Ascensão e Queda da Economia do Petróleo

Lucros e projeções de investimentos de petroleiras 2014-15Efeito desemprego na indústria de petróleo

Petroleiras instaladas no Mar do Norte estão investindo em novas técnicas de extensão da vida útil de campos antigos e de aumento da recuperação de óleo em poços em operação para aumentar a rentabilidade dos projetos, frente à dramática queda dos preços do petróleo. Com essa fórmula, que pode ser aplicada no cenário brasileiro, o custo médio de produção de petróleo na região deve cair 24% até o fim de 2016, de US$ 21 para US$ 16 o barril, de acordo com projeções da agência de óleo e gás natural do governo britânico.

As soluções aplicadas no Mar do Norte são de grande interesse para o Brasil porque a produção naquela região tem perfil semelhante à da Bacia de Campos, ainda a principal produtora do Brasil, respondendo por 65% da extração total de óleo do país hoje. Os campos do Mar do Norte têm aspectos de profundidade, temperatura e pressão parecidos com os da Bacia de Campos e, além disso, as regiões são maduras e registram declínio de produção.

No Brasil, o custo de extração (“lifting cost”) da Petrobras, em seu balanço do primeiro semestre de 2015, estava em US$ 14,36 o barril, sem a participação governamental. Estima-se que esse valor tenha recuado, principalmente devido ao aumento da produção no pré-sal, onde o lifting cost, segundo a estatal, é de US$ 8 a US$ 9 o barril, devido à alta produtividade dos poços da região.

O preço do petróleo Brent deverá ficar entre US$ 37 e US$ 46 neste ano e não deverá ultrapassar o patamar médio de US$ 60 até 2020. Hoje, há 2,5 vezes mais reservas globais de petróleo do que se tinha em 1980. O desafio do preço é complementado pelo aumento das exigências de redução das emissões de CO2.

Se o preço não se recuperar rapidamente, novas mudanças de atitude das empresas serão necessárias para gerar valor com o ativo que elas possuem. É preciso fazer mais com o mesmo.

Por exemplo, novas regras de definição do índice de conteúdo local para projetos da indústria de petróleo e gás brasileira vão tornar mais flexíveis as medidas de nacionalização no segmento e estimular novos investimentos por parte das companhias do setor, de acordo com o governo.

Isso é um aperfeiçoamento daquilo que já existia. A ideia é transformar multas, penalidades, em investimentos que possam ser atrativos para as empresas.

Na prática, serão considerados para cálculo do conteúdo local:

  1. a celebração de contratos de compra de bens, serviços e sistemas que tenham viabilizado a instalação de novos fornecedores no país;
  2. o investimento direto no processo de inovação tecnológica de fornecedores;
  3. a compra de bens e sistemas no país, com conteúdo local, para atendimento a operações no exterior; e
  4. a aquisição de lotes pioneiros de bens e sistemas desenvolvidos no país.

Atualmente, as regras só permitem a contabilização do conteúdo local da compra de equipamentos e serviços no Brasil.

Nos próximos 90 dias, serão criados dois comitês gestores para refinarem as regras do conteúdo local e tratarem da bonificação para as empresas que atenderem aos objetivos da política de nacionalização. Um comitê tratará das orientações relativas ao modelo enquanto o outro, mais técnico, fará análise sobre o assunto. Apesar das críticas das empresas com relação à aplicação de multas pesadas por descumprimento de metas de conteúdo local, a medida, do ponto de vista jurídico, não pode ser aplicada retroativamente. A iniciativa está em linha com a estratégia do governo de tornar o setor petroleiro mais atrativo.

A Sete Brasil — empresa emblemática do Capitalismo de Estado Neocorporativista que investia na futura Economia do Petróleo no Brasil — está no meio de um complexo processo de decisão a respeito de uma eventual recuperação judicial.

Os acionistas, reunidos em comitê de investimentos do fundo de participações FIP Sondas, estavam perto de aprovar a contratação da assessoria da Alvarez & Marsal para cuidar da reestruturação da Sete Brasil e desenvolver, entre as opções, um plano de recuperação judicial.

O FIP Sondas é o fundo por meio do qual os sócios controlam a Sete Brasil. O voto em assembleia da companhia é único do fundo. Por isso, precisa ser previamente definido dentro do comitê de investimentos.

O quórum para aprovação do assunto é de 85%. Por exemplo, acionistas com 70% das cotas do FIP Sondas podem ter votado a favor da contratação e ela não ser aprovada. Como se trata da reunião de comitê do fundo, a manifestação dos acionistas pode durar mais de um dia.

A opção pela recuperação judicial da Sete Brasil não é consenso entre os sócios. Na última vez que o tema foi discutido no comitê, a fundação Petros, dos funcionários da Petrobras, vetou a aprovação alegando falta de informações. Como detém 18% das cotas do fundo pode, sozinha, bloquear a decisão.

Os demais sócios da Sete BrasilBTG Pactual, Santander, Bradesco, Previ, Funcef, Valia, entrou outros – defendem a existência de conflito de interesses nos votos e manifestações da Petrobras e do fundo de pensão Petros. A Petrobras detém 5% do capital da Sete Brasil diretamente e mais 5% das cotas do FIP Sondas.

Por conta deste debate sobre conflito de interesses, os acionistas da companhia, criada para construir 28 estaleiros para a Petrobras, decidiram dissolver o Conselho de Administração. Dos 11 membros que estavam na composição do colegiado, três tinham alguma ligação com a estatal, por serem representantes da companhia e da fundação Petros. Agora, temas que não são da alçada da diretoria da holding precisam de uma assembleia de acionistas, que é precedida de uma reunião de comitê do FIP Sondas.

Diante do impasse em torno do futuro da Sete Brasil, algumas das principais fornecedoras globais de bens e serviços já começam a contabilizar suas perdas com o projeto de nacionalização das sondas. Enquanto os credores da empresa brasileira não chegam a um consenso sobre uma possível recuperação judicial da Sete, multinacionais como a Keppel Corporation, de Singapura, a japonesa Kawasaki e a norueguesa National Oilwell Varco (NOV) já reconheceram algumas perdas em seus balanços financeiros de 2015 e admitem que pelo menos parte delas podem não vir a ser recuperadas.

O caso mais recente é o da NOV, fornecedora de equipamentos submarinos que informou na semana passada a decisão de retirar cerca de US$ 1,2 bilhão de sua carteira de encomendas, após rescindir contrato com o Estaleiro Atlântico Sul (EAS), em Pernambuco. A norueguesa tinha um acordo para entrega de pacotes de perfuração para sete sondas.

A norueguesa ainda possui contratos de US$ 1,8 bilhão em carteira, para fornecimento de equipamentos para 15 sondas em construção nos estaleiros Brasfels (RJ), Rio Grande (RS) e Enseada (BA), mas destacou que tem reduzido o ritmo das atividades e que continua trabalhando, no momento, para só um desses estaleiros – onde as obras também vêm caindo de ritmo, segundo a empresa.

A situação no Brasil permanece incerta e continua dependendo da garantia de financiamento de longo prazo para o projeto das sondas da Sete Brasil. O único estaleiro que continuou trabalhando no Brasil também diminuiu o ritmo das obras no quarto trimestre.

Já a Kawasaki Heavy Industries, que detém 30% de participação no estaleiro Enseada do Paraguaçu, na Bahia, registrou perdas de 22 bilhões de ienes japoneses (US$ 187,9 milhões) no balanço do seu terceiro trimestre fiscal, relativos a contratos com a Sete. Além de sócia no Enseada, a companhia japonesa fornece serviços e equipamentos para o estaleiro e contabilizou perdas não só por “impairment” (perda do valor recuperável dos ativos), como também por inadimplência, perda no valor de estoques e por valores a receber pela transferência de tecnologia.

Segundo a própria Kawasaki, o Enseada não recebe nenhum pagamento da Sete há mais de um ano “devido a mudanças imprevisíveis no financiamento do projeto, causadas pela Lava-Jato” – que investiga sócias da japonesa no estaleiro como a Odebrecht e a UTC.

O atraso nos pagamentos, destaca, tem comprometido “seriamente” a posição financeira e o fluxo de caixa do estaleiro. Como resultado, a empresa [Enseada] tem ficado para trás em seus pagamentos à Kawasaki para a transferência de tecnologia e para a construção de partes do casco das sondas atualmente em construção em Sakaide, no Japão. A empresa também tem sido incapaz de fazer progressos sobre o reembolso de empréstimos concedidos pela Kawasaki.

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