À Procura da Identidade Nacional

Lilia Schwarcz e Heloísa Starling, São Paulo, 2015.
Lilia Schwarcz e Heloísa Starling, São Paulo, 2015.

Há mania nacional de procurar pelo milagre do dia, pelo imprevisto salvador? Este “bovarismo” (estrangeirismo derivado da personagem Madame Bovary, criada por Gustave Flaubert), segundo Sérgio Buarque de Holanda, é um conceito que se refere a “um invencível desencanto em face das nossas condições reais”. Daí para o “complexo-de-vira-lata” nelsonrodriguiano de nossa elite aculturada, meio esnobe, meio brega, foi um passo só…

O “bovarismo” define essa alteração do sentido da realidade, quando pessoa se considera outra, que não é. Por exemplo, nossa “direita-burra” se acha, mas não é inteligente. É idiota ao ponto de não ter consciência do mal que faz a si e aos outros com suas contínuas manifestações públicas de imbecilidade, seja na mídia, seja na rede social, via agressões violentas caracterizadas por intolerância. Esse estado psicológico de insegurança gera uma insatisfação crônica, produzida pelo contraste entre ilusões e aspirações, e, sobretudo, pela contínua desproporção diante da realidade.

Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling, coautoras do livro Brasil: Uma Biografia (São Paulo; Companhia das Letras; 2015), sugerem estudar o caso nacional de acordo com esse fenômeno psicológico sendo passado do indivíduo idiota – a palavra idiota vem do grego idiótes, expressão usada para designar quem não participava da vida política, considerada atividade suprema e nobre – para uma comunidade que se concebe sempre diferente do que é. Fica aguardando que um fato inesperado altere a danada da realidade. É a eterna busca da suposta “verdadeira” identidade nacional

“Deus dará”, seja alterando a derrota prevista em partida de futebol, seja acreditando com fé na chegada de algum evento mágico. Sempre se aguarda o “dedo-de-deus” reorientar os acontecimentos reais em favor da realização do “sonho” de cada um. Ficamos todos no aguardo desse milagre, em vez de planejar e executar mudanças institucionais, substantivas e duradouras.

Bovarismo serve, ainda, para nomear um mecanismo muito singular de evasão coletiva, que nos permite recusar o país real e imaginar um Brasil diferente do que é – já que esse não nos satisfaz e, pior, nos sentimos impotentes para modificá-lo. Entre o que se é e o que se acredita ser, já fomos quase tudo na vida: brancos, negros, mulatos, incultos, europeus, norte-americanos, e [componente dos] Brics! Gênero de deslocamento tropical do famoso ‘ser ou não ser’, no Brasil, ‘não ser é ser’. (…) a penosa construção de nós mesmos que se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro”.

Uma antiga mania local é a de olhar para o espelho e se enxergar sempre diferente. Em vários contextos de nossa história, esse tipo de construção idealizada do País, de modo a ser parecido com outro mais avançado, se transformou no desenvolvimento da nacionalidade.

“Qual é a identidade nacional” está sempre em questão. Schwarcz e Starling sabem, porém, que identidades não são fenômenos essenciais e muito menos atemporais. Ao contrário, elas representam respostas dinâmicas, políticas e flexíveis, uma vez que reagem e negociam diante das diversas situações. Por isso, preferem se aferrar, igualmente, à ideia de que a plasticidade e a espontaneidade fariam parte das nossas práticas e formariam um éthos nacional. Nós seríamos o País do improviso que dá certo! Afinal, Deus é brasileiro! Saravá…

Outra característica que tem nos definido enquanto nacionalidade é o “familismo”, ou seja, o costume arraigado de transformar questões públicas em questões privadas. O País sempre foi marcado pela precedência dos afetos e do imediatismo emocional sobre a rigorosa impessoalidade dos princípios, que organizam usualmente a vida dos cidadãos das mais diversas nações.

Do latim “cor, cordis” deriva-se “cordial”, palavra que pertence ao plano semântico vinculado a “coração” e ao suposto de que, no Brasil, tudo passa pela esfera da intimidade, em um contumaz descompromisso com a ideias de bem público e em uma nítida aversão às esferas oficiais de poder. A noção de “homem cordial”, proposta por Sérgio Buarque de Holanda, no imaginário social, teve seu juízo invertido. Entendeu-se como uma louvação das nossas supostas relações cordiais, harmoniosas e receptivas, em vez de ser entendida a partir de seu sentido crítico: a nossa dificuldade de acionar as instâncias públicas com impessoalidade. Em tudo, dá-se um “jeitinho” sob forma de favor pessoal, naturalmente, recompensado a posteriori nessa cadeia de cordialidade…

Outra mania nacional é a de congelar a imagem de um país avesso ao radicalismo e parceiro do espírito pacífico, por mais que inúmeras rebeliões, revoltas e manifestações invadam a nossa história de ponta a ponta como mostram Schwarcz e Starling. Boas ideologias parecem ter o poder de se sobrepor à sociedade e gerar realidade. Neste País do imaginário social, é bem melhor “ouvir dizer” do que “ver”…

A recorrente projeção da imagem sonhada de um País diferente acaba nos levando a espelhar-nos nela? Quero crer, mas a maldita realidade é que o Brasil é campeão em desigualdade social e luta com dificuldade para construir valores republicanos e cidadãos.

Esses fenômenos não são exclusivamente internos. O País foi sempre definido pelo olhar que vem do exterior. O Brasil é ora representado por estereótipos que o designavam como uma grande “falta” – de lei, de hierarquia, de regras – ora pelo “excesso” – de lascívia, de sexualidade, de ócio ou de festas. Seríamos algo como uma periferia do mundo civilizado, habitada por uma brasilidade desajeitada, mas muito alegre, pacífica e feliz. Enfim, um local hospitaleiro, de valores exóticos, onde se encontra uma espécie de “nativo universal”, fruto de povos “estranhos” de todos os lugares.

Inspirados na ideia do canibalismo, brasileiros têm a mania de se reinventar e traduzir falhas em virtudes e prognósticos. Canibalizar costumes, desafiar convenções, enviesar supostos, é ainda uma característica local, um ritual de insubordinação e de não conformismo que, talvez, nos distingue ou, ao menos, transforma-se em uma boa utopia.

No País, o tradicional convive com o cosmopolita; o urbano com o rural; o exótico com o civilizado. E o mais arcaico e o mais moderno coincidem, um persistindo no outro, como uma interrogação.

A história do Brasil, por suposto, não cabe em um único livro. Schwarcz e Starling não pretendem contar uma história do Brasil, mas fazer do Brasil uma história. Por isso, a biografia talvez tenha sido o caminho escolhido por elas para tentar compreender o Brasil em perspectiva histórica. Escrever sobre a vida do nosso País implica questionar os episódios que formam sua trajetória no tempo e ouvir o que eles têm a dizer sobre as coisas públicas, sobre o mundo e o Brasil em que vivemos.

 

Continua no próximo post.

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