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Déficit no BTC e IDP Fluxo de IDP 2014-15BTC jan 2016Saldos de Investimento Estrangeiro em Carteira - janEfeito Preço e Importação

Os preços de importação de bens industrializados, em dólar, caíram em 15 de 22 setores na média de 2015, movimento que, ao lado da atividade em queda, tem atenuado o efeito da depreciação de cerca de 50% do real ocorrida no ano passado sobre os produtos domésticos. Em média, segundo cálculos da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), os preços de bens importados recuaram 11,2% no período. Em igual comparação, o Índice de Preços ao Produtor (IPP), do IBGE, subiu 8,84%, com alta em 21 dos 23 segmentos da indústria de transformação analisados.

Ao transformar a variação dos preços de importação de dólares em reais, porém, só o setor de derivados de petróleo, biocombustíveis e coque permanece com retração no ano, de 15,9%. O aumento médio de bens industriais importados na moeda brasileira foi de 30,2% em 2015 nos cálculos da 4E Consultoria.

A moeda americana chegou, ao fim de dezembro de 2015, cotada a R$ 3,95, ante R$ 3,97 ao término de setembro, o que deve manter estável as dívidas em divisas estrangeiras quando convertidas para real no balanço de 2015. Já o dólar médio do quarto trimestre ficou em R$ 3,84, enquanto a cotação média da moeda americana do terceiro trimestre (julho a setembro) foi de R$ 3,55, o que deve impulsionar os ganhos das exportadoras.

O dólar, ativo que serve de termômetro do nível de incerteza, subiu 1,68% no primeiro mês de 2016, mesmo após a alta de cerca de 49% do ano passado. A divisa chegou a alcançar, no dia 21 de janeiro, a maior cotação da história do Plano Real (R$ 4,163), mas recuou no último dia do mês.

Flavia Lima e Denise Neumann (Valor, 27/01/16) avaliam que, diante da rápida e surpreendente virada nas contas externas em 2015, as previsões do mercado rapidamente se ajustam, indicando déficit externo ainda menor em 2016 e próximo de zero em 2017, ainda que não necessariamente por bons motivos. Levados por expectativas pessimistas, que incluem mais um ano de queda da atividade econômica e de desvalorização cambial, analistas preveem déficit em conta corrente bem abaixo dos 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB) traçados pelo Banco Central para 2016. Para alguns, o déficit externo zera já neste ano.

Para o investimento direto no país, a expectativa é que o volume perca um pouco do ímpeto em 2016, mas continue cobrindo integralmente o déficit em conta corrente, com possível manutenção da composição surpreendentemente mais benigna desse tipo de recurso. O boletim Focus de janeiro de 2015 previa déficit externo de US$ 77 bilhões em 2015, coberto parcialmente por investimento direto de US$ 60 bilhões.

Um ano depois, a desvalorização de quase 50% do real e o tombo de 25% nas importações deixaram o déficit externo US$ 20 bilhões abaixo do previstoUS$ 58,9 bilhões, o menor em cinco anos. E coberto integralmente por um Investimento Direto no País (IDP) que chegou a US$ 75 bilhões, US$ 15 bilhões acima do projetado.

A tendência é que a queda do déficit externo se aprofunde, puxada por nova rodada de queda da demanda doméstica e alta do dólar. Cresce o grupo dos que esperam déficit zero já em 2016, algo que, segundo a metodologia antiga do BC – a nova por enquanto retrocede apenas até 2010 -, não ocorria desde 2007.

Em momentos de ajuste externo, tem tanto correção da taxa de câmbio quanto redução da demanda doméstica. O que ocorre é que, no Brasil, a redução da demanda doméstica foi muito forte, daí o ajuste rápido, que não parece saudável.

Nas contas do Credit Suisse, o déficit externo vai a zero em 2016, levado por uma taxa de câmbio de R$ 4,70 ao fim do período e balanço comercial de US$ 50 bilhões. Em 2017, a equipe liderada por Nilson Teixeira já prevê um superávit em conta corrente de US$ 10 bilhões, ou algo como 0,7% do PIB.

O Bradesco também avalia que o cenário atual deixará o saldo em conta corrente como proporção do PIB próximo de zero em 2016. A análise, porém, baseia-se na metodologia antiga, abordagem mais relevante, segundo a equipe, para o conceito de fluxo cambial.

Além de mais baixo, o déficit externo contou com financiamento integral e, segundo a abertura dos dados, de maior qualidade também. Entre 2014 e 2015, é possível identificar um forte aumento da fatia dos investimentos feitos via participação de capital – de 59,7% para 75% -, a principal modalidade a indicar o interesse externo em projetos de longo prazo no país. Já a fatia dos empréstimos intercompanhia – o capital transferido da matriz para a filial no Brasil, sem garantias de que se destinará ao investimento produtivo – caiu de 40,3% em 2014 para 25% em 2015.

Outro ponto positivo é que o investimento direto via participação no capital trouxe mudanças setoriais importantes. A principal delas é a volta do interesse na indústria: o ingresso de capital para esse setor subiu 24% para US$ 20,9 bilhões. Na outra ponta, o setor de serviços perdeu atratividade, com queda de 15% sobre 2014.

Dentro dos setores, também há mudanças relevantes. O segmento de saúde recebeu US$ 1,338 bilhão, reflexo da mudança na legislação, que abriu a participação do investidor estrangeiro em hospitais e clínicas, entre outros. Antes, esse segmento nem aparecia separadamente nas estatísticas do Banco Central. Se o interesse foi forte em saúde, diminuiu em segmentos ligados à infraestrutura, como transporte, logística e construção de edifícios.

No setor de serviços, contudo, a maior diferença foi explicada pela redução do ingresso em serviços financeiros. Em 2014, essa área recebeu investimento direto de US$ 4,4 bilhões, valor que caiu para US$ 1,4 bilhão no ano passado. O valor do ano passado foi muito inferior à média dos quatro anos anteriores, de US$ 3,9 bilhões.

Pelo lado da indústria, o destaque é o setor automotivo, cujo ingresso somou US$ 4,5 bilhões, 55% acima de 2014 e bastante acima da média dos quatro anos anteriores, que foi de US$ 1,8 bilhão. Na ponta inversa, o setor de metalurgia foi o destaque negativo: ingressaram apenas US$ 870 milhões, valor 63% inferior ao de 2014 e muito abaixo da média de US$ 4,1 bilhões dos quatro anos anteriores.

O aumento da participação de capital é um bom sinal, especialmente de que há empresas novas interessadas no país. No caso da indústria, aos poucos pode-se ter uma mudança de perfil do investimento direto, de setores de serviços, que exploram apenas a demanda interna, para setores industriais, que podem ser voltados para exportações, como o setor automotivo.

Eduardo Campos e Alex Ribeiro (Valor, 27/01/16) avaliam que o ajuste nas contas externas em 2015 foi um dos maiores já registrados nas estatísticas do Banco Central compiladas desde 1947. O déficit em transações correntes caiu de US$ 104,181 bilhões para US$ 58,942 bilhões, queda de 43%. Em proporção do Produto Interno Bruto (PIB) saiu de 4,31% para 3,32%. Ajustes dessa magnitude só foram vistos e momentos históricos de forte reorientação macroeconômica ou graves crises como 1998, 1994 e 1982. A previsão é que o ajuste continue em 2016, mas com menor intensidade. A projeção do próprio BC é de déficit de US$ 41 bilhões, ou 2,69% do PIB.

A valorização do dólar (quase 50%) e a retração da economia explicam a redução de mais de 30% em quase todas as linhas do balanço externo (serviços, viagens e remessas de lucros e dividendos.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, diz que o câmbio é a primeira linha de defesa das contas externas e isso efetivamente ocorreu. “O regime de câmbio flutuante, não tenho dúvida, se portou como primeira linha de defesa.” Outro aspecto fundamental, segundo Maciel, é a composição do passivo externo, que agora é composto por investimentos e não mais por dívidas como nos anos 90. A implicação disso é que, em períodos de conjuntura adversa, com crises externas, a conta de juros não é mais um gargalo que se eleva e implica em um ciclo vicioso.

Hoje, como o passivo é de investimentos, a contraparte são os lucros e dividendos, que é uma rubrica pró-cíclica. Em momentos de bonança o fluxo cresce e não causa adversidade, em momentos adversos, se retrai.

O financiamento do déficit também voltou a ter perfil mais saudável, sendo coberto integralmente pelo Investimento Direto no País (IDP), o que não acontecia desde 2012. O IDP somou US$ 75,075 bilhões no ano passado, ou 3,94% do PIB. O BC previa US$ 66 bilhões. Em 2014, o IDP foi de US$ 96,895 bilhões, ou 4,01% do produto.

A redução do déficit do ano ficou melhor que o previsto pelo BC (US$ 62 bilhões) e pelo mercado (US$ 63 bilhões) resultado dos dados de dezembro, que surpreenderam, com déficit de US$ 2,460 bilhões, ante US$ 11,654 bilhões um ano antes. Aqui a balança comercial explica boa parte do ajuste, com superávit de US$ 6,068 bilhões, em comparação com déficit de US$ 8 milhões um ano antes.

Surpresa positiva também veio com o IDP de dezembro que somou US$ 15,211 bilhões – o próprio BC falava em US$ 6,1 bilhões. Aqui, chama atenção um ingresso de mais de US$ 2 bilhões para o setor elétrico, que pode estar relacionado aos leilões realizados no fim do ano passado. Os dados também captam a série de compras de empresas em diversos setores anunciados no encerramento de 2015. Os números reforçam a avaliação de que o Brasil “está barato” para os investidores internacionais.

No ano, o balanço comercial apontou superávit de US$ 17,670 bilhões, revertendo déficit de US$ 6,629 bilhões um ano antes. Para este ano, o BC estima um superávit de US$ 30 bilhões.

No balanço de serviços, o déficit cedeu 23%, para US$ 36,978 bilhões. Aqui, a conta de viagens teve um forte ajuste, com o dólar caro e a menor renda fazendo o gasto do brasileiro no exterior cair 32%, de US$ 25,567 bilhões em 2014 para US$ 17,357 bilhões. Descontando o que os estrangeiros deixaram por aqui, US$ 5,844 bilhões, a rubrica fechou o ano deficitária em US$ 11,513 bilhões, menor déficit desde 2010, após US$ 18,724 bilhões em 2014. Parciais de janeiro, até o dia 22, mostram déficit de US$ 180 milhões.

Menor lucratividade e dólar valorizado resultaram em redução de 33% nas remessas de lucros e dividendos, que fecharam o ano em US$ 20,793 bilhões. Em dezembro, as saídas nessa conta foram de US$ 3,965 bilhões, contra US$ 5,228 bilhões um ano antes. Com outra dinâmica, a conta de juros fechou em US$ 21,913 bilhões, contra US$ 21,340 bilhões em 2014. Para 2016, o BC estima remessas de US$ 20 bilhões e pagamento de juros de US$ 20,9 bilhões.

Os investimentos em carteira, principalmente os voltados à renda fixa, parecem captar a perda do grau de investimento. Os ingressos caíram a US$ 16,296 bilhões em 2015, contra US$ 27,068 bilhões em 2014 e US$ 30,957 bilhões em 2013. Para este ano, o BC estima modestos US$ 6 bilhões, mostrando que juro alto não é a única variável considerada pelo investidor estrangeiro.

Na bolsa de valores, i.é, investimentos em renda variável, as entradas para compra de ações somaram US$ 6,528 bilhões, menor valor da série iniciada em 2010, depois de US$ 10,872 bilhões em 2014.

O balanço comercial de petróleo e derivados registrou superávit de US$ 394 milhões em janeiro de 2016. O número, influenciado pela forte retração na importação desses produtos, representa uma melhora significativa na comparação com janeiro do ano de 2015 – quando houve déficit de US$ 685 milhões. É o melhor resultado para meses de janeiro desde 1997, quando começa a série histórica do governo, e o primeiro superávit para meses de janeiro desde 2011.

O fluxo comercial do petróleo contribuiu para o desempenho geral do balanço comercial brasileiro. No total, o país registrou superávit de US$ 923 milhões em janeiro de 2016 (revertendo o déficit de US$ 3,17 bilhões de um ano antes), alcançando o primeiro resultado positivo para um início de ano desde 2011. Também representa o melhor janeiro desde 2007.

Os números do balanço comercial são afetados principalmente pela queda de 35,8% nas importações (para US$ 10,323 bilhões em janeiro), causada pela desvalorização do real e pela retração da economia – o que gera menor demanda por produtos estrangeiros. Decresceram as importações em todos os grupos: combustíveis e lubrificantes (retração de 60,6%), bens intermediários (queda de 35,4%), bens de consumo (menos 28,8%) e bens de capital (menos 21,8%).

Já as vendas ao exterior alcançaram a cifra de US$ 11,246 bilhões, uma retração de 13,8%. Segundo o Mdic, as exportações em queda são resultado da retração internacional nos preços, já que houve crescimento de 8,4% na quantidade de produtos embarcados.

O ministério cita dentre os destaques de exportação no mês as vendas de soja, milho e automóveis de passageiros ao exterior. Nesse último caso, houve aumento de 98% em unidades exportadas, para 29 mil unidades. O crescimento nas vendas de carros ocorreu por vendas maiores para Argentina (aumento de 163,5% na quantidade), México (101%) e Colômbia (quase 400% de elevação). Nos dois primeiros, foram renovados no ano passado os acordos automotivos com o Brasil. No caso da Colômbia, o acordo entrou em vigor em janeiro.

A queda de exportação é um fenômeno causado pela redução dos preços, enquanto as quantidades sobem. Na importação, quantidade e preço caem – isso está ligado:

  1. ao câmbio [dólar alto] e
  2. à menor demanda interna por bens importados.

Balanço comercial jan 2016

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