Fones de Ouvido com Tradução Automática Universal

Fones de Ouvido com Tradução Automática

“Antigamente, quando viajava para outro país, eu levava um dicionário de bolso que me fornecia traduções de frases e palavras comumente usadas lá. Se quisesse construir uma sentença, eu tinha que folhear o dicionário por cinco minutos para criar uma expressão desajeitada, sem conjugar os verbos e com minha melhor aproximação do substantivo correto. Hoje, eu pego meu telefone e digito a frase no Google Tradutor, que faz uma tradução tão rapidamente quanto a minha conexão de internet permite, em até 90 línguas diferentes.

A tradução por máquinas está hoje bem mais rápida e mais eficiente que meu velho método do dicionário, mas ainda deixa a desejar em termos de precisão, funcionalidade e apresentação. Mas isso deve mudar em breve. Daqui a dez anos, calculo, todo mundo que está lendo este artigo vai poder se comunicar em dezenas de idiomas estrangeiros, pondo fim ao conceito da barreira da língua.

As ferramentas de tradução de hoje foram desenvolvidas através da computação de mais de um bilhão de traduções por dia feitas para mais de 200 milhões de pessoas. Com o crescimento exponencial dos dados, esse número de traduções será em breve feito numa tarde e, depois, em uma hora. As máquinas vão se tornar mais precisas num ritmo acelerado e serão capazes de analisar os menores detalhes.

Quando a máquina erra a tradução, os usuários podem apontar o erro — e aquele dado também será incorporado às futuras tentativas. É só uma questão de mais dados, mais poder de computação e um software melhor. Esses elementos surgirão com o tempo e preencherão lacunas de comunicação em áreas como pronúncia e interpretação das respostas.

As inovações mais interessantes virão com o desenvolvimento de hardware para interfaces humanas. Em dez anos, um pequeno fone de ouvido vai sussurrar o que alguém está lhe dizendo quase simultaneamente à língua que a pessoa estiver falando. A diferença de tempo será a velocidade do som.

E a voz no seu ouvido não será uma voz de computador como a do Siri, o assistente pessoal do iPhone. Devido aos avanços da engenharia bioacústica na medição de frequências, comprimentos de onda, intensidade do som e outras propriedades da voz, o software armazenado na nuvem e conectado ao aparelho no seu ouvido vai recriar a voz do seu interlocutor, mas falando na sua língua. Quando você responder, o seu idioma vai ser traduzido para o da outra pessoa, seja pelo aparelho no ouvido dela ou pelo microfone amplificado do seu próprio celular, relógio inteligente ou o que venha a ser o dispositivo pessoal em 2025.

As ferramentas de tradução de hoje também tendem a lidar com apenas dois idiomas de cada vez. Se você tentar usar uma máquina de tradução num exercício envolvendo três línguas, o resultado será uma confusão. No futuro, o número de idiomas sendo falados não vai importar. Você poderia oferecer um jantar em que oito pessoas falassem línguas diferentes à mesa, e a voz no seu ouvido sussurraria sempre o idioma que você quer ouvir.

A pesquisa e a comercialização desses avanços tecnológicos virão da interseção do setor privado com as comunidades de defesa e espionagem. A origem do Siri remonta a um projeto de inteligência artificial financiado pela Darpa, a divisão de pesquisas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Seu motor de reconhecimento de voz foi criado pela Nuance Communications, que vem discretamente fornecendo software de voz para 70% dos integrantes da Fortune 100, a lista das 100 empresas de maior receita dos EUA, e gastando mais de US$ 300 milhões por ano em pesquisa e desenvolvimento de biometria de voz.

A Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) e a unidade de interceptação de sinais (Sigint) das forças armadas de Israel investem grandes somas na pesquisa básica de tradução e biometria de voz, encorajadas, em grande parte, pelo quanto a criptografia está tornando as comunicações digitais mais difíceis de analisar. Uma proporção considerável da pesquisa na comunidade de espionagem lida com os dialetos, inflexões e nuances locais que, segundo intérpretes profissionais, tornam a tradução complexa demais para ser tratada por algoritmos. À medida que os militares israelenses envolvidos nesse trabalho passem para a reserva e os funcionários do governo dos EUA sejam atraídos pelos salários maiores do setor privado, essas inovações vão migrar para o domínio público.

Máquinas universais de tradução devem acelerar a crescente interconexão do mundo. Embora o estágio atual da globalização tenha recebido um grande impulso da adoção do inglês como a língua oficial dos negócios — ao ponto do número de não nativos que falam inglês ser hoje o dobro do número de nativos —, essa próxima onda vai abrir mais amplamente as comunicações ao eliminar a necessidade de uma língua comum.

Atualmente, se executivos coreanos e chineses, por exemplo, conversam sobre negócios num congresso no Brasil, eles falam em inglês. Isso não será mais necessário, o que vai abrir os negócios globais para pessoas de fora da elite e um número imenso de cidadãos que não falam inglês.

E essas não serão as únicas barreiras da língua que a tecnologia vai demolir. As máquinas também diminuirão o isolamento social de dezenas de milhões de pessoas com graves deficiências auditivas e de fala no mundo todo.

Numa viagem recente que fiz à Ucrânia, um grupo de estudantes de engenharia me mostrou luvas robotizadas que usam sensores flexíveis nos dedos para reconhecer os gestos da língua de sinais e traduzi-los para um texto num smartphone, via Bluetooth. O texto, então, é convertido em fala, permitindo a uma pessoa surda-muda “falar” e ser ouvida ao mesmo tempo.

Os benefícios econômicos dessa nova tecnologia devem ser óbvios. A tradução por máquinas vai abrir mercados hoje vistos como muito difíceis de serem penetrados.

Considere um lugar como a Indonésia. Há um monte de gente que fala inglês, chinês e francês em Jacarta e Bali, mas pouquíssimas na maioria das 6 mil ilhas habitadas do país. Se não houver a necessidade de ser fluente em javanês (ou em qualquer das outras 700 línguas faladas na Indonésia) para fazer negócios nessas outras províncias, então elas serão imediatamente mais acessíveis e o capital de fora será, por sua vez, mais acessível a elas.

O processamento de grandes volumes de dados, ou “big data”, aplicado à tradução vai tornar partes economicamente isoladas do mundo — como Papua Nova Guiné, que é rico em minerais e outros recursos naturais, mas assusta os investidores estrangeiros com suas mais de 850 línguas — e ajudar a integrá-las à economia global. Essas tecnologias vão tornar qualquer um de nós, a princípio, um mestre da Torre de Babel.”

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