Ascensão e Queda de Banqueiros: Operação XP de Desbancarização

Diferença entre taxas de juros de empréstimos

A etimologia do substantivo feminino bancarrota vem do italiano bancarotta (1598), formado de banca ‘banco’ + rotta ‘quebrado’. Significa quebra, falência ou insolvência, acompanhada ou não de culpa ou fraude do devedor. É a ruína, decadência, declínio do banqueiro. Curiosamente, na Era Neoliberal, o termo se refere também ao fato de O Estado, por impossibilidade financeira, suspender o pagamento de suas obrigações legítimas e vencidas.

Outro neologismo, emprego de palavras novas, derivadas ou formadas de outras já existentes, na mesma língua ou não, com atribuição de novos sentidos a palavras já existentes na língua, é bancarização. Não consta no dicionário, mas é linguagem comum entre banqueiros e bancários, significando “aumentar a clientela do banco”. Curiosa é outra unidade léxica criada por esses processos: desbancarização, antes dita “desintermediação bancária” por parte de instituições financeiras não monetárias, i.é, aquelas que não captam depósitos à vista em rede de varejo.

Luciana Seabra e Vanessa Adachi (Valor, 04/02/16) publicaram reportagem sobre um caso a se registrar na história bancária brasileira. Compartilho-a abaixo.

Desbancarize seus investimentos” – recomenda a bem produzida campanha da XP nos jornais, na TV e na internet. Enquanto isso, em Brasília, o diretor financeiro da empresa, Julio Capua, tem mantido reuniões no Banco Central para acelerar o processo para que a maior plataforma independente de investimentos do país possa ser também um banco. Na missão, ele é acompanhado de Frederico Ferreira, vice-presidente do General Atlantic (GA), fundo de private equity americano que comprou há três anos 30% da XP — fatia essa elevada a 34% há poucos meses — e que tem participado ativamente das decisões estratégicas da empresa. Ferreira aguarda o sinal verde do BC para se desligar do GA e comandar a nova operação bancária da XP.

Para obter a licença, a XP foi incentivada pelo BC a comprar um banco pequeno a caminho de se tornar inativo, cujo nome ainda é mantido em sigilo. A instituição passa agora por processo de ‘due diligence‘ e a expectativa da XP é que a aquisição seja concluída em dois meses.

Não é que eu esteja virando a casaca, virei banco, vou ser que nem os bancões… Não é isso“, argumenta Guilherme Benchimol, presidente da XP, empresa que começou a montar em 2001, quando tinha apenas 24 anos e já era um crítico contumaz da concentração bancária brasileira. De uma conversa inicial com a reportagem do Valor em dezembro, em que Benchimol chegou a fazer referência à XP como um futuro “bancão”, para outra em janeiro, o discurso ficou mais afinado para evitar cair em contradição.

Desde o início de 2014, Benchimol dá entrevistas divulgando a intenção de criar um banco virtual, mas só agora conseguiu aprovar um plano entre os sócios.

Benchimol confirma que o projeto inicial era criar um banco completo, com direito a contas correntes e tudo. Esse ainda é o plano para o longo prazo, diz. Mas, para agora, o projeto de banco aprovado pelos sócios visa apenas a oferta de um produto ainda raro no país, o crédito colateralizado. Nele, o dinheiro investido pelo cliente por meio do shopping financeiro vai servir de garantia a empréstimos bancários para esse mesmo cliente. Se ele tem uma letra de crédito que vence em dois anos, um fundo exclusivo fechado que autoriza apenas um saque por ano, ou vendeu ações e o dinheiro só entra na conta em três dias, em todas essas situações os investimentos poderão servir de garantia (colateral) para um crédito a ser concedido pelo novo banco, conta Benchimol. Ou seja, o cliente não precisa mexer em suas aplicações se precisar de liquidez temporária.

“Isso vai nos possibilitar dar para os nossos clientes o crédito mais barato do mercado”, diz o presidente da XP. E projeta que tal taxa será 50% menor do que o menor preço cobrado hoje por bancos de varejo, que estima em torno de 4% ao mês.

A XP é XP e não virará um banco. Ela é a plataforma on-line aberta de investimentos de maior escala do mercado brasileiro“, diz o executivo Martín Escobari, que dirige a General Atlantic na América Latina. Ele aprovou a compra de outros 4% da XP no segundo semestre do ano passado por um valor não revelado. O Valor apurou que o fundo teria avaliado a empresa ao redor de R$ 3,5 bilhões – o equivalente a 25 vezes o lucro de 2015, que foi de R$ 139 milhões.

Se 2015 foi um ano a ser esquecido por boa parte das empresas brasileiras, para a XP foi um período de crescimento acelerado e recorde de captação. Em boa parte dos meses a casa captou mais de R$ 1 bilhão. Em janeiro deste ano, Benchimol estima ter captado outro R$ 1,4 bilhão. Com isso, a XP fechou 2015 com R$ 30 bilhões em ativos sob custódia e a meta é concluir 2016 com R$ 50 bilhões.

“Se tivermos 10% disso colateralizado, estamos falando de um banco de R$ 5 bilhões em ativos de crédito”, diz Benchimol. Nesse patamar, o banco estaria acompanhado de outras instituições de médio porte, como Indusval e Sofisa.

Entre as corretoras do país, a empresa é uma ilha de prosperidade. Encerrou 2015 com R$ 700 milhões de receita e R$ 139 milhões de lucro líquido, mais que o triplo dos R$ 42 milhões de 2014. O número de clientes ativos bateu 110 mil, sendo que 40 mil contas foram abertas somente em 2015. “Nunca abrimos tanta conta na vida”, diz Benchimol.

O presidente da XP define a estratégia da empresa para crescer como a tentativa de ser a melhor em algum nicho e depois mudar de fase. Ser banco seria, assim, o curso natural de uma história que:

  1. começou por um agente autônomo, em 2003,
  2. evoluiu para uma corretora de renda variável focada na pessoa física em 2007,
  3. ampliou para a maior prateleira de fundos do mercado e depois
  4. acoplou papéis de renda fixa, justamente os principais responsáveis pelo fluxo de recursos em 2015.

Dos R$ 10 bilhões captados no ano passado, R$ 7 bilhões entraram em títulos públicos e privados de renda fixa. Uma das opções ofertadas aos clientes, por exemplo, foi montar uma carteira com títulos de pequenos bancos até o limite de cobertura de R$ 250 mil por instituição oferecida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Alto rendimento com risco zero. O restante do dinheiro captado pela XP entrou em fundos. Se ainda fosse dependente da corretagem de renda variável, a XP não teria uma boa história para contar.

Aos poucos, a empresa que por muito tempo se chamou de shopping de investimentos trabalha para se desvincular da imagem de varejo. Hoje o tíquete médio do cliente da plataforma é de R$ 250 mil. Em 2015, foram abertas 3,5 mil contas de mais de R$ 1 milhão.

Por trás de tal captação está o plano de aceleração de negócios, um sistema de recompensas em que o agente autônomo ganha R$ 4 mil para cada cliente milionário conquistado. E a XP acaba de estruturar uma área de gestão de riqueza (“wealth management“) para atrair um investidor ainda maior, com mais de R$ 3 milhões, sob o comando de Beny Podlubny, ex-Vinci Partners.

Há ainda um braço internacional, cujas receitas são uma aposta por conta da valorização do dólar. O escritório de Nova York vai mudar de endereço em abril para suportar o crescimento da equipe. A XP tem hoje 50 funcionários fora do Brasil.

Não só de louros, entretanto, é feito o momento da XP. A empresa acaba de perder executivos de peso – o responsável pela gestora de recursos, Patrick O’Grady; o diretor de varejo, Eduardo Glitz; e o presidente do portal de notícias InfoMoney, comprado pela XP em 2011, Pedro Englert. Marcelo Maisonnave, que fundou a XP junto com Benchimol, já tinha deixado o grupo em 2014.

O presidente da XP é pragmático ao comentar os movimentos de executivos. “Em algum ano não teve saída de gente importante?”, questiona. E lista a saída de Henrique Cunha, em 2013, Henrique Loyola e Bruno de Paoli, em 2012, e Alexandre Marchetti, em 2011, todos sócios com mais de 3% da XP.

Pode ser duro, tá? Mas as empresas que não mudam não dão certo, porque você tem que estar muito dinâmico para poder sobreviver, ágil para fazer ajustes. Isso é parte do processo de crescimento”, afirma Benchimol, em um discurso que evoca o modelo de sociedade do banco BTG Pactual, cujo sócio-fundador André Esteves ele diz ter tido como modelo desde sempre. “Eu cresci tendo ele como referência, como quem fez as coisas acontecerem: entrou no banco como estagiário, vendeu, comprou de novo.”

A lição que fica da prisão de Esteves, em novembro passado no âmbito da Operação Lava-Jato, diz o presidente da XP, é que o mundo é dinâmico. “É para ser cada vez mais atento, nunca dar brecha para que alguém possa questionar sua credibilidade.”

Com crescimento exuberante e um modelo de negócio dependente de 1,6 mil agentes autônomos – essencial para alcançar clientes em todo o país, mas polêmico pelo controle limitado sobre o serviço oferecido na ponta – a empresa atrai críticas, principalmente dos bancos. Entre as queixas dos concorrentes está a de disseminar entre pessoas físicas pouco conhecedoras do mercado de capitais produtos sofisticados como fundos imobiliários e debêntures de infraestrutura.

“Ficamos mais na vitrine porque temos muitos clientes”, defende-se Benchimol. “Dá a impressão de que a XP cresce porque não faz o negócio certo, não segue a regra. Sempre esse tom pejorativo. Espera aí, quer dizer que tem algo melhor do que eu? Mete a brasa aí”, provoca.

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