Aprendizagem Ativa

Aproximando-se do início de novo semestre letivo, onde ministrarei o curso “Economia no Cinema” com mais algumas inovações, tanto temáticas (Itália, Japão, África, Oriente Médio, Islamismo, Terrorismo, Economia do Petróleo, etc.), quanto metodológicas (uso de palestras da TED, estudo dos alunos prévio à aula, método socrático de perguntar para instigar as respostas, debates coletivos imediatos sobre o conteúdo da apresentação audio-visual, etc.), cabe uma reflexão sobre Aprendizagem Ativa. Para isso, reproduzo abaixo o post encontrado no site do meu colega da Unicamp, especialista em Educação:  Ricardo Gudwin’s Home Page.

O que é Aprendizagem Ativa ?

Aprendizagem ativa é um termo técnico para um conjunto de práticas pedagógicas que abordam a questão da aprendizagem pelos alunos sob uma perspectiva diferente das técnicas clássicas de aprendizagem, tais como aulas discursivas, onde espera-se que o professor “ensine” e o aluno “aprenda”. Na aprendizagem ativa, entende-se que o aluno não deve ser meramente um “recebedor” de informações, mas deve se engajar de maneira ativa na aquisição do conhecimento, focando seus objetivos e indo atrás do conhecimento de maneira pró-ativa.

Mas como isso funciona ?

Na prática, como isso funciona ? Em primeiro lugar, é necessária uma mudança filosófica na postura do professor em sala de aula. Ao invés de pré-organizar os temas importantes e expô-los de maneira metódica e coerente aos alunos, como no ensino tradicional, deve-se focar nos objetivos de aprendizagem que se deseja para eles.

Como professores, devemos nos perguntar quais são os itens de aprendizagem que queremos que nossos alunos tenham, e focar na elaboração de perguntas, tarefas, exercícios, projetos ou desafios, que motivem os alunos a correrem atrás do conhecimento necessário para atingir esses objetivos.

No passado, como as fontes de informação eram escassas, era mais difícil utilizar aprendizagem ativa, pois era necessário que a instituição contasse com uma boa biblioteca, onde os alunos poderiam buscar o conhecimento necessário. Hoje em dia, com a Internet, ficou muito mais fácil aplicarmos estratégias de aprendizagem ativa.

E isso funciona mesmo ? Ou é só mais uma técnica no meio de muitas ?

Utilizar técnicas de aprendizagem ativa, não é fazer experimentações com os alunos. Grandes universidades norte-americanas e européias estão gradativamente migrando muitos dos seus cursos para aprendizagem ativa. Estudos científicos foram feitos, medindo-se a aprendizagem dos alunos por meio de cursos convencionais, e comparando-se os resultados da aprendizagem dos mesmo cursos, ministrados utilizando-se de técnicas de aprendizagem ativa. Os ganhos na aprendizagem dos alunos são efetivos e evidenciados por estudos, e não somente a opinião de alguns entusiastas.

E como os alunos reagem à aplicação de técnicas de aprendizagem ativa ?

Existem diferentes tipos de reações. Alguns alunos acostumaram-se com o tempo a serem “passivos” em sala de aula, esperando que os professores “cumpram com seu trabalho” de “ensinar”, e resistem à necessidade de serem mais pró-ativos na aquisição de sua aprendizagem.

É muito comum ouvir-se pelos corredores, ao se introduzir as técnicas de aprendizagem ativa, que “esse negócio de aprendizagem ativa é só uma maneira dos professores livrarem-se de seu trabalho, transferindo-o para o aluno”, ou comentários de que o professor “tem preguiça de fazer o seu trabalho e quer que a gente trabalhe no lugar dele”.

Aulas expositivas muitas vezes dão uma falsa sensação de segurança para os alunos, que parecem entender tudo, mas só descobrem que não entenderam direito quando resolvem fazer exercícios e aí tem grandes dificuldades em resolvê-los. Essa falsa sensação de segurança com que estão acostumados, ou a insegurança que as vezes surge nas aulas com aprendizagem ativa,  pode causar uma reação antagônica às aulas com aprendizagem ativa. Em alguns casos, pode haver todo o conluio de uma turma inteira para boicotar a mudança na técnica pedagógica.

Felizmente, esses casos não são a regra geral. Muitas vezes ocorrem devido a uma prática imperfeita das técnicas de aprendizagem ativa, que necessitam ser melhor desenvolvidas e exploradas pelo docente. Na maioria das situações, os alunos são bastante receptivos ao uso de técnicas de aprendizagem ativa, principalmente depois que começam a colher os bons resultados do emprego da técnica.

Na aprendizagem ativa, ataca-se de frente algumas dificuldades dos alunos. Por um lado, isso pode ser um excelente caminho para o aprendizado (veja How Learning Works). Por outro lado, chamar a atenção para as dificuldades dá uma sensação de insegurança, o que explica por que alguns alunos acham que aprendem menos usando aprendizagem ativa (veja essa opinião). Este vídeo mostra um excelente exemplo do como alunos podem aprender mais, mesmo com a percepção de que a atividade que levou ao maior aprendizado foi confusa.

Então não é fácil aplicar aprendizagem ativa ?

Para que um docente passe a aplicar técnicas de aprendizagem ativa, é necessário muita preparação, e inicialmente dá um pouco mais de trabalho do que aplicar técnicas convencionais. O maior trabalho do docente é nas primeiras iterações, depois a coisa se ajusta.

A adoção de aprendizagem ativa tem que ser muito cuidadosa, e as atividades em classe devem ser apropriadas aos objetivos. A simples adoção de aprendizado ativo, sem levar em conta suas sutilezas e exigências, pode não levar a um impacto positivo (veja esse relato).

É necessário também um bom domínio dos temas sendo estudados, por parte do professor, pois as perguntas costumam ser mais elaboradas e complexas do que as que surgem em aulas convencionais.

É necessário também, desde o início, que os alunos compreendam muito bem como são as técnicas e qual a postura que precisarão ter durante o curso para que as técnicas sejam efetivas.

Em muitas situações, é necessário que o aluno venha para as aulas com uma leitura prévia de um texto ou capítulo de livro direcionado pelo professor. Caso o aluno não faça a leitura, ou resolva fazer uma leitura dinâmica somente durante a aula,  os resultados podem ficar comprometidos.

O professor precisa ficar atento para verificar se isso não pode estar ocorrendo, e adotar medidas para evitar que a prática não se consolide, o que pode comprometer os resultados do curso.

Em alguns casos, é necessário todo um trabalho de “evangelização” para que os alunos se conscientizem de que a adoção das técnicas de aprendizagem ativa está sendo usada para aumentar a eficiência da aprendizagem, e não é somente uma “experimentação” pitoresca.

É necessário, principalmente, muito diálogo com a turma, para que todas as dúvidas sejam dirimidas e os alunos se sintam confortáveis com a proposta pedagógica. Impor o uso das técnicas, sem um bom diálogo com a turma pode ser bastante contraproducente.

Mas me dê um exemplo, de como seria uma aula com aprendizagem ativa ?

Existem várias práticas, que veremos na sequência, mas descrevo aqui um exemplo de uma possível prática, que utilizei com êxito em uma turma de Engenharia de Software (teoria). Diferentes tipos de disciplinas demandarão diferentes tipos de técnicas, e a técnica descrita aqui não pode ser necessariamente utilizada em qualquer disciplina.

Uma das características da disciplina de Engenharia de Software é que é uma disciplina com um grande volume de conhecimento. Existem algumas habilidades práticas que se espera que os alunos adquiram (saber fazer), mas há também um grande número de conceitos teóricos que são importantes (saber saber) e precisam ser adquiridos. Para os conhecimentos teóricos, algumas técnicas podem ser utilizadas. Para os conhecimentos práticos, outras técnicas devem ser empregadas.

Para os conhecimentos teóricos, as aulas foram estruturadas na forma de um conjunto de perguntas, que exploram os conhecimentos mais relevantes que se espera que os alunos tenham conhecimento, tentando lapidar o mesmo em contraste com outros conceitos dos quais se diferenciam. É disponibilizado pelo professor um texto que deve ter sido lido anteriormente à aula, e que normalmente apresenta os conceitos a serem estudados.

As perguntas normalmente são apresentadas aos alunos em um retro-projetor, e o professor solicita que os alunos reunam-se em grupos idealmente de 3 a 4 pessoas, para debaterem entre si e tentarem responder às perguntas apresentadas em um único slide.

Dá-se um tempo de preparação, de acordo com o nível de dificuldade das perguntas (por exemplo, de 5 a 10 minutos), e após esse tempo, o professor interrompe o debate e passa a coordenar o debate de maneira global, entre toda a classe.

Nesse debate global, o professor abre o espaço para que os alunos, depois do pequeno debate que tiverem, exponham suas respostas. O professor deve coordenar a exposição e responder definitivamente a pergunta, caso ela não tenha sido adequadamente respondida pelos alunos.

Os alunos devem ter claro que:

  1. a aula é o espaço para eles dirimirem todas as dúvidas pertinentes ao assunto, e
  2. ao final da aula, terão que fazer individualmente um teste com uma única questão, em 15 minutos, onde terão o seu conhecimento testado.

O processo de avaliação deve também dar um grande valor à participação do aluno em sala de aula. No meu caso, a participação contava quase que 40% do valor da nota. Cada participação acertada na resposta das questões contabilizava 1 ponto a quem se arriscou a respondê-la. Respostas erradas não valiam nada, mas não eram penalizadas.

Qual a relação de aprendizagem ativa com PBL ?

PBL, ou “Problem-Based Learning” é uma das técnicas de aprendizagem ativa, onde a proposta para a atividade pedagógica é direcionada pela apresentação de problemas aos alunos, que devem procurar ativamente métodos para sua resolução. É particularmente interessante em disciplinas envolvendo Ciências e/ou Engenharia.

O que é “Peer Instruction” ?

O Peer Instruction, ou aprendizado entre pares, é um dos métodos que é utilizado na aprendizagem ativa. De uma maneira bem simples, o Peer Instruction acontece quando os alunos aprendem exatamente por meio da interação com outros alunos.

Por diversas razões, muitos alunos conseguem adquirir um melhor entendimento de alguma técnica ou conceito quando quem está lhes passando a informação não é o professor, mas um colega, ou monitor da disciplina. Uma possível explicação para a efetividade dessa técnica está no que os estudiosos de aprendizagem ativa chamam de “cegueira da dificuldade“.

Um professor treinado, que já domina um determinado conhecimento há muito tempo, muitas vezes não consegue entender quais as dificuldades que um aluno tem em entender um ou outro tópico, pois encontra-se tão distante da situação de aprendizagem do aluno, que não consegue transmitir de maneira efetiva o conhecimento que domina.

As vezes, é mais fácil que um outro aluno que entendeu o conhecimento o passe a um colega, pois este é capaz de entender melhor as dúvidas do colega. Ele utiliza uma linguagem que muitas vezes, a despeito de não ser a mais correta do ponto de vista formal, é mais efetiva para propiciar o entendimento por parte do colega aprendiz.

O que é Pseudo-Teaching ?

O conceito de Pseudo-Teaching é um pouco polêmico, mas possui um fundamento aparentemente válido, que merece uma melhor apreciação. A idéia é a de que aulas expositivas convencionais, a despeito de serem muito bem organizadas, constituindo-se algumas vezes em um verdadeiro “show”, por conta de exemplificações e demonstrações. Muitas vezes constitui uma atividade prazeirosa e até de entretenimento, devido ao domínio e o bom uso de técnicas de retórica pelo professor, tais como o uso do humor, piadas, encenações, pequenas histórias da vida real, ou a conversa amigável em tom de cumplicidade com os alunos. Porém, apesar de serem bastante apreciadas pelos alunos, NÃO constituem verdadeira fonte de aprendizagem para os alunos. São, na verdade, um “embuste” em termos de aprendizagem.

Dessa forma, os professores que tentassem deixar suas aulas mais interessantes utilizando-se desse expediente de show, na verdade estariam enganando-se a si próprios, e também aos alunos, ao oferecer uma experiência que, a despeito da boa aceitação por parte dos alunos, não reverteriam em um melhor aprendizado por parte destes.

As afirmações sobre os defensores da idéia de pseudo-teaching, apesar de polêmicas, são fundamentadas em estudos que avaliaram o rendimento de turmas de mesmas disciplinas, ministradas por:

  1. professores “show-man”, e
  2. professores “normais”.

O rendimento das turmas, em termos de desistências e reprovações, mostrou-se equivalente, a despeito dos alunos do professor “show-man” terem recomendado as aulas do professor “show-man” como sendo excelentes.

A razão para esse paradoxo, ou aparente absurdo, é que a despeito de serem interessantes, as aulas continuam sendo aulas onde os alunos adotam uma postura “passiva”, meros expectadores do show preparado pelo docente, não exercendo a pró-atividade necessária para seu aprendizado.

Onde posso conseguir maiores informações sobre esses assuntos ?

Seguindo os links acima assinalados e fazendo buscas na Internet.

Seguindo a própria recomendação da aprendizagem ativa, ao invés de indicar leituras específicas, direciono o leitor a buscar maiores informações sobre os seguintes termos:

  • Active Learning
  • PBL, Problem-based Learning
  • Evidence-based Teaching, Evidence-based Education
  • Peer Instruction
  • Pseudo-Teaching

Lembre-se que “o Google é seu amigo, bem como o YouTube“… Há diversos vídeos disponíveis, mostrando experiências de aplicação de aprendizagem ativa em diversas universidades nos EUA e Europa.

Tudo bem, vou fazer isso … mas dê pelo menos alguns links para eu começar o processo

Alguns links que podem ajudar:

Alguns textos interessantes:

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