Extinção em Massa

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Elizabeth Kolbert, em “A sexta extinção: Uma história não natural”, cita que David Wake, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e Vance Vredenburg, da Universidade do Estado de São Francisco, observaram que “houve cinco grandes extinções em massa ao longo da história da vida em nosso planeta”. Eles descreviam essas extinções como acontecimentos que levaram “a uma perda profunda de biodiversidade”.

A primeira ocorreu no fim do período ordoviciano, cerca de 450 milhões de anos atrás, quando a maioria das criaturas vivas se restringia apenas ao ambiente aquático.

A mais devastadora aconteceu no fim do período permiano, há cerca de 250 milhões de anos, e quase esvaziou o planeta inteiro. Esse evento às vezes é chamado de “a mãe das extinções em massa” ou “o grande extermínio”.

A mais recente ― e famosa ― extinção ocorreu no fim do período cretáceo: além dos dinossauros, foram varridos da face da Terra os plesiossauros, mosassauros, as amonites e os pterossauros.

Qualquer evento que tenha ocorrido apenas cinco vezes desde o surgimento do primeiro animal com espinha dorsal, há cerca de quinhentos milhões de anos, deve ser qualificado como excepcionalmente raro. A ideia de que um sexto evento como esse estaria ocorrendo neste exato momento, mais ou menos diante dos nossos olhos, deixou Elizabeth Kolbert muito impressionada.

Com certeza essa história ― a maior, mais sombria e mais significativa ― também merecia ser narrada. Nós que vivemos hoje em dia somos não apenas testemunhas de um dos eventos mais raros na história da vida, mas também um de seus causadores, p.ex., pelo transporte com “uma pequena ajuda de um amigo”, o Homo sapiens, de uma espécie daninha: o fungo.

Os anfíbios estão entre os grandes sobreviventes do planeta. Os ancestrais dos anuros de hoje saíram de dentro da água há cerca de quatrocentos milhões de anos, e 250 milhões de anos atrás já haviam surgido os primeiros representantes do que se tornariam as ordens dos anfíbios modernos:

  1. a primeira inclui sapos, rãs e pererecas;
  2. a segunda, tritões e salamandras; e
  3. a terceira é formada pelas estranhas criaturas sem membros chamadas gimnofionos (conhecidos no Brasil como cobras-cegas).

Isso não apenas significa que os anfíbios existiam no planeta antes dos mamíferos ou dos pássaros, mas também que eles estão aqui desde o período que precedeu os dinossauros. A maioria dos anfíbios ― a palavra vem do grego e significa “duas vidas” ― ainda tem uma estreita ligação com o reino aquático de onde saíram.

Os anfíbios surgiram numa época em que toda a área terrestre do planeta fazia parte de um vasto continente chamado Pangeia. Desde a fragmentação de Pangeia, os membros dessa classe se adaptaram às condições de todos os continentes, exceto a Antártida. No mundo todo, pouco mais de sete mil espécies foram identificadas, e, embora a maioria seja encontrada nas florestas tropicais, há uma ou outra espécie, como o Arenophryne rotunda da Austrália, que vive no deserto. Existem também os que conseguem viver acima do Círculo Ártico, como o Lithobates sylvaticus.

Diversas espécies comuns na América do Norte, a exemplo do Pseudacris crucifer, são capazes de sobreviver ao inverno congelados, como picolés. A longa história evolutiva dos anfíbios significa que mesmo grupos que parecem bastante semelhantes da perspectiva humana podem, do ponto de vista genético, ser tão diferentes uns dos outros como, por exemplo, os morcegos dos cavalos.

No entanto, os anfíbios parecem estar desaparecendo não apenas de áreas populosas e degradadas, mas também de lugares relativamente intocados, como Sierra Nevada e as montanhas da América Central.

O fungo Bd interfere na capacidade das rãs de absorver eletrólitos importantes através da pele, levando-as a sofrer o que é, na verdade, um ataque cardíaco. Esse fungo Batrachochytrium dendrobatidis não precisa dos anfíbios para sobreviver, ou seja, mesmo após ter dizimado os animais daquela área, ele continua a viver, fazendo o que quer que esses fungos façam.

Portanto, se as rãs-douradas-do-panamá aos poucos fossem reintroduzidas nas montanhas ao redor de El Valle, elas adoeceriam e morreriam. Embora o fungo possa ser extirpado com água sanitária, é obviamente impossível desinfetar toda uma floresta tropical. A estratégia de preservar os animais até que pudessem ser soltos para repovoar as florestas poderá não dar certo. Não se consegue imaginar quando isso poderá de fato ocorrer.

Os biólogos falam de “extinção de fundo”. Em tempos normais ― conceito que deve ser entendido aqui como épocas geológicas inteiras ―, é muito raro ocorrer uma extinção. Mais raro até do que as especiações e só ocorre dentro de um fenômeno que é conhecido como taxa de extinção de fundo.

Essa taxa varia de um grupo de organismos para outro e muitas vezes é expressa em termos de extinções por milhão de espécies-anos. Calcular a taxa de extinção de fundo é uma tarefa trabalhosa, que implica passar um pente-fino em bancos de dados completos sobre os fósseis.

No que diz respeito ao grupo mais estudado, os mamíferos, foi constatada uma taxa de aproximadamente 0,25 por um milhão de espécies-anos. Isso significa que, considerando que existem cerca de 5.500 espécies de mamíferos vivas hoje em dia, de acordo com a taxa de extinção de fundo podemos esperar ― ainda que de modo aproximado ― que uma espécie desaparecerá a cada setecentos anos.

As extinções em massa são diferentes. Em vez de um zumbido ao fundo, há um estrondo, e as taxas de extinção disparam.

Extinções em massa são eventos que eliminam uma “parcela significativa da biota global em um espaço de tempo geologicamente insignificante”. Caracterizam-se como “perdas substanciais de biodiversidade” que ocorrem muito depressa e em “dimensão global”. É possível utilizar a metáfora da árvore da vida: “durante uma extinção em massa, vários galhos da árvore são cortados, como se ela estivesse sendo atacada por homens brandindo machados.”

Pode-se observar a questão do ponto de vista das vítimas: “Na maior parte do tempo, as espécies correm pouco risco de extinção.” Contudo, em raros intervalos essa “condição de relativa segurança é permeada por um risco muito maior”. Assim, a história da vida consiste de “longos períodos de tédio interrompidos pelo pânico ocasional”.

Em tempos de pânico, grupos inteiros de organismos outrora dominantes podem desaparecer ou ser relegados a papéis secundários, quase como se o planeta tivesse passado por uma troca de elenco. Essas perdas por atacado levaram os paleontólogos a supor que, durante eventos de extinção em massa ― além das chamadas Cinco Grandes, houve várias extinções de magnitude inferior ―, as leis habituais de sobrevivência são suspensas.

As condições mudam de maneira tão drástica ou repentina (ou ambas) que a história evolutiva é de pouca importância. Na verdade, os mesmos aspectos que se mostraram mais úteis para lidar com as ameaças comuns podem acabar se revelando fatais em circunstâncias tão extraordinárias.

Ainda não foi feito um cálculo rigoroso da taxa de extinção de fundo para os anfíbios, em parte porque os fósseis desses animais são raríssimos. É quase certo, contudo, que a taxa é inferior à dos mamíferos. O mais provável é que uma espécie de anfíbios seja extinta a cada mil anos, mais ou menos. Essa espécie pode ser da África, da Ásia ou da Austrália. Em outras palavras, as chances de um indivíduo testemunhar esses eventos deveriam ser nulas.

Hoje, os anfíbios desfrutam da distinção dúbia de ser a classe mais ameaçada do mundo no reino animal: calcula-se que a taxa de extinção do grupo pode ser até 45 mil vezes superior à taxa de fundo. Mas as taxas de extinção entre vários outros grupos estão se aproximando do nível da dos anfíbios.

Estima-se que estão a caminho do desaparecimento:

  1. um terço de todos os recifes de corais,
  2. um terço de todos os moluscos de água doce,
  3. um terço dos tubarões e arraias,
  4. um quarto dos mamíferos,
  5. um quinto de todos os répteis e
  6. um sexto de todas as aves.

Essas perdas estão ocorrendo em todos os lugares: no Pacífico Sul e no Atlântico Norte, no Ártico e no deserto do Sahel, em lagos e ilhas, nos cumes das montanhas e nos vales. Se você souber observar, há grandes chances de que encontrará indícios da atual extinção em seu próprio quintal.

Existem todos os tipos de razões aparentemente incompatíveis para o desaparecimento dessas espécies. Mas, se o processo for rastreado com profundeza suficiente, o mesmo culpado será achado: “uma espécie daninha”.

O Bd é capaz de se locomover sozinho. O fungo produz células reprodutivas microscópicas com flagelos longos e finos, que se impulsionam dentro da água e podem ser transportados por distâncias muito maiores, através de córregos ou escoamentos após fortes tempestades.

Uma teoria diz que o Bd foi movido pelo mundo afora com cargas de rãs africanas, usadas em testes de gravidez nos anos 1950 e 1960. Uma segunda teoria sustenta que o fungo foi espalhado pelas rãs-touro-americanas, introduzidas ― às vezes de modo acidental, às vezes, deliberado ― na Europa, na Ásia e na América do Sul, muitas vezes exportadas para o consumo humano. A primeira teoria poderia se chamar de “Mama África” e a segunda, de hipótese da “Sopa de Sapo”.

Seria impossível um anfíbio portador do fungo ir da África para a Austrália ou da América do Norte para a Europa sem que alguém o carregasse em um navio ou avião. Esse tipo de reorganização intercontinental, que hoje passa totalmente despercebida, talvez seja inédito nos três bilhões e meio de anos que constituem a história da vida.

Viva a globalização! Salvemo-nos da extinção em massa! Os seres humanos se comportam como “aprendizes de feiticeiro”…

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