Brasil: Uma Biografia

Brasil Uma Biografia

O autor da ideia primeira deste livro, Brasil: Uma Biografia (São Paulo; Companhia das Letras; 2015), e também da indicação dos nomes das autoras, Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling, bem como da sugestão do título e da realização de três leituras críticas, foi o próprio marido da primeira, o editor da Companhia das Letras, Luiz Schwarz. Ele sabia da carência na historiografia brasileira de uma obra de tal fôlego, que sintetizasse o pouco mais de ½ milênio da história do Brasil ao olhos de hoje — início do século XXI. Isto implicou em escrever um texto acessível e não “academicista”, isto é, afastando-se daquele estilo que acredita que acúmulo é aprofundamento e que chatice é precisão.

Reunindo imensa documentação original, interessante iconografia e conhecimento das recentes pesquisas sobre história brasileira, Schwarcz e Starling apresentam não somente a “grande história política” mas também o cotidiano do povo brasileiro, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais. Obviamente, não conseguiriam alcançar tanta abrangência sem aproveitar o trabalho de pesquisa dos autores que, antes delas, se lançaram na difícil empreitada de tentar interpretar ou, pelo menos, entender o Brasil.

As últimas tentativas de grande síntese histórica já tinham ficado datadas pelo contexto em que foram elaboradas, há mais de 1/2 século. Publicado em 1933, Casa Grande & Senzala compõe com Sobrados & Mocambos e Ordem & Progresso, o conjunto denominado por Gilberto Freyre “Introdução à História da Sociedade Patriarcal no Brasil”, reflete a euforia nacionalista da Revolução de 30. E demarca as diferenças regionais do País face aos separatistas da derrotada Revolução Paulista de 1932.

Em 1936, Sérgio Buarque de Hollanda publica o ensaio Raízes do Brasil. Busca entender o processo de transição sociopolítica vivido pela sociedade brasileira nos anos 1930. Nele, não se reconstrói a história dessa sociedade, mas reúne fragmentos de formas de vida social, de instituições e de mentalidades, nascidas no passado, mas que ainda faziam parte da identidade nacional. Trabalha com a ambiguidade de uma sociedade ainda nova, fruto da colonização europeia, mas que não se amolda bem à sua herança. A identidade brasileira era complexa e ainda em devir.

Caio Prado Júnior publicou seu primeiro livro, Evolução Política do Brasil, em 1933. Formação do Brasil Contemporâneo (1942) deu-lhe maior prestígio junto aos críticos acadêmicos, mas A Revolução Brasileira (1966) seria o livro que teve maior repercussão e provocou controvérsias junto ao público. Trata-se da proposta de interpretação do Brasil vinculada ao pensamento marxista.

Coronelismo, Enxada e Voto, publicado em 1949, de autoria de Vítor Nunes Leal é a primeira análise rigorosamente sistêmica da política brasileira. Busca estabelecer as interconexões relevantes para a compreensão de como funcionava o nosso processo político. As relações de poder se desenvolviam a partir do município com a hipertrofia do papel político-eleitoral dos proprietários rurais, denominada de “coronelismo”. O latifúndio decadente ainda se sobrepunha ao próprio poder público. Mesmo hoje restam oligarquias do Pará, Maranhão e Alagoas, surpreendentemente, presentes no “toma-lá-dá-cá” da política fisiológica brasileira.

Formação Econômica do Brasil (1958), livro de autoria de Celso Furtado, aprofunda questões abordadas no primeiro livro do autor, A economia brasileira, publicado em 1954: o comércio exterior e o crescimento econômico. Analisa os diversos ciclos da economia (açúcar, gado, ouro e café), escravatura, imigração e migração interna e o processo de industrialização. Caracterizado por sua abordagem estruturalista, adotada durante sua passagem pela Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), defendia a industrialização de nossa economia face à deterioração dos termos de troca com o exterior, dado o predomínio de produtos primários na pauta de exportação e de produtos industriais entre as importações. Seria um “processo de substituição de importações”.

A primeira edição de Os Donos do Poder aconteceu em 1958, em Porto Alegre, quando o livro de Raymundo Faoro ficou restrito aos círculos acadêmicos e alcançou repercussão mais local que nacional. A segunda edição ocorreu apenas em 1975. Sua tese é que o patrimonialismo de origem portuguesa determinou, além de uma ordem econômica peculiar, relações específicas entre Homem e Poder. Atrelou-se a uma ordem burocrática que superpunha o soberano ao cidadão em relação semelhante à existente entre o chefe/patrão e o funcionário. O rei (ou qualquer mandatário republicano) se enxerga como o primeiro comerciante do reino/república assim como o senhor das terras. Daí o “eterno” espírito de privatização, no trato da coisa pública, ainda existente no País. A troca de cargos é o escambo político típico nessa fisiológica tradicão.

Florestan Fernandes afirma que começou a escrever o livro, publicado em 1974, A Revolução Burguesa no Brasil, em 1966. Ele deveria ser uma resposta intelectual à situação política que se criara com o regime ditatorial instaurado em 31 de março de 1964. Propunha-se ser mais uma intervenção no debate contemporâneo sobre os caminhos da militância política, após a derrota tática da luta armada em nome de um socialismo estratégico que não se colocava como uma alternativa viável à barbárie militar. A prioridade da frente de oposições passou a ser a luta pela reconquista da democracia burguesa.

Cinquenta anos depois, a partir dessa questão central para a esquerda do espectro político contemporâneo – o socialismo não mais como mero fruto da oportunidade de revolução súbita de uma vanguarda descolada das massas, mas sim como um processo gradual e cumulativo de conquistas da cidadania popular – a história que surge das páginas de Brasil: Uma Biografia de coautoria da Lilia Moritz Schwarcz e da Heloisa Starling é a de um longo processo de embates e avanços sociais inconclusos. Nele, a construção falhada da cidadania, a herança contraditória da mestiçagem e a violência aparecem como traços persistentes, porém superáveis, na biografia do Brasil.

Enfim, é um extraordinário livro de História do Brasil! E tem o mesmo foco deste modesto blog: Cidadania & Cultura, ou seja, conquista de direitos civis, políticos, sociais e econômicos com cumprimento de deveres educacionais, culturais e comportamentais éticos e democráticos.

Continua no próximo post.

2 thoughts on “Brasil: Uma Biografia

  1. Obrigado pela indicação. Já baixei uma amostra no Kindle, acredito que terei uma leitura enriquecedora com esse livro.
    Ah! Agora que notei o Music Player, já está tocando aqui enquanto leio os posts do blog.

    Obrigado mais uma vez!

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