misantropia é a característica de quem está misantropo, isto é, aquele que tem, em determinados momentos, preferência pela solidão, aversão à sociedade humana. É sentimento derivado da melancolia, depressão, tristeza.

É o que sinto, quando a ordem nas redações da “grande imprensa” parece ser apenas disparar ataques, dia e noite, sem pausas, contra o ex-presidente Lula, a presidenta Dilma Roussef e o Partido dos Trabalhadores. “Fazer sangrar” ou “extinguir essa raça [ou partido]” nas palavras sem sutileza dos violentos adversários da democracia.

Niilismo é a redução ao nada, o aniquilamento, a não existência. É um ponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência. Resta apenas o total e absoluto espírito destrutivo, em relação ao mundo circundante e ao próprio eu.

No nietzschianismo, niilismo é a negação, o declínio ou a recusa, em curso na história humana, e especialmente na modernidade ocidental, de crenças e convicções – com seus respectivos valores morais, estéticos ou políticos – que ofereçam um sentido consistente e positivo para a experiência imediata da vida.

Sylvia Colombo (FSP, 30/01/16) escreveu uma resenha da literatura recente, ainda não traduzida, sobre o fenômeno de “isolamento social”. Ela não faz uso dos conceitos acima (misantropia e niilismo), nem apresenta uma análise psicológica, seja individual, seja de massa, mais profunda sobre a origem do fenômeno. Trata-se de “isolamento social” ou auto isolamento? Compartilho abaixo, para ler e refletir a respeito.

“O sociólogo americano Eric Klinenberg, 46, investigava os efeitos de uma onda de calor que afetou Chicago em 1995 quando viu que mais de 700 vítimas fatais viviam sozinhas. A tragédia acendeu nele a curiosidade para estudar uma mudança fundamental que vem ocorrendo nas grandes cidades, não apenas dos EUA, mas do mundo.

A investigação resultou em 2012 no livro “Going Solo – The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone” [Seguir sozinho – a extraordinária ascensão e o interesse surpreendente de viver só], e os números então saltaram aos olhos.

Se, em 1950, 4 milhões de americanos viviam sós, hoje já são mais de 30 milhões [cerca de 10%]. Nas grandes cidades, a tendência é muito mais acentuada – mais da metade da ilha de Manhattan tem moradias com apenas um habitante.

O instituto Euromonitor identificou, entre 1996 e 2006, um aumento de 33% das pessoas que vivem sós e projetou, para 2020, um crescimento do índice em adicionais 20%.

“É um momento único na história da humanidade em que enormes quantidades de pessoas, se têm condições para isso, optam por viverem sozinhas”, explica Klinenberg.

Depois de “Going Solo“, o mercado editorial foi invadido por publicações que tratam de refletir sobre os aspectos da tendência [ao auto isolamento]:

  1. pessoas que preferem nunca ter um parceiro fixo (o que não significa não ter sexo);
  2. as que querem namorar ou casar, mas não aceitam viver sob um mesmo teto;
  3. as que enviúvam e percebem que envelhecem melhor sem se mudar para a casa de parentes;
  4. as que vivem sós para ter uma vida social mais agitada; e
  5. as que querem desconectar-se de tudo e redescobrir o silêncio e a natureza.

Em “Spinster” – na lista dos melhores livros de 2015 do “New York Times”, e que a Intrínseca lança no Brasil em abril –, a americana Kate Bolick, 40, pede uma redefinição da palavra “spinster“.

Termo celebrizado na Idade Média para designar mulheres que, por terem posses, não precisavam buscar o casamento por sustento, o conceito era considerado algo positivo. Mas, ao longo dos séculos 18 e 19, ganhou conotação pejorativa, ao designar a “solteirona com mais de 40”.

“É hora de redefinir o conceito de ‘spinster‘, pois já não corresponde a mulheres amedrontadas e estigmatizadas, mas que se libertaram das perguntas impostas desde a infância (‘quando você vai se casar?’) e reencontraram um lugar na sociedade”, diz Bolick.

Para a autora, a “libertação das ‘spinsters'” está relacionada à revolução LGBT e ao desenvolvimento dos aplicativos para encontrar parceiros sexuais. “Antes a mulher precisava de um marido para ter sexo. Hoje, talvez seja tudo de que ela não precisa.”

Já Klinenberg, que é professor de sociologia da Universidade de Nova York, acredita que o “apogeu da vida solitária” começou a despontar nos anos 1950, mas ganhou força nos últimos dez anos, devido a quatro fatores:

  1. mudança de status da mulher [inserção no mercado de trabalho e preferência pela carreira profissional em vez da maternidade],
  2. revolução das comunicações,
  3. revolução urbana e
  4. aumento da longevidade.

Segundo ele, tornaram sedutoras as benesses da vida solitária: “A privacidade, o anonimato, a autonomia e, paradoxalmente, a chance de se conectar mais com outros sem compromisso”. E completa: “Casamos mais tarde, permanecemos solteiros por anos ou décadas, fazemos o possível para evitar mudar para a casa de nossos pais, e eles também resistem em mudar para a nossa quando perdem o companheiro”, resume.

[FNC: é um fenômeno da:

  • geração baby boom (as pessoas nascidas entre 1946 e 1964), hoje entre 52 e 70 anos?
  • geração X pós-pílula anticoncepcional (nascidas entre 1965 e 1980 e com menos irmãos), hoje entre 36 e 51 anos?
  • geração Y (nascidas entre 1981 e 2000, ou seja, jovens adultos no novo milênio), hoje entre 16 e 35 anos?]

Ainda assim, especialistas concordam que o estigma persiste. “Leia a descrição de psicopatas nos jornais. Fatalmente os que o conheciam elencarão que ele era ‘sozinho’“, diz a britânica Sara Maitland, 65, autora de dois livros sobre o tema: “A Book of Silence” (Um livro de silêncio) e “How to Be Alone” (Como viver só).

Tendo sido casada e vivido em Londres muitos anos, há tempos se mudou para uma casa no interior da Escócia, sozinha, não tem celular e evita a companhia de outros, que substitui por longas caminhadas em silêncio.

“Estar sem um parceiro é o único comportamento com o qual as pessoas não têm receio de serem profundamente rudes“, explica. “Quantas vezes não me perguntaram: ‘E você, já arrumou alguém?’. Se eu respondesse: ‘Não, mas e você, continua amarrada a esse sujeito aí?’ Seria extremamente grosseiro, não?”

Por isso, explica Maitland, preferiu mudar-se para o campo e refletir por que a sociedade ainda associa a opção de viver só à tríade “sad, mad or bad (triste, louco ou mau). Existe, para ela, uma sensação cultural de que isso possa estar “errado”.

O que os dois livros que Maitland já lançou, e o terceiro no qual agora trabalha, tentam responder é que esses estigmas estão caindo e que há um movimento “contracultural”, relacionado à revolução das comunicações, que facilitará viver sozinho e levará essa transformação adiante.

Em seus livros, desfilam os fenômenos da moda das aventuras em “solidão extrema“, ou seja, viagens de exploração de lugares longínquos ou perfis de famosos solitários, como Greta Garbo (1905-90).

Para Maitland, o processo é lento. “O estigma tem várias razões, como o medo das pessoas de uma vida sem companhia, mas um outro é a inveja, que causa vontade de experimentar [risos]. E isso ajuda o estigma a se diluir.”

No recém-lançado “Selfish, Shallow, and Self-Absorbed” (Egoísta, superficial e autocentrada), a americana Meghan Daum, 46, reúne famosos escritores (como Geoff Dyer, Anna Holmes e Sigrid Nunez) que discorrem sobre a escolha de não ter filhos.

O foco é a avaliação moral que a sociedade fez da opção, que soa “egoísta” ou “escapista”. Como diz um dos autores: “As pessoas creem que quem não tem filhos deixa de dar um sentido à existência, como se algum sentido houvesse”.

Os autores concordam, porém, que a vida solitária apenas traz benefícios aos que optam de maneira voluntária por ela. “Sentir-se triste por estar só é um outro problema, e ele precisa ser enfrentado como tal”, resume Maitland.

Lançamentos refletem a tendência de pessoas viverem sozinhas, seguindo o saber popular: “antes só do que em má companhia”. Entenda as diferenças, segundo os autores:

GOING SOLO (seguir sozinho): Não se casar, não ter filhos, não ter como ideal a ideia tradicional de família.

LIVING ALONE (viver sozinho): habitar uma casa ou apartamento sem a companhia de mais ninguém, nem ‘roomates‘ nem namorados ou mesmo maridos ou mulheres (que podem viver em outras casas).

SPINSTER“: Termo cunhado na Idade Média para definir mulheres que não precisavam se casar por ter independência financeira. Transformou-se num termo pejorativo nos séculos 18 e 19 para designar mulheres com mais de 40 que não se casavam. Hoje, volta a ser usado como conceito positivo, de mulheres independentes que decidem não se resignar à vida familiar e à maternidade.

LONER (solitário): Alguém que prefere a solidão não apenas no lar, mas também no ambiente. Preferem viver perto da natureza, valorizam o silêncio e escolhem não estar conectados todo o tempo, muitos não têm celulares e mantêm pouca conexão com familiares ou amigos que vivem longe. Preferem o campo ou praias isoladas.

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