Equilíbrio ou Caos?

teoria do caos

Equilíbrio é uma condição hipotética do mercado na qual a oferta é igual à procura. Expressaria a estabilidade do sistema de forças que atuam na circulação e troca de mercadorias e títulos. Um sistema econômico seria considerado em equilíbrio quando todas as variáveis permanecessem imutáveis em determinado período. Se as condições de oferta e demanda mantivessem inalteradas, os preços tenderiam também a permanecer estáveis. Na realidade, condições “externas” (políticas e sociais) atuam sobre o equilíbrio de preços e acabam alterando essa idealizada estabilidade.

O “equilíbrio geral” supõe a análise de todas as variáveis relevantes para o problema em estudo, por exemplo, produção e preços de todos os setores de atividade. Dado o irrealismo dessas condições ideais – todos os agentes econômicos estarem com planos compatíveis entre si e com a disponibilidade de recursos produtivos e financeiros para realizá-los –, o “equilíbrio parcial” refere-se a dados restritos, por exemplo, a análise da evolução no preço de um produto, enquanto os outros se mantêm constantes.

Então, qualifica-se o equilíbrio como estável ou instável. Será estável se houver uma tendência para que “o equilíbrio original” se restaure, mesmo que haja ligeiras perturbações no preço ou na quantidade produzida. No entanto, se uma perturbação acidental dos preços ou das quantidades produzidas não gerar tais tendências, diz-se que o equilíbrio é instável. E se nunca houve esse “equilíbrio original” e houve, pelo contrário, um gradativo ou um rápido afastamento das condições iniciais? Quem as conhecia?

Durante a “guerra fria”, o mundo aparentava estar em “Equilíbrio de Nash”. Este é relacionado com a tomada de decisões antagônicas de dois competidores, no caso eram os USA e a URSS, que alcançam uma situação de equilíbrio, mas que por si prefeririam outras alternativas ou escolhas individuais, por exemplo, destruir o inimigo. Para conseguir um acordo sem risco de revanche, os concorrentes pela hegemonia mundial abandonam suas posições antagônicas e trabalham em um sentido cooperativo, ou pelo menos neutro, de tal forma que um não atrapalhe o outro.

Duas potências atômicas, caso não se apaziguassem, corriam o risco de destruição mútua. E agora com nove Estados que conseguiram detonar armas nucleares? Há quatro (Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte) que não se submeteram ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear como os Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França.

A economia mundial demonstra estar em caos mais do que em qualquer tipo equilíbrio. Caos, na tradição platônica, é o estado geral desordenado e indiferenciado de elementos que antecede a intervenção do demiurgo. Este é o artesão divino ou o princípio organizador do universo que, sem criar de fato a realidade, modela e organiza a matéria caótica preexistente através da imitação de modelos eternos e perfeitos. Em síntese, o caos constitui uma mistura de coisas em total desequilíbrio.

Entretanto, na Física, caos é o comportamento de um sistema dinâmico que evolui no tempo, de acordo com uma lei determinista. Ele é regido por equações cujas soluções são extremamente sensíveis às condições iniciais, de modo que pequenas diferenças iniciais acarretarão estados posteriores extremamente diferentes – o “efeito borboleta”. Mas o caos primordial é um suposto estado de mistura e irregularidade dos elementos no espaço, antes de se separarem e ordenarem para formar o Universo.

Afastando-se da visão do caos como confusão, mistura confusa dos elementos, um inferno em suma, onde predominam as trevas, não se entende o caos como aquilo a que tudo será reduzido. Em outras palavras, não é o colapso e/ou o fim do mundo. É possível inspirar-se na visão do caos como uma dependência de trajetória para entender um Sistema Complexo como é a economia mundial. As fronteiras nacionais são criações arbitrárias face às geoeconômicas ou mesmo as geopolíticas, onde se impõem certas hegemonias hierárquicas de poder tácito.

Um Sistema Complexo resulta das interações entre agentes heterogêneos, entre si e com o meio-ambiente, seja o natural, seja o socioeconômico. Configuram-se propriedades emergentes das redes de relacionamento entre classes de comportamentos com a auto-organização sem autoridade ou planejamento central. Estabelecem-se regras de interações sem possibilidade de dedução precisa de seu determinismo caótico, mas com possibilidade de regulação e/ou reorientação dentro de certas margens ou limites de variação.

O analista atualizado coloca ênfase na dinâmica, variações ao longo do tempo, quer com dependência de trajetória, quer com retroalimentação. Observa as noções de aprendizado, adaptação e evolução com inovação ou ruptura. Dá importância à não linearidade, isto é, aos desvios, percalços ou complicações, apresentando outras escalas de descrição e análise, dada a redundância da escala 1:1 – “o mapa perfeito” (e inútil).

Construir boas ferramentas de visualização de redes de relacionamento, cadeias produtivas e interconexões internacionais ajuda a desvendar a Complexidade. Se focar apenas em uma ligação, e então excluir o resto, ela na realidade fica menos previsível do que se considerar todo o Sistema Complexo e, então, escolher as esferas de influência que mais importam. Muitas vezes é uma particularidade de um nódulo que importa, dentro de interconexões de um ou dois graus, para abranger toda a Complexidade. Em uma rede ordenada, deve-se focalizar o nódulo-chave, então, olhar um grau, dois graus ou três graus além deste nódulo, e eliminar boa parte do conjunto sistêmico que está fora da esfera de influência imediata.

Quais são os nódulos-chave que ajudam a destrinchar o aparente caos conjuntural da economia mundial?

Primeiro, a tripla transição dos motores de crescimento da China, passando a ênfase da indústria para os serviços, de exportação para o mercado interno, e de investimentos em infraestrutura para consumo doméstico.

Segundo, o decorrente colapso das cotações das commodities, destacadamente petróleo e minérios, mas também agrícolas, com impactos nos países emergentes exportadores.

Terceiro, as políticas monetárias divergentes entre o afrouxamento monetário na Europa e Japão e a elevação do juro norte-americano, apreciando o dólar e depreciando as demais moedas nacionais.

Quarto, dada a desaceleração das economias emergentes e a busca por segurança e rentabilidade do capital, seu “repatriamento” da periferia para o centro, retomando e consolidando a hegemonia norte-americana.

Adeus, Brics? Adeus, pré-sal? Adeus, social-desenvolvimentismo? Aguardar e ver…

O que está havendo nos mercados? Cinco teorias tentam explicar o caos

Por SAUMYA VAISHAMPAYAN (WSJ, 12 de Fevereiro de 2016)

“A crescente volatilidade que os mercados de ações, títulos de dívida, câmbio e commodities estão experimentando neste ano lançou os investidores numa busca frenética para descobrir o que está acontecendo.

As turbulências nos mercados se intensificaram com bolsas despencando no mundo todo diante da fuga dos investidores das ações para investimentos considerados mais seguros, como as notas do Tesouro americano. (…)

Enquanto investidores e analistas procuram motivos para a volatilidade global, o que parece plausível hoje é rapidamente descartado quando o mercado deriva para outra direção. Não faz muito tempo que a queda nos preços do petróleo era considerada o principal fator empurrando as ações para baixo. Mas, agora, o índice S&P 500 já recuou mais neste ano que seu subgrupo formado por empresas de petróleo — e a queda de ambos foi superada pela dos papéis de empresas financeiras.

Encontrar uma tese abrangente e amplamente aceita tem se mostrado difícil, o que levou ao surgimento de várias explicações concorrentes, todas elas bastante insatisfatórias.

Então, qual a melhor maneira de explicar o comportamento dos mercados em todo o mundo? Eis aqui cinco teorias:

É culpa dos especuladores

Enquanto o Federal Reserve, o banco central dos EUA, passava a maior parte de 2015 se preparando para elevar os juros, os investidores apostaram que os bancos embolsariam o aumento da diferença entre o que cobram por empréstimos e o que pagam pelos depósitos. Mas as ações de empresas financeiras vêm despencando neste ano depois que investidores abraçaram a ideia de juros “mais baixos por mais tempo” — uma previsão sóbria de que os juros não subirão muito durante anos. O Banco do Japão surpreendeu um já titubeante setor financeiro global ao levar seus juros para território negativo, em 29 de janeiro de 2016. E agora, até o próprio Fed não descarta essa possiblidade, como indicou sua presidente, Janet Yellen, ontem.

Isso ressalta tanto o pessimismo sobre a economia global quanto o vaivém visto nos últimos 12 meses nas operações financeiras baseadas em grandes questões “macro”.

“O dinheiro especulativo foi para os bancos no fim de 2015 porque eles antecipavam altas nos juros, e aí esse dinheiro foi embora”.

Ansiedade ao redor do yuan

Alguns dizem que o atual tumulto nos mercados tem raízes na China. Muitos investidores acreditam que o país não terá outra escolha a não ser desvalorizar o yuan, medida que poderá aprofundar a crise econômica global. As autoridades chinesas dizem que não pretendem desvalorizar a moeda, mas alguns fundos de hedge estão tentando forçar a mão fazendo apostas de bilhões de dólares contra o yuan.

Analistas estão acompanhando este confronto de perto, depois que uma desvalorização do yuan, em agosto de 2015, deflagrou uma onda global de venda de ações. Por trás desse movimento estava o receio de que a economia chinesa — cujos dados há muito são vistos com suspeita por Wall Street — está caminhando para um choque de realidade.

São os fundos soberanos

Países produtores de petróleo injetaram bilhões de dólares em fundos de investimento quando os preços da commodity estavam em alta. Agora, esses fundos estão liquidando ações compradas em tempos mais felizes e acelerando a forte queda do mercado nos EUA, teorizam alguns.

Claro que dados sobre quem está e não está vendendo são escassos e há certa razão em questionar se esses fundos, por maiores que sejam, podem realmente ter um efeito significativo nas bolsas dos EUA e do mundo.

Embora o banco J.P. Morgan estime que os fundos soberanos serão forçados a vender US$ 75 bilhões em ações em todo mundo neste ano, o mercado americano recentemente foi avaliado em US$ 20,95 trilhões.

“Os preços do petróleo serão constantemente pressionados, mas não se vê um fluxo de fundos soberanos alimentados por petróleo como uma ameaça mortal às ações dos EUA ou ações em geral”.

Preocupações com os EUA

Muitos investidores temem que os EUA, que nos últimos anos foram a economia com o melhor desempenho do mundo desenvolvido, estejam prestes a ser derrubados por forças globais, inclusive a valorização do dólar.

O setor manufatureiro do país se contraiu pelo quarto mês consecutivo em janeiro de 2016. A criação de novos empregos, há muito o destaque da expansão econômica, desacelerou. O Fed expressou preocupação. Ao mesmo tempo, para acentuar as incertezas, o desemprego caiu e os salários cresceram, e muitos indicadores do mercado que podem apontar para dificuldades econômicas futuras parecem exagerados (considere a queda nas ações dos bancos, que derrubou o valor de mercado de grandes instituições dos EUA para abaixo do valor declarado do patrimônio líquido).

Não há crescimento

A queda nos preços do petróleo, desde junho de 2014, foi amplamente atribuída ao excesso de oferta, já que produtores de todo mundo continuaram extraindo mesmo com os preços deprimidos. Mas, com a cotação do petróleo registrando novos recordes de baixa neste ano, os investidores passaram a apontar para uma queda também na demanda.

“Se os preços das commodities como um todo estão fracos, isso diz que, no geral, a demanda global também está fraca”.

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