Querelle des écoles

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Querelle des écoles” é uma expressão francesa que debocha da discussão entre escolas de pensamento como mero diletantismo de acadêmicos. “École”, em francês, designa também os partidários de um movimento, de uma doutrina. “Faire école” significa ter discípulos, adeptos.

Quando lemos uma reportagem a respeito de Qual é o legado de Keynes? (Valor, 19/02/16), pelas entrevistas concedidas por representantes da nova geração de acadêmicos, parece que a uma disputa fratricida se reduziu o debate entre economistas brasileiros. Cada qual defende sua escola “com unhas e dentes” tal como partidários sectários. Pior, os colonizados, culturalmente, defendem sua filiação norte-americana…

Analisem essa amostra. Bernardo Guimarães, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EESP-FGV), avalia o governo Dilma como fosse tocado por póskeynesianos! Querendo se afastar da defenestrada “Nova Matriz Macroeconômica”, esquece que Guido Mantega e Márcio Holland, respectivamente, ministro e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, são seus colegas, isto é, professores de sua Escola, berço do Novo-Desenvolvimentismo. Eles implementaram, aliás, com relativo sucesso, a principal receita dessa corrente: uma maxidepreciação da moeda nacional sem mudar o patamar inflacionário. Em 2015, depois que saíram, o gradualismo foi abandonado e o tratamento de choque neoliberal o elevou.

Para Guimarães, as interpretações heterodoxas de Keynes deixaram de ser aceitas na comunidade internacional na década de 70. “Aí chego ao Brasil e aqui tem um pessoal que se define como ‘pós-keynesiano’. E isso é uma parcela muito grande das pessoas que estão nas universidades federais e na Unicamp. Não tenho problema com isso. Só que tem uma tensão muito grande na academia brasileira porque é preciso avaliar os departamentos e os recursos são escassos.”

Fica claro que, por trás da feroz crítica aos “concorrentes”, está o mercenarismo, ou seja, a qualidade, o caráter ou a atitude de quem age, trabalha ou serve apenas por interesse financeiro. Nos últimos 30 anos, a ética profissional do mundo acadêmico americano foi deteriorada, convertendo-se em atividades do tipo “pay to play” (pague para participar) ou apresente seu parecer por encomenda – paga naturalmente. Os PhDeuses trouxeram também essa bugiganga para os tapuias.

Outra foi o “publish or perish”. “Publicar ou perecer” é uma expressão cunhada para descrever a pressão na academia para publicar, rápida e continuamente, artigos para sustentar a carreira através de pontinhos Qualis – e receber financiamentos de pesquisas, bolsas de estudo e verbas para viajar. A publicação frequente é um método meramente quantitativo à disposição para demonstrar suposto talento acadêmico.

Publicações de sucesso” são aquelas em que os autores submetem suas ideias de maneira que não sejam censuradas como antagônicas às dos “cegos” (sic) que dão pareceres. Na atual percepção acadêmica, excelência tem quem publica frequentemente em revistas internacionais “triple A”. A submissão ocorre tal como aos rankings de agências de avaliação de risco. Lógico, não se aceita “heterodoxia”…

Os estudiosos que se concentram em atividades docentes de ensino, que não resultam em publicações, ou que fazem pesquisa aplicada à economia brasileira, perdem na competição por financiamentos disponíveis. A pressão para publicar tem sido responsável por inúmeros trabalhos em formatos academicistas que quase ninguém lê. Ao contrário ocorre com quem opta por escrever para colegas e leigos na rede social: é muito mais lido! E rapidamente, não necessitando só escrever textos atemporais.

Daí que todo o mundo acadêmico busca seu nicho de mercado editorial. Cada qual só envia artigos à revista de pares que não o vetariam a priori. Há a troca de favores de citações mútuas e a exclusão da bibliografia dos nomes dissidentes e/ou opositores.

Tudo isso já tem outras más consequências práticas. Novas gerações de economistas estão brotando com rótulos na testa! “Eu sou neoclássico da FGV-RJ”, “eu sou novo-keynesiano da PUC-RJ”, “eu sou pós-keynesiano da UFRJ”, “eu sou austríaco do INSPER”, “eu sou novo-desenvolvimentista da EESP-FGV”, “eu sou social-desenvolvimentista do IE-UNICAMP”, “eu sou eclético da FEA-USP”, e assim por diante. Os professores não são tão homogêneos…

E os filiados a essas correntes teóricas misturam tudo, cometendo o “vício ricardiano” ao cair diretamente da mais alta abstração teórica para o mais baixo nível de preceitos práticos. Há inúmeros exemplos de que não se dimensiona o que está falando, esquecendo-se que ciência exige testes de falseamento de hipóteses por medição empírica.

Por exemplo, os neoclássicos diagnosticam que o problema do financiamento na economia brasileira é o da carência da poupança e receitam o que resulta no “paradoxo da parcimônia”! Ignoram o sofisma da composição.

Os novos-keynesianos diagnosticam que há racionamento quantitativo da oferta (e não carência da demanda por causa de juro alto) de crédito bancário como efeito do contumaz trio assimetria de informações-seleção adversa-risco moral. Pregam os seguintes instrumentos para reduzir o problema do risco moral nos contratos de dívida:

  1. o comprometimento maior do patrimônio líquido,
  2. a transparência com o monitoramento pelo credor do projeto executado pelo devedor,
  3. a aplicação de cláusulas restritivas pelo cadastro não positivo, e
  4. a fiscalização dos bancos.

Pelo contrário, os pós-keynesianos adotam ou a interpretação da crise pelo excesso de crédito ou o eterno diagnóstico da armadilha da liquidez na medida que enxergam permanente preferência pela liquidez dos bancos! Não testam essa hipótese, empiricamente, para perceberem que bancos têm sim preferência pela rentabilidade com certa aversão ao risco. Não adianta a evidência de que, por causa do custo de oportunidade, nenhum banco brasileiro retém moeda strictu sensu. Isso falseia a hipótese de que o desemprego tem por causa o armazenamento de moeda ociosa.

Então, pós-keynesianos relativizam o conceito de liquidez a la Hicks, achando que não há contradição teórica em substituir no portfólio moeda por quase-moeda sob forma de títulos de dívida pública. O carregamento destes ativos que pagam juros mantém o emprego. Não se atentam para o corte de gastos públicos e o consequente desemprego que ocorreriam caso houvesse um resgate maciço da dívida pública.

A Escola dos chamados Economistas Austríacos modernos, talvez aqui representada por alguns economistas ultraliberais, toma como patronos Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Foram inspirados pelo ataque de Hayek ao “ciencismo” ou monismo metodológico, ou seja, um único critério para julgar todas as ciências: levantamento de hipótese – testes empíricos – falseamento e descarte da hipótese – substituição por outra hipótese.

Partem da admissão reducionista de que a ação individual, racional e propositada é pré-requisito absoluto para se explicar todo o comportamento, incluindo-se o econômico, constituindo um princípio a priori que fala por si próprio. Com esse apriorismo radical são tão intransigentes que acham que seus teoremas específicos não são abertos a nenhuma verificação ou falsificação com base na experiência. A medida de correção ou incorreção de uma teoria econômica é apenas a razão. Possuem a crença de que se aprende mais por meio do estudo racional de como os processos do mercado livre convergem para suposto equilíbrio do que por meio de teste quantitativo de previsões econômicas. Essa atitude anti-empírica é completamente estranha à exigência de medição existente em qualquer ciência.

Receita prática? Preços livres. Assim, eles se movimentariam conforme as ações individuais racionais e, portanto, refletiriam informações sobre todo O Mercado. Isso resultaria em um mercado livre que os governos deveriam proteger a todo custo, porque equivaleria a uma sociedade livre de totalitarismo!

Como se sintetiza o pensamento econômico da Escola de Campinas, onde há professores que adotam ideias de várias correntes consideradas heterodoxas? Essa pluralidade de pensamentos partiu da tradição cepalina de rechaço da tese monoeconômica, pois “os campineiros” consideram que os países de capitalismo tardio possuem características econômicas distintas dos países industrializados avançados. Sendo assim, a análise econômica ortodoxa, inspirada nesses países, deverá ser superada, com alguns conceitos “heterodoxos”, quando se aplicar teoria econômica à concepção de política socioeconômica para os países atrasados.

Então, no plano metodológico, o conhecimento de todas as matrizes econômicas – antes, Marx, Keynes e Schumpeter; agora, Kahneman, Veblen, Hodgson, Nelson & Winter, Bowles, Bar-Yam, Mitchell, etc. –, além da ortodoxia, é imprescindível na formação pluralista de um economista. No entanto, a contribuição específica dessa Escola está em um nível de abstração menor do que o da Ciência Pura, sendo este fundamento teórico pré-requisito para a Ciência Aplicada. Neste nível intermediário de abstração é onde se reincorpora as outras áreas de conhecimento antes abstraídas para a extração do fenômeno econômico puro. O nível mais baixo de abstração constitui a Arte das Decisões Práticas, por exemplo, as decisões financeiras e de política econômica.

Reconhece-se, aqui, que há um fenômeno de poder subjacente às relações econômicas. O comportamento das variáveis econômicas depende, em grande medida, de parâmetros não-econômicos: conflitos de interesses individuais e sociais, ações pessoais e coletivas. Portanto, é necessário, pós-tudo (neoclassicismos e keynesianismos), um conhecimento de Economia Comportamental, Institucionalista, Evolucionária e Complexa.

Supera o enfoque tradicional que se preocupa, essencialmente, em mostrar automatismos via livres forças do mercado. A Escola de Campinas retém-se:

  1. na caracterização histórica das estruturas e/ou instituições,
  2. na identificação dos comportamentos psicológicos erráticos dos agentes significativos,
  3. na configuração de um padrão de ação coletiva que, ao longo do tempo, torna-se uma instituição.

Instituição é constituída por um conjunto de hábitos, costumes e modos de pensar cristalizados em práticas aceitas e incorporadas pela comunidade. Lógica de ação é um conjunto de regras socialmente compartilhadas e recorrentes de pensamento e comportamento. Mas há espaço teórico para contemplar as inovações e rupturas.

A teoria do desenvolvimento deve concentrar-se nas interações entre determinadas categorias de decisões e as estruturas e/ou instituições. Das interações entre esses componentes emerge um Sistema Complexo que pode (e deve) ser analisado em diferentes escalas, datadas e localizadas. A política socioeconômica tenta orientar e/ou regular a dependência de trajetória sem ilusão que alcançará um equilíbrio estável. Tem de ser continuamente adequada ao seu tempo e lugar.

Aqui e agora, o social-desenvolvimentismo prega a inclusão social ao mercado através de conquistas de direitos da cidadania: civis, políticos, sociais e econômicos. Além, é claro, do cumprimento de deveres, tais como a honestidade do trato da coisa pública e o pagamento de impostos.

Ecletismo, passível de ser adotado pelos alunos e uma escola que se apresenta como plural, é uma diretriz teórica originada na Antiguidade grega, e retomada ocasionalmente na história do pensamento. Ela se caracteriza pela justaposição de teses e argumentos oriundos de doutrinas filosóficas diversas, formando uma visão de mundo multifacetada.

O sincretismo nasce do ato ou fato de se coligarem partes inimigas – “ortodoxia e heterodoxia” – em uma vã tentativa de conciliação. Não parece ser válido o esforço de fusão de cultos ou doutrinas econômicas antagônicas, com reinterpretação de seus elementos. Não se alcança uma síntese, razoavelmente equilibrada, de elementos díspares, originários de diferentes visões do mundo ou de doutrinas filosóficas distintas.

O eclético adota qualquer teoria, prática ou disposição de espírito que se caracteriza pela escolha do que parece melhor entre várias doutrinas, métodos ou estilos. Ele segue um composto de elementos colhidos em diferentes fontes, tornando-se praticante de uma doutrina aparentemente eclética, mas muitas vezes confusa e contraditória.

A etimologia vem tanto do francês “éclectique”, referindo-se a “o que não é exclusivo em seus gostos”, quanto do grego eklektikós,ḗ,ón, significando “apto a escolher, que escolhe”. O problema é escolher, coerente e consistentemente, uma política econômica que satisfaça, em simultâneo, a todos os interesses conflitivos existentes na sociedade brasileira.

Talvez, por isso, não seja incabível a expressão “querelle des écoles” já que refere-se à disputa entre os partidários de um movimento ou de uma doutrina. Os discípulos e adeptos das Escolas de Economia brasileiras defendem interesses econômicos concretos, sejam individuais, sejam corporativos, ou mesmo sociais e políticos. E antagônicos entre si. Em debate de fundo ideológico, parece não haver espaço para pressuposta neutralidade ou imparcialidade científica

Post-Scriptum:

Quanto à alegação, baseada na minha reflexão teórica (“crédito é dirigido pela demanda”) e na minha experiência prática (“tesouraria de banco faz operações compromissadas com todo o saldo líquido diário, i.é, depois da verificação pelos sistemas de informações de todas as entradas e saídas de caixa, inclusive os desembolsos por empréstimos concedidos”), cabe apresentar alguma evidência empírica. Afirmei que o custo de oportunidade de reter moeda, seja strictu sensu, seja quase-moeda, leva à preferência por rentabilidade, considerando a avaliação de risco dos potenciais clientes.

Isto pode ser provado por um ALM (“Alocação de Ativos e Passivos”) de um banco, onde eu estava trabalhando em dezembro de 2006. A gente contratava consultoria para ver como conseguiria demanda de crédito nas condições de mercado, pois as operações comerciais (crédito) tinha um spread de 37 pontos percentuais, enquanto o Caixa Central tinha 7,41 pp e a Tesouraria apenas 0,77 pp, menor até do que o de “compulsório/exigibilidades” (C/E: 1,51 pp) e de “políticas públicas” (PPb: 0,92 pp). Entretanto, em 2006, a Tesouraria retinha 50% do Ativo, a Caixa Central 4%, PPb 28%, C/E 12%, e Operações Comerciais só 6%. Com base nesses resultados (ex-post), é racional dizer que “banco tem preferência por liquidez e raciona crédito”?!

Não se concede mais crédito só quando não há mais demanda por ele nas condições de mercado exigidas! Quando eu era “PK horizontalista” já alegava isso (“crédito dirigido pela demanda”), para os “PK fundamentalistas”, mas estes não testam seus dogmas, pois são crentes e adoradores de Keynes…🙂

Contribuições dos Segmentos Bancários

Leia mais:

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2015/10/05/eco-nomista-e-narciso/

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