Mercado de Trabalho em 2015

Mercado de Trabalho em 2015Massa Salarial 2013-15Emprego com carteira 2002-2015

Salário Mínimo X Renda Média

A política de reajustes reais do salário mínimo em vigor desde 2007, combinada ao efeito da recessão sobre a renda dos trabalhadores, deve reduzir um pouco mais a distância entre o piso nacional e o rendimento médio dos ocupados. Nos cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), o mínimo equivalia a 45% da renda média nacional em 2015, proporção que deve subir para 47% neste ano e alcançar 48% em 2017. A renda usada como referência foi a estimada pelo Ibre para a Pesquisa Nacional Por Amostra de Domicílios (Pnad) anual, do IBGE.

Tomando como base a comparação com a renda média, o salário mínimo brasileiro é relativamente mais elevado do que em países-membros da Organização para o Desenvolvimento e a Cooperação Econômica (OCDE), como EUA (37,4%), Japão (39%) e Canadá (44,1%), mas ainda bem abaixo do nível observado em outro grupo de economias desenvolvidas, em que se destacam França (62,8%), Nova Zelândia (59,5%) e Portugal (55,8%). Os dados mais recentes da organização são de 2013.

Com a correção de 11,68% efetuada em janeiro de 2016, o mínimo passou a R$ 880, suficiente para comprar 2,14 cestas básicas, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Essa quantidade é a maior nas médias anuais da série histórica desde 1979. Ainda segundo o Dieese, o piso atual representa o maior valor real da série desde 1983. Para fazer esse cálculo, a entidade corrigiu os valores médios anuais anteriores do mínimo pela inflação do segmento de menor renda apontada pelo Índice do Custo de Vida (ICV).

O Dieese estima que 48,3 milhões de brasileiros tenham rendimento referenciado no salário mínimo. Desses, 22,5 milhões são beneficiários da Previdência Social, 13,46 milhões são empregados, 8,16 milhões trabalham por conta própria e 3,9 milhões são trabalhadores domésticos.

Drenado por uma onda de demissões em quase todos os setores, o mercado de trabalho perdeu, no ano de 2015, 1,5 milhão de postos formais, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Com a redução de 3,7% no volume de carteiras assinadas no país, o número de trabalhadores formalizados chegou a 39,6 milhões, nível semelhante ao registrado em 2012.

O resultado foi o pior da série e o primeiro negativo desde 1999, devido ao retorno da lógica neoliberal ao comando do Ministério da Fazenda. Se ela permanecer em 2016, ou seja, se a formação desenvolvimentista do Nelson Barbosa foi temperada pela “lavagem cerebral” habitual dos que viram PhD nos States, projeta-se o fechamento de mais de um milhão de vagas. Assim, o biênio 2015-2016 pode superar a marca dos 2,5 milhões de empregos formais perdidos. A quem interessa o ajuste econômico em que o ônus é assumido pelas pessoas de baixa renda? Obviamente, as de alta renda…

A indústria liderou as demissões em 2015, com 608,8 mil cortes, reduzindo sua participação no volume vagas no país para 19,2%, contra 20,9% em janeiro de 2013. A construção civil foi a que mais perdeu em termos percentuais – as 416,9 mil demissões líquidas representam redução de 13,6% no estoque de emprego. Os serviços e o comércio, com, 276,1 mil e 218,7 mil, respectivamente, tiveram o primeiro desempenho anual negativo desde 1998. Enfim, recessão para neoliberal nenhum “botar defeito”. Ave, Joaquim Levy!

O total de desempregados nas seis principais regiões metropolitanas do país cresceu 42,5% no ano passado, somando 1,7 milhão de pessoas. O número expressivo, que explica em parte o avanço de dois pontos percentuais na taxa média de desempregode 4,8% para 6,8% -, é um dos reflexos mais visíveis da deterioração que atingiu o mercado de trabalho em 2015, ao lado da primeira queda registrada pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) para a massa de rendimentos, de 5,3%, e a retração mais intensa da série da renda média real, de 3,7% em relação a 2014. Salve, Nelson Barbosa!

Os sinais desse desgaste, contudo, vão além dos principais indicadores. O volume de chefes de família cresceu 54,8% entre os desempregados, 500 mil pessoas. A participação das vagas com carteira assinada no total da ocupação caiu quase um ponto percentual, para 54,5%. Do outro lado, o emprego por conta própria avançou de 18,7% para 19,4% entre um ano e outro e atingiu 20% em dezembro – nível registrado pela última vez em novembro de 2004.

Esse aumento é uma das principais expressões da precarização da composição do emprego no ano passado. O rendimento médio real do trabalho por conta própria foi o que mais recuou (4,1%) em relação a 2014, contra 3,3% entre os trabalhadores formais. Isso mostra como o emprego por conta própria, nesse caso, é estratégia de sobrevivência.

O avanço do desemprego entre os chefes de família, que passaram a responder por quase um terço do total, é uma das mudanças mais surpreendentes mostradas pela PME entre 2014 e 2015. A dinâmica pode estar relacionada ao ritmo forte de demissões na indústria e na construção civil, que tradicionalmente empregam os arrimos de família.

No ano passado, eles perderam, respectivamente, 5,5% e 3,6% do total de empregos, o ajuste mais forte entre os setores. Em 2016, deve haver uma participação maior dos filhos e dos cônjuges, com o aumento do desemprego no setor de serviços e da procura por trabalho.

O ritmo mais acentuado de desgaste dos serviços nos últimos meses do ano passado deve dar o tom do comportamento desse segmento neste ano. À medida que a recessão vai se aprofundando, deve haver um impacto maior em ramos menos sensíveis à renda, como o de transportes. Em 2015, os serviços reduziram a ocupação em 1%, em média. O emprego doméstico foi o único entre os setores a absorver mão de obra, com alta de 1,5% no total.

A surpresa positiva observada em dezembro de 2015, quando a taxa de desemprego caiu de 7,5% em novembro para 6,9% – ante projeção de 7,3% – não muda a tendência de piora dos indicadores de mercado de trabalho esperada para este ano. Parte da frustração da estimativa veio de uma procura menor por trabalho, refletida na queda de 0,3% da população economicamente ativa (PEA) em relação a novembro.

Esse movimento, por sua vez, poderia ser uma consequência da própria recessão, diante da dificuldade crescente que os trabalhadores têm enfrentado para conseguir uma vaga. A hipótese do desalento é endossada pelo aumento de 8,7% no ano passado no grupo dos inativos que gostariam e estavam disponíveis para trabalhar.

De qualquer forma, a expectativa é que a PEA cresça com maior vigor neste ano, impulsionada por nova queda nos rendimentos – que cria a necessidade de que mais integrantes da família contribuam com o orçamento doméstico. Ao lado da continuidade do ajuste do lado da ocupação, o volume maior de pessoas em busca de uma vaga pressionará ainda mais a taxa de desemprego, que deve atingir média de 10% em 2016.

A PEA já deu contribuição para o aumento do desemprego no ano passado. Em 2015, ela avançou 0,6%, contra queda de 0,7% no ano anterior. Salvador foi a capital onde o desemprego médio mais cresceu no ano passado, 2,7 pontos, chegando a 11,8%. No Recife, a taxa avançou 2,4 pontos, passando de 6,5% para 8,9%. Em São Paulo, saltou de 5% para 7%; em Belo Horizonte, de 3,7% para 5,6%; em Porto Alegre, de 3,8% para 5,6%; e no Rio de Janeiro, de 3,5% para 5,2%.

A PME será descontinuada em março de 2016, com a divulgação dos dados de fevereiro. Em seu lugar, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua passará a ser o indicador oficial.

A renda disponível para o consumo no Brasil caiu menos no ano de 2015 do que o sugerido pela brutal queda de 10% na massa salarial real das seis principais regiões metropolitanas no último trimestre de 2015 em relação a igual período de 2014, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No trimestre encerrado em outubro de 2015, a massa de rendimentos ampliada caiu 2,7% no país, já descontada a inflação, na comparação com igual período de 2014.

Menos do que a diferença do período de comparação, a queda mais contida na massa ampliada é explicada pelo emprego público, pela renda agrícola e pelos benefícios previdenciários e assistenciais pagos, que influenciam mais a renda do interior do que dos grandes centros urbanos.

Para o mesmo período em que a massa ampliada no país todo caiu 2,7%, a soma dos rendimentos nas seis regiões metropolitanas diminuiu 7,3%. Nessas regiões, de modo geral, o peso do setor privado, da indústria e do emprego formal é maior.

Entre agosto e outubro de 2014 e 2015, a massa salarial no país recuou 1,2%, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad Contínua), enquanto a soma de benefícios previdenciários cresceu 0,3% e os pagamentos de seguro-desemprego e abono salarial caíram, fortemente afetados pela alteração no calendário de pagamento desse último.

Uma parcela expressiva da massa ampliada de rendimentos vai começar 2016 reforçada pelo aumento de 11,7% no salário mínimo, que influencia os benefícios previdenciários e o seguro-desemprego, além do salário de muitos servidores públicos do interior (pequenas prefeituras e Estados mais pobres) e mesmo de empregados do setor privado.

Entendem a política social ativa do social-desenvolvimentismo? Recordem como era na Era Neoliberal, uma tristeza só…

8 thoughts on “Mercado de Trabalho em 2015

  1. O mínimo de R$880 corrigido em 11,68% em janeiro de 2016 compra 2 cestas. Mas não por si só. O preço dos produtos básicos da cesta básica, como arroz, feijão, milho, trigo e soja são, por lei, administrados. O PRONAF, implementado no ano de 1997, disponibiliza créditos necessários a produção familiar de alimentos, incentivando a infra-estrutura produtiva da propriedade familiar.

    Conseqüentemente, barateia e garante alimentos, independente de variações na massa salarial.

    O setor de serviços liderou o número de contratações. Sucintamente, até pouco tempo, era ele quem “puxava” a economia.

    Costumo dizer, que quem ganhou a eleição de 2014 não foi a Dirrrma, quem ganhou foi o emprego!

    É um pouco estapafúrdio assim por dizer, que a maior parte dos empregados no país pelo Governo Lula 1 e 2 e Dilma 1, se foi de serviços – e o mesmo não precise de qualificação -, estes representam como exemplos: o copeiro, o manobrista, o garçom, o operador de telemarketing, o lavador de prato e o entregador de pizza.

    E agora, parece que quanto maior estava o tamanho do coqueiro, agora maior será o tombo. Isso tudo, com o Judas do Levy longe… bem longe…

  2. A Agropecuária está passando incólume a crise, e ninguém até agora fez propaganda para a Ministra Kátia Abreu. Será ela a mulher responsável pela dinamismo e pela desenvoltura anti-cíclica na agricultura brasileira ?

      1. Respondo fazendo outra pergunta: O crescimento econômico de 4% da Era Lula se deveu a atuação talentosa de sua equipe econômica ou foi por causa do “vento” chinês? Difícil apontar que fatores tiveram maior peso. Empurrãozinho teve, mas ninguém é capaz de medir suas respectivas forças.

        Quanto à desvalorização, isso sim é importante. Me lembro bem que nessa época, a que me referi, o preço das commodities disparou. Graziano da Silva, entusiasmado, defendeu publicamente que era chegada a hora de se fazer uma mexida no câmbio. O tempo passou, e o governo não mexeu. Deixou ele “torto”. Cabisbaixo, o mesmo Graziano logo disse que isso significou uma “oportunidade perdida”. E qual era a chance desperdiçada pelo governo: aproveitar o boom de demanda e ganhar muitas divisas com as exportações. Dando uma ”linkada” com a história, o Brasil do café interveio no câmbio – exemplo clássico – , e deste modo, o a nação brasileira se potencializava a ser tornar uma das economias mais ricas do mundo. Isso segundo Celso Furtado.

        Pois bem o presidente Lula preferiu não intervir, pois segundo ele, “em time que está ganhando não se mexe”. Alegou que, caso viesse a depreciar o câmbio, no outro dia ia ter uma penca de importadores ligando no seu gabinete pedindo para apreciar o cambio. Lula, muito bem assessorado então, deixou transparecer o seguinte: esse câmbio (não alterado) é o ponto de equilíbrio, ou seja, acreditou piamente na economia neoclássica.

        É convencional em teoria econômica associar desvalorização com competitividade, aumento de produção, emprego e Y. No entanto, tenho dúvidas. Com relação ao custo de produtos industriais, como ele é muito elevado no Brasil, duvido que as receitas provenientes superem o dispêndio com máquinas e equipamentos.

        Agora, pelo lado da agropecuária, juntamente a depreciação atual, existe neste setor um respaldo maior do governo, como planos de exportação específicos e setoriais, e um aporte vultoso de recursos do BNDES alocados nas empresas do agronegócio. Fatores que, dentro de um leque de políticas, facilitam as exportações a luz do câmbio.

      2. Prezado Décio,
        acho que estamos de acordo no essencial. Fenômenos macrossociais são multicausais.

        Tenho estudado “dependência de trajetória”, ou seja, que “a história importa”, a possibilidade de rupturas, inovações, etc., o afastamento progressivo em relação às condições iniciais, determinismo caótico, não-linearidade, complexidade, auto-organização, etc. em busca do desafio inalcançável de entender o mundo…
        att.

  3. Fernando, vc poderia passar a referência dessa afirmação:

    Tomando como base a comparação com a renda média, o salário mínimo brasileiro é relativamente mais elevado do que em países-membros da Organização para o Desenvolvimento e a Cooperação Econômica (OCDE)

    Obrigado

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